Como a desigualdade alimenta o populismo, segundo o Nobel de Economia 2025
Vivemos num
momento de clarificação histórica brutal, onde as velhas certezas
macroeconómicas colidem violentamente com a realidade social das democracias
liberais. A atribuição do Prémio Nobel da Economia de 2025 ao francês Philippe
Aghion não é apenas o reconhecimento de uma carreira académica brilhante
dedicada ao estudo do crescimento e da inovação; é, acima de tudo, um aviso à
navegação para os decisores políticos globais e, muito particularmente, para
nações em encruzilhadas de desenvolvimento como Cabo Verde. A tese central que
Aghion colocou na mesa mediática no início do corrente mês de dezembro – “quando
o crescimento económico não é inclusivo, abre-se a porta aos populismos” –
encerra em si a chave para compreendermos a instabilidade que varre o Ocidente
e que ameaça contagiar as democracias insulares que, até agora, se julgavam
imunes. A análise dos dados empíricos das últimas quatro décadas, cruzando a
estagnação da mobilidade social na Europa com os riscos de um capitalismo
clientelista, obriga-nos a uma reflexão profunda: a desigualdade não é uma
externalidade infeliz do mercado, é uma escolha política com consequências
devastadoras para a coesão do tecido democrático.Para entender a gravidade do momento, é imperativo desmontar a mecânica do descontentamento. Durante demasiado tempo, a ortodoxia económica, herdeira do consenso neoliberal dos anos 80, vendeu a promessa de que a maré do crescimento levantaria todos os barcos. A teoria do trickle-down, ou o gotejar da riqueza, provou ser uma falácia estatística. O que observamos, e que a literatura recente sobre a desigualdade na União Europeia corrobora de forma inequívoca, é uma dissociação entre os indicadores macroeconómicos e a vida concreta das populações. Quando olhamos para casos de estudo como a França ou a Suécia – países com contratos sociais historicamente robustos –, vemos que o aumento do Índice de Palma, que mede a disparidade entre os 10% mais ricos e os 40% mais pobres, funciona como um sismógrafo político. Onde este rácio aumenta, a confiança nas instituições colapsa. Não se trata apenas de pobreza absoluta, mas de privação relativa e de status anxiety: o medo da classe média de cair na irrelevância e a certeza das classes trabalhadoras de que o elevador social avariou.
Philippe Aghion, numa entrevista à EFE realizada pouco antes de receber o Nobel, toca na ferida ao alertar para o risco de economias como a dos Estados Unidos da América (EUA) caírem num “capitalismo clientelista”, onde grupos de interesse capturam o Estado para impedir a entrada de novos talentos e concorrentes. Este bloqueio à “destruição criativa” não só estagna a inovação tecnológica, como cria um sistema de castas económicas. Transpondo esta realidade para o contexto de Cabo Verde, o aviso ressoa com uma urgência particular. Numa economia arquipelágica, pequena e fragmentada, o risco de captura das instituições por elites extrativas é exponencialmente maior. Se o crescimento económico, muitas vezes impulsionado pelo turismo ou pelo investimento externo direto, não se traduzir em oportunidades tangíveis para os jovens qualificados do país, estamos a construir um castelo de cartas. O crescimento que se vê nas contas nacionais, mas não se sente na mesa de jantar, gera o que os sociólogos chamam de “insegurança ontológica” – um estado de ansiedade permanente que torna o cidadão permeável a discursos de rutura.
A ascensão do populismo de extrema-direita na Europa, fenómeno que Aghion e outros teóricos como Joseph Stiglitz ou Branko Milanovic têm dissecado, não é uma anomalia súbita, mas o sintoma de uma patologia prolongada da democracia representativa. Estudos de opinião longitudinais, como os do Eurobarómetro, mostram que a erosão da confiança política precede o voto de protesto. Quando os cidadãos percecionam que o sistema político, seja em Bruxelas ou nas capitais europeias, deixou de ser um mediador eficaz na distribuição de riqueza e oportunidades, a legitimidade do regime democrático é posta em causa. É aqui que o populismo entra, não com soluções, mas com culpados. A narrativa anti-establishment, muitas vezes acompanhada de um nativismo xenófobo, preenche o vazio deixado pela falência das promessas de meritocracia. O eleitor que sente que a sua voz não conta, que vê os serviços públicos degradarem-se enquanto uma minoria acumula rendimentos de capital de forma desproporcionada, torna-se o soldado ideal para movimentos que prometem “limpar o sistema”.
