Mensagens

Geopolítica de um xerife global errático: que implicações para Cabo Verde?*

Imagem
  A ideia de um “xerife global” sempre foi, em si mesma, uma construção ambígua: simultaneamente associada à manutenção da ordem internacional e à imposição unilateral de poder. Contudo, quando esse xerife atua de forma errática – ou deliberadamente imprevisível – o sistema internacional deixa de ser apenas assimétrico para se tornar estruturalmente instável. A ação de um “xerife louco, ou que se faz de louco”, conceito que ecoa a chamada teoria do louco em geopolítica, não constitui apenas uma deriva retórica; transforma-se num instrumento estratégico que introduz incerteza sistémica, desorganizando expetativas, alianças e mecanismos de regulação global. Para países pequenos, abertos e altamente dependentes do exterior, como Cabo Verde, essa instabilidade não é abstrata: é uma variável concreta que afeta diretamente o quotidiano económico e social. A atual conjuntura internacional, marcada pela escalada no Médio Oriente e pelo confronto indireto entre grandes potências, ilustra de...

Será o yuan a próxima moeda de reserva global?*

Imagem
  A questão não é nova, mas raramente foi tão urgente. À medida que a ordem financeira internacional se fragmenta, que as sanções ao Ocidente se multiplicam e que a hegemonia do dólar norte-americano começa a ser questionada com uma seriedade que há décadas não se via, o yuan chinês – ou renminbi, como tecnicamente se designa a moeda da República Popular da China – regressa ao centro do debate geoeconómico global. Pequim tem uma meta clara: elevar o Índice de Internacionalização do yuan dos atuais 5,68% para 20% até 2035, ano em que a China pretende consolidar o estatuto de economia de rendimento médio-alto segundo a classificação do Banco Mundial. É uma ambição que combina cálculo estratégico com impaciência política, mas que esbarra em obstáculos estruturais que nenhuma proclamação administrativa consegue dissolver. Para compreender a escala do desafio, importa situar o yuan no sistema monetário internacional contemporâneo. A moeda chinesa ocupa atualmente o terceiro lugar entre ...

Meio século de cooperação China-Cabo Verde: da ajuda à estratégia*

Imagem
  Cinquenta anos depois do estabelecimento das relações diplomáticas entre Cabo Verde e a China, o mínimo que se exige a quem analisa esta relação é honestidade intelectual. E essa honestidade começa por reconhecer o óbvio: a China teve – e continua a ter – um papel relevante no desenvolvimento do país. Ao longo de décadas, a cooperação chinesa ajudou a construir infraestruturas, a reforçar o sistema de saúde, a formar quadros e a apoiar o sistema educativo. Barragens, estádios, edifícios públicos, habitação social e equipamentos coletivos não são abstrações; são marcas físicas de uma parceria que, em muitos momentos, respondeu a necessidades reais de Cabo Verde. Este legado é real, é tangível e merece ser valorizado. Os números mais recentes mostram a continuidade da ajuda chinesa: acordos de cooperação de 200 milhões de yuans (cerca de 30 milhões de dólares) em 2025 e 100 milhões de yuans (cerca de 15 milhões de dólares) em 2026, acompanhados de apoios setoriais, como a reabili...

Poderá a China ultrapassar os EUA e liderar a economia mundial?*

Imagem
  Nas últimas quatro décadas, a China deixou de ser apenas a “fábrica do mundo” para se afirmar como um ecossistema profundamente integrado, em que a investigação científica, a engenharia aplicada, a rede de fornecedores industriais e a capacidade produtiva operam de forma articulada e sinérgica. A magnitude desta transformação é tal que, hoje, a questão já não é se a China ultrapassará os Estados Unidos da América (EUA) como a maior economia mundial, mas quando – convertendo esse debate num exercício de análise estrutural, mais do que de futurologia. Na verdade, a evolução recente da economia chinesa, apesar das fragilidades conjunturais, confirma que o país já consolidou uma posição de poder sistémico que transcende o PIB nominal e se projeta através da indústria, da tecnologia, das cadeias de valor e da geoeconomia. A questão central é, portanto, temporal e condicional: em que circunstâncias e com que velocidade a China converterá o seu peso material em primazia económica global...

Ascensão económica e social da China e lições para Cabo Verde (parte 2)*

Imagem
  No domínio das infraestruturas e da organização do território, a comparação é igualmente dolorosa. A China utilizou a construção de infraestruturas – portos, aeroportos, redes ferroviárias de alta velocidade e infraestruturas digitais – como alavanca deliberada para a integração do mercado interno e a redução dos custos de contexto, numa lógica de conectividade funcional. Em Cabo Verde, a política de infraestruturas tem sido, demasiadas vezes, guiada pela lógica da “obra de fachada”, do betão visível que rende votos no curto prazo, em detrimento da racionalidade económica e da sustentabilidade financeira. O país contraiu dívidas avultadas para erguer infraestruturas que, em muitos casos, se encontram subutilizadas ou carecem de modelos de gestão eficientes. O exemplo mais paradigmático e vergonhoso desta incompetência estratégica reside no dossiê dos transportes marítimos e aéreos interilhas. Cinquenta anos após a independência, é incompreensível e inaceitável que um país arquipe...

Tio Sam como xerife global: entre a ordem e o caos

Imagem
  A figura do “xerife global” sempre ocupou um lugar ambíguo na imaginação geopolítica: simultaneamente associada à manutenção da ordem internacional e à imposição unilateral de poder. Durante décadas, essa ambiguidade foi parcialmente mitigada por um quadro institucional relativamente robusto, ancorado em regras, alianças e mecanismos multilaterais que conferiam previsibilidade à atuação das grandes potências. Contudo, quando esse “xerife” passa a agir de forma errática – ou deliberadamente imprevisível – deixa de ser apenas um garante da ordem para se transformar num fator ativo de instabilidade. A lógica da dissuasão pela imprevisibilidade, frequentemente associada à chamada “teoria do louco”, deixa então de ser um instrumento tático e passa a assumir contornos sistémicos, com implicações profundas para a economia global, para a segurança internacional e para a própria arquitetura das relações entre Estados. A conjuntura recente ilustra com particular clareza esta transformação....

Ascensão económica e social da China: lições para Cabo Verde (parte 1)*

Imagem
  A trajetória da República Popular da China rumo à hegemonia económica global e a sua transmutação de uma sociedade agrária e fragmentada numa superpotência tecnológica e industrial constituem, indubitavelmente, o fenómeno geoeconómico mais disruptivo da história contemporânea, oferecendo um espelho analítico de inestimável valor para nações em desenvolvimento. Quando colocamos em perspetiva este “milagre” chinês, edificado em pouco mais de quatro décadas, e o confrontamos com a realidade de Cabo Verde, que ultrapassou recentemente a barreira simbólica do meio século de independência nacional, o contraste que emerge não é apenas de escala ou de geografia, mas, fundamentalmente, de doutrina de Estado, de qualidade de governação e de cultura institucional. Enquanto a China logrou retirar mais de 850 milhões de cidadãos da pobreza extrema e assumir a liderança em setores de ponta, Cabo Verde, volvidos cinquenta anos de soberania, permanece enredado em constrangimentos estruturais que...