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Quando os aeroportos explicam a redução da taxa de desemprego

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  Há uma arte antiga, cultivada com mestria por governos de todas as latitudes, que consiste em apresentar os dados estatísticos no momento certo, com o enquadramento certo e para o público certo. Cabo Verde não é exceção. A publicação, pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), dos dados mais recentes do mercado de trabalho, relativos ao segundo semestre de 2025, convida a uma leitura que vai muito além dos números em si. Antes de mais, nota-se que os dados foram publicados em período eleitoral, de onde se pode depreender que o INE quis dar um “empurrãozinho” ao Governo. A taxa de desemprego desceu para 4,9%. O emprego cresceu 7,1% face ao período homólogo. São cifras que, lidas isoladamente, têm toda a aparência de uma conquista. O Governo não perdeu tempo em apropriá-las: Cabo Verde estaria, segundo a narrativa oficial, a vencer a batalha do emprego. Mas a análise estatística séria não se faz com instantâneos. Faz-se com trajetórias, com contexto, com a honestidade intelectua...

O paradoxo de Trump: como a confrontação global pode fortalecer a China*

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  Existe uma ironia profunda no centro da política externa do presidente dos Estados Unidos da América (EUA), Donald Trump: a estratégia concebida para conter e enfraquecer a China poderá estar, em vários planos estruturais, a produzir o efeito contrário. Ao adotar uma postura sistematicamente confrontacional, a administração Trump está, paradoxalmente, a criar condições políticas, diplomáticas e económicas favoráveis à consolidação da China como potência global alternativa. Note-se que essa atitude do presidente norte-americano não se limita a Pequim, estendendo-se também a aliados históricos, instituições multilaterais e a teatros de conflito tão distintos como o Médio Oriente. A demonstração mais eloquente dessa dinâmica surgiu no final de 2025, através de um indicador de enorme significado estratégico: pela primeira vez em quase duas décadas, a China ultrapassou os EUA em aprovação internacional, segundo o inquérito anual da Gallup realizado em mais de 130 países. Trinta e se...

O efeito Dunning-Kruger na governação cabo-verdiana

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  “Os ignorantes são ignorantes da sua ignorância.” A frase, atribuída a Peter Allan Baskerville, poderia servir de epígrafe a um fenómeno recorrente na vida pública: a proclamação confiante de certezas onde deveria existir prudência. Em 1999, os psicólogos David Dunning e Justin Kruger descreveram o chamado efeito Dunning-Kruger – um viés cognitivo segundo o qual indivíduos com baixo nível de conhecimento ou competência numa determinada área tendem a sobrestimar as suas capacidades. Trata-se de uma forma de incompetência inconsciente: não apenas não sabem, como não sabem que não sabem. A ilusão de conhecimento protege-os da perceção da sua própria limitação. O episódio de McArthur Wheeler, que acreditou tornar-se invisível às câmaras de vigilância ao cobrir o rosto com sumo de limão, não é apenas uma anedota curiosa; é uma metáfora poderosa sobre os riscos da autoconfiança desinformada. E, embora este fenómeno seja transversal à condição humana, torna-se particularmente proble...

Cabo Verde preso na armadilha fiscal*

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Cabo Verde chega a 2026 num ponto crítico do seu percurso económico. Uma década após a mudança política que levou ao poder um Governo suportado pelo MpD, e depois de sucessivos choques externos – da pandemia às recentes pressões inflacionistas internacionais –, persistem fragilidades estruturais que o tempo não resolveu e a governação não corrigiu. No centro dessas fragilidades está a política fiscal. Mais do que um instrumento de arrecadação, a fiscalidade define prioridades, molda incentivos e condiciona o modelo de desenvolvimento. Num pequeno Estado insular, com mercado limitado, elevada dependência externa e escassez de recursos, a forma como se cobra e se gasta cada escudo é determinante. E é precisamente aqui que o modelo atual revela sinais claros de esgotamento.   Após uma década de governação ventoinha, o sistema fiscal apresenta resultados ambivalentes: alguma estabilidade conjuntural, mas ausência de transformação estrutural. A base tributária permanece estreita, a desp...

Geopolítica de um xerife global errático: que implicações para Cabo Verde?*

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  A ideia de um “xerife global” sempre foi, em si mesma, uma construção ambígua: simultaneamente associada à manutenção da ordem internacional e à imposição unilateral de poder. Contudo, quando esse xerife atua de forma errática – ou deliberadamente imprevisível – o sistema internacional deixa de ser apenas assimétrico para se tornar estruturalmente instável. A ação de um “xerife louco, ou que se faz de louco”, conceito que ecoa a chamada teoria do louco em geopolítica, não constitui apenas uma deriva retórica; transforma-se num instrumento estratégico que introduz incerteza sistémica, desorganizando expetativas, alianças e mecanismos de regulação global. Para países pequenos, abertos e altamente dependentes do exterior, como Cabo Verde, essa instabilidade não é abstrata: é uma variável concreta que afeta diretamente o quotidiano económico e social. A atual conjuntura internacional, marcada pela escalada no Médio Oriente e pelo confronto indireto entre grandes potências, ilustra de...

Será o yuan a próxima moeda de reserva global?*

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  A questão não é nova, mas raramente foi tão urgente. À medida que a ordem financeira internacional se fragmenta, que as sanções ao Ocidente se multiplicam e que a hegemonia do dólar norte-americano começa a ser questionada com uma seriedade que há décadas não se via, o yuan chinês – ou renminbi, como tecnicamente se designa a moeda da República Popular da China – regressa ao centro do debate geoeconómico global. Pequim tem uma meta clara: elevar o Índice de Internacionalização do yuan dos atuais 5,68% para 20% até 2035, ano em que a China pretende consolidar o estatuto de economia de rendimento médio-alto segundo a classificação do Banco Mundial. É uma ambição que combina cálculo estratégico com impaciência política, mas que esbarra em obstáculos estruturais que nenhuma proclamação administrativa consegue dissolver. Para compreender a escala do desafio, importa situar o yuan no sistema monetário internacional contemporâneo. A moeda chinesa ocupa atualmente o terceiro lugar entre ...

Meio século de cooperação China-Cabo Verde: da ajuda à estratégia*

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  Cinquenta anos depois do estabelecimento das relações diplomáticas entre Cabo Verde e a China, o mínimo que se exige a quem analisa esta relação é honestidade intelectual. E essa honestidade começa por reconhecer o óbvio: a China teve – e continua a ter – um papel relevante no desenvolvimento do país. Ao longo de décadas, a cooperação chinesa ajudou a construir infraestruturas, a reforçar o sistema de saúde, a formar quadros e a apoiar o sistema educativo. Barragens, estádios, edifícios públicos, habitação social e equipamentos coletivos não são abstrações; são marcas físicas de uma parceria que, em muitos momentos, respondeu a necessidades reais de Cabo Verde. Este legado é real, é tangível e merece ser valorizado. Os números mais recentes mostram a continuidade da ajuda chinesa: acordos de cooperação de 200 milhões de yuans (cerca de 30 milhões de dólares) em 2025 e 100 milhões de yuans (cerca de 15 milhões de dólares) em 2026, acompanhados de apoios setoriais, como a reabili...