A Utopia Liberal, de Rui Albuquerque: anatomia de uma tradição
As interrogações sobre o sentido da existência, sobre Deus ou sobre a finalidade da presença humana no mundo pertencem a uma categoria de problemas que dificilmente admite resposta demonstrável. Existe, porém, uma classe distinta de questões, menos transcendentes e não menos consequentes, cujo tratamento permanece igualmente em aberto: a de determinar qual o modo mais adequado de organizar a vida em comum. Aplicada ao liberalismo, essa interrogação desdobra-se em vários planos. Constituirá ele, enquanto filosofia política e tradição intelectual, apenas uma entre várias configurações historicamente disponíveis, ou a tentativa mais eficaz de articular liberdade, ordem e prosperidade? E as suas deformações contemporâneas resultam de desvios acidentais ou decorrem logicamente dos seus pressupostos? A pertinência destas perguntas não é meramente académica. Os momentos fundadores da modernidade política – a Revolução Gloriosa inglesa, a Independência Americana e, com a ressalva do período d...