É fascinante, e preocupante, observar como Aghion identifica a falta de inovação na Europa como um subproduto desta falta de inclusão e de renovação demográfica. O Nobel de 2025 sublinha que a Europa, com a sua população envelhecida, perdeu a capacidade de gerar inovações revolucionárias, estagnando como uma economia de tecnologia média face aos saltos quânticos dos EUA e da China. A sua defesa da imigração jovem como motor de dinamismo económico é pragmática e científica, colidindo frontalmente com a retórica populista que vê no “outro” a fonte de todos os males. Para Cabo Verde, isto encerra um duplo desafio. Por um lado, somos um país de emigração, exportando o nosso talento mais jovem e inovador para uma Europa que precisa dele, mas que politicamente o hostiliza; por outro, internamente, precisamos de garantir que a nossa própria estrutura demográfica jovem não se torna uma bomba-relógio. Se não criarmos o tal “ecossistema adequado” de que fala Aghion – que combina concorrência eficaz, educação ligada ao mercado e proteção social –, transformaremos o nosso dividendo demográfico em frustração social.
A relação entre desigualdade e populismo opera através de mecanismos psicológicos e sociais complexos. Não é apenas a raiva pela injustiça distributiva; é a humilhação. A meritocracia, quando desprovida de igualdade de oportunidades na base, transforma-se numa tirania onde o sucesso é visto como virtude moral e o fracasso como culpa individual. Quando o Estado se retira da sua função de equalizador – através da degradação da escola pública ou da saúde –, quebra-se o pacto social. A experiência sueca das últimas décadas é, neste aspeto, um laboratório doloroso: um país que era o farol da social-democracia viu a desigualdade crescer rapidamente desde os anos 90, acompanhada por uma liberalização que, embora tenha mantido o crescimento, fraturou a sociedade e abriu as portas ao parlamento para forças políticas que antes eram marginais. Se isto acontece na Escandinávia, onde as instituições são sólidas, a complacência em latitudes mais frágeis é imperdoável.
O “capitalismo clientelista” alertado por Aghion é o veneno da democracia. Ele cria uma perceção de jogo viciado. Em Cabo Verde, onde a proximidade entre o poder político e o tecido empresarial é inevitável pela escala do país, a transparência e a regulação da concorrência não são detalhes técnicos; são ferramentas de sobrevivência democrática. Se a perceção pública se consolidar em torno da ideia de que o sucesso económico depende mais de conexões políticas do que de inovação e trabalho, o terreno estará fértil para o surgimento de messianismos populistas. Estes não precisam necessariamente de ter a matriz ideológica da extrema-direita europeia; podem assumir formas locais de contestação radical que, prometendo devolver o poder ao povo, acabam por erodir as instituições de controlo e contrapoder.
A verdadeira inovação, aquela que gera crescimento sustentável, requer um vasto “pool” de talentos. Como Aghion refere, impedir a entrada de novos talentos no sistema económico é a receita para a estagnação. A inclusão é, portanto, um imperativo económico. Cada jovem cabo-verdiano que é deixado para trás pelo sistema educativo, ou cada pequena empresa que é asfixiada por monopólios de facto, representa crescimento perdido. A desigualdade de oportunidades é ineficiência económica pura. O mito de que temos de escolher entre eficiência e equidade foi, felizmente, desmontado pela melhor ciência económica das últimas décadas. Pelo contrário, sociedades excessivamente desiguais tornam-se ineficientes, instáveis e propensas a ciclos de políticas erráticas impulsionadas pelo desespero eleitoral.
O alerta do Nobel de 2025 deve, assim, ser lido como um roteiro de urgência. A resposta ao populismo não se faz apenas no plano do discurso ou da moralidade política, mas no plano da engenharia social e económica. Requer políticas fiscais que não penalizem o trabalho em favor do capital rentista; requer um investimento massivo na qualidade dos serviços públicos como forma de salário indireto e garante de cidadania; e requer uma política industrial e de inovação que não proteja os incumbentes, mas que empodere os desafiadores. Na Europa, a falta de um mercado único de inovação e a fragmentação nacionalista são entraves apontados por Aghion. Em Cabo Verde, o entrave pode ser a falta de escala, mas a solução passa igualmente pela integração, pela qualificação e, crucialmente, pela justiça distributiva.
Quando o economista francês afirma que “sem crescimento económico inclusivo, chegam os populismos”, ele não está a fazer uma profecia, mas sim a descrever uma causalidade histórica. A democracia liberal não sobrevive se for apenas um conjunto de regras procedimentais abstratas; ela precisa de entregar resultados materiais concretos para a maioria. A sensação de “desilusão democrática” que varre o globo é o resultado direto de décadas em que a agenda política abdicou do seu papel de domar os excessos do mercado. Recuperar essa agenda é a tarefa central do nosso tempo. Se falharmos na construção de uma economia que sirva as pessoas – todas as pessoas, e não apenas uma elite extrativa –, não nos poderemos surpreender quando as pessoas, na sua justa indignação, decidirem servir-se de outras ideologias para derrubar a economia. O crescimento inclusivo é, em última análise, a única vacina eficaz contra o autoritarismo.
Praia, 27 de dezembro de 2025
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