A miséria da ideologia de direita e de esquerda em Cabo Verde

Para saber se podemos ser amigos

 Em Cabo Verde, para saber se podemos ser amigos, frequentemente é preciso atravessar o labirinto das aparentes ideologias que nos dividem. Aqui, direita e esquerda tornaram-se rótulos gastos, bandeiras que já não significam nada além de conveniência e oportunismo. A política deixou de ser espaço de ideias e passou a ser palco de vaidades, onde cada lado se alimenta da caricatura do outro. Nesse cenário, a amizade torna-se um teste: será que conseguimos reconhecer o humano para além da trincheira ideológica? Ou estamos condenados a medir afinidades pela miséria dos partidos?

 A política cabo-verdiana continua a mover-se sob uma dicotomia ideológica que, embora historicamente enraizada, revela-se cada vez mais obsoleta e contraproducente. A distinção entre esquerda e direita, nascida no contexto da Revolução Francesa, tem servido como referência para a classificação das posições políticas ao longo dos séculos. No entanto, como sublinham autores como Norberto Bobbio e Gomes Canotilho, trata-se de uma construção social e subjetiva, cuja validade depende do contexto histórico, cultural e político. Em Cabo Verde, essa distinção tem sido reproduzida de forma acrítica, muitas vezes desprovida de conteúdo programático, e instrumentalizada como ferramenta de exclusão, fidelização partidária e legitimação de práticas que contradizem os próprios princípios ideológicos que se invocam.

 A realidade política cabo-verdiana é marcada por uma profunda superficialidade ideológica. A maioria dos militantes e simpatizantes dos partidos, incluindo muitos dos seus próprios dirigentes, revela desconhecimento sobre o que significa ser de esquerda ou de direita. A fraca cultura geral – em especial a ausência de leitura crítica e de reflexão política – contribui para que a filiação e a simpatia partidárias em Cabo Verde se reduzam a vínculos emocionais ou utilitários. Em vez de convicções ideológicas, prevalecem simpatias pessoais, ressentimentos herdados e conveniências materiais, revelando a miséria do debate público. O alinhamento político é frequentemente ditado por vínculos familiares, expetativa e promessas de emprego, ou simples antipatia pelo adversário. Esta lógica personalista e clientelista mina a possibilidade de um debate público informado e plural, substituindo a cidadania por fidelidades acríticas e o contraditório por trincheiras emocionais.

 A miséria da ideologia em Cabo Verde não está apenas na pobreza dos seus conteúdos, mas na forma como é instrumentalizada. O PAICV, com raízes na esquerda libertadora, e o MpD, com ambições liberais, revelam hoje mais semelhanças do que diferenças. Essa convergência, porém, não significa maturidade política: apenas evidencia que ambos se acomodaram à mesma lógica de poder. Se há distinção, é que o PAICV parece cultivar maior sentido de Estado, enquanto o MpD se perde na ligeireza das conveniências. Ambos se apropriaram da linguagem ideológica para marcar território, não para propor caminhos. A esquerda já não é sinónimo de justiça social, nem a direita de liberdade económica. São apenas clubes, trincheiras, etiquetas que servem para excluir o outro e justificar o próprio vazio.

 Esta polarização ideológica, além de estéril, revela-se profundamente desonesta. As propostas políticas são avaliadas não pelo seu mérito, mas pela origem partidária. Se uma iniciativa parte do lado oposto, é automaticamente rejeitada, independentemente da sua utilidade pública. Esta lógica tribal transforma o hemiciclo num espaço de confronto simbólico, onde o contraditório é visto como ameaça e não como oportunidade de aperfeiçoamento democrático. A política torna-se um exercício de fidelidade cega, e o eleitor é reduzido a instrumento de legitimação, não a destinatário da ação governativa. É comum, sobretudo no MpD, que se desqualifique a posição do PAICV por exemplo, no caso da privatização atribuindo-lhe uma motivação puramente ideológica. Essa leitura, porém, revela mais sobre a pobreza do debate político do que sobre a proposta em si.

