Tio Sam como xerife global: entre a ordem e o caos
A figura do “xerife global” sempre ocupou um lugar ambíguo na imaginação geopolítica: simultaneamente associada à manutenção da ordem internacional e à imposição unilateral de poder. Durante décadas, essa ambiguidade foi parcialmente mitigada por um quadro institucional relativamente robusto, ancorado em regras, alianças e mecanismos multilaterais que conferiam previsibilidade à atuação das grandes potências. Contudo, quando esse “xerife” passa a agir de forma errática – ou deliberadamente imprevisível – deixa de ser apenas um garante da ordem para se transformar num fator ativo de instabilidade. A lógica da dissuasão pela imprevisibilidade, frequentemente associada à chamada “teoria do louco”, deixa então de ser um instrumento tático e passa a assumir contornos sistémicos, com implicações profundas para a economia global, para a segurança internacional e para a própria arquitetura das relações entre Estados. A conjuntura recente ilustra com particular clareza esta transformação....