Dez anos de governação ventoinha: o rei vai nu*
A intemporalidade de certas narrativas reside na sua capacidade de expor verdades inconvenientes com uma clareza quase brutal. O conto “O Rei Vai Nu”, popularizado por Hans Christian Andersen em 1837, ilustra essa realidade, encontrando uma pertinência inquietante na governação cabo-verdiana entre 2016 e 2026. Uma década após as promessas de rutura e de uma era de modernidade e prosperidade, a realidade política em Cabo Verde assemelha-se a um espetáculo de ilusionismo, onde a dissonância entre o discurso oficial e a vivência quotidiana se tornou abissal. Em 2016, a oposição ascendeu ao poder sob a bandeira da diversificação económica, visando superar a dependência do turismo e das remessas, e transformar o país num “hub" aéreo, marítimo e digital de relevo internacional. A retórica centrava-se na despartidarização, transparência e meritocracia da administração pública, encapsulada no aforismo “Cabo Verde tem solução”. Contudo, após quase uma década, o balanço é marcado por uma ...