 A incoerência entre discurso e prática é particularmente evidente na política de privatizações conduzida pelo MpD. Apresentando-se como partido de direita, defensor do mercado e da iniciativa privada, o MpD levou a cabo um processo de privatização quase cego, alienando empresas públicas estratégicas sem uma avaliação rigorosa dos impactos económicos e sociais. Algumas dessas empresas foram vendidas a entidades estatais estrangeiras, num paradoxo ideológico que expõe a superficialidade do posicionamento político. A CVTelecom, por exemplo, foi parcialmente privatizada em condições que levantaram dúvidas sobre a preservação da soberania digital do país. A CECV, instituição financeira com papel social relevante, também foi alvo de alienação, com consequências que ainda hoje se fazem sentir. A TACV, vendida a uma empresa estrangeira, acabou por ser renacionalizada após resultados desastrosos. Estes episódios ilustram como o fanatismo ideológico, aliado à ignorância e à ausência de planeamento estratégico, pode comprometer o interesse nacional e expor a fragilidade das instituições.

 Importa reconhecer que, num país em desenvolvimento como Cabo Verde, com parcos recursos e elevada vulnerabilidade externa, a intervenção do Estado não é uma questão ideológica é uma necessidade estrutural. Independentemente do partido que estiver no poder, o Estado tem a obrigação de proteger os mais vulneráveis, garantir serviços públicos de qualidade, e promover a coesão social. A defesa do interesse público não pode ser refém de rótulos ideológicos. A política deve ser orientada por princípios de justiça, eficiência e responsabilidade, não por fidelidades partidárias ou antagonismos artificiais.

 A emergência de narrativas populistas, particularmente à direita, agrava esta situação. Os partidos não disputam projetos, mas sim afetos e ressentimentos. Os discursos são construídos em torno de antagonismos simplistas, onde o adversário é demonizado e o eleitor é seduzido por promessas vagas e emocionalmente carregadas. A morabeza, esse traço cultural cabo-verdiano de acolhimento e respeito, é frequentemente instrumentalizada como retórica política, enquanto o debate público se radicaliza nas redes sociais, alimentado por “milícias digitais” partidárias que confundem militância e simpatia partidárias com agressividade e má-educação. A cidadania é substituída por uma lógica de “fandom” ideológico, e o espaço público transforma-se num campo de batalha simbólica.

 Neste contexto, torna-se evidente que a distinção entre esquerda e direita não é apenas insuficiente é contraproducente. Como observa Gomes Canotilho, a simplificação binária das ideologias políticas desvirtua a complexidade do pensamento político. Em Cabo Verde, essa simplificação tornou-se regra. Os partidos adaptam-se às circunstâncias, renegam princípios, e moldam o discurso conforme a conveniência. A ideologia é um adereço retórico, não uma bússola programática. E o eleitor, perdido nesse labirinto de incoerências, acaba por votar em afetos, memórias ou promessas de benefício pessoal.

 A refundação da política cabo-verdiana exige uma rutura com esta lógica binária e superficial. Exige uma cidadania informada, crítica e exigente, capaz de questionar os discursos, avaliar as propostas, e exigir responsabilidade. Exige partidos que se organizem em torno de ideias, não de fidelidades. Exige um espaço público onde o contraditório seja valorizado, e não temido. A democracia não se constrói com trincheiras ideológicas, mas com pontes de diálogo e compromisso.

 Cabo Verde merece uma política à altura da sua história e dos seus desafios. Uma política que não se esconda atrás de rótulos, mas que enfrente os problemas com honestidade e criatividade. Uma política que reconheça que a verdadeira distinção não está entre esquerda e direita, mas entre quem serve o interesse público e quem serve interesses próprios. Porque no fim, o que está em jogo não é a vitória de um lado sobre o outro é a dignidade de um povo que já esperou demasiado por uma política que o respeite.

 Praia, 11 de novembro de 2025


 

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