Mensagens

A Utopia Liberal, de Rui Albuquerque: anatomia de uma tradição

Imagem
As interrogações sobre o sentido da existência, sobre Deus ou sobre a finalidade da presença humana no mundo pertencem a uma categoria de problemas que dificilmente admite resposta demonstrável. Existe, porém, uma classe distinta de questões, menos transcendentes e não menos consequentes, cujo tratamento permanece igualmente em aberto: a de determinar qual o modo mais adequado de organizar a vida em comum. Aplicada ao liberalismo, essa interrogação desdobra-se em vários planos. Constituirá ele, enquanto filosofia política e tradição intelectual, apenas uma entre várias configurações historicamente disponíveis, ou a tentativa mais eficaz de articular liberdade, ordem e prosperidade? E as suas deformações contemporâneas resultam de desvios acidentais ou decorrem logicamente dos seus pressupostos? A pertinência destas perguntas não é meramente académica. Os momentos fundadores da modernidade política – a Revolução Gloriosa inglesa, a Independência Americana e, com a ressalva do período d...

Aprender com a China: a anatomia de um Estado elétrico

Imagem
  Um relatório do Rhodium Group descreve um ecossistema em que eletricidade barata, processamento de metais e manufatura de tecnologias limpas se reforçam mutuamente. Para os Estados Unidos e para a União Europeia, o diagnóstico é desconfortável: replicar o modelo é hoje quase impossível – e competir com ele terá um preço. O fim de uma narrativa cómoda Durante duas décadas, a leitura ocidental da ascensão industrial chinesa assentou num catálogo restrito de explicações: mão-de-obra barata, uma moeda artificialmente subvalorizada e a apropriação sistemática de propriedade intelectual alheia. Cada um destes elementos tem fundamento histórico. Nenhum deles explica, isoladamente, o que se observa em 2026. O relatório Minerals, Metals, and Megawatts: How China's Power Generation Drives Its Industrial Metals Ecosystem , publicado pelo Rhodium Group [1] a 24 de março de 2026 e assinado pelo analista Rogan Quinn, propõe uma explicação de outra natureza. Pequim consolidou aquilo qu...

Cabo Verde: racionalizar o Estado para conter a despesa pública

Imagem
  Como tenho vindo a defender, Cabo Verde já não dispõe de margem para continuar a tratar a despesa pública como se os recursos do país fossem inesgotáveis. A urgência de uma dieta institucional deixou de ser uma simples metáfora do debate político para se tornar uma exigência de sustentabilidade financeira do Estado. Ao longo da última década, consolidou-se um padrão de expansão da máquina pública que não foi acompanhado por ganhos proporcionais de eficiência nem por melhorias equivalentes na qualidade dos serviços prestados aos cidadãos. O resultado está à vista: mais despesa, maior rigidez orçamental, mais dívida e menor capacidade para investir nas áreas que verdadeiramente impulsionam o desenvolvimento económico e o bem-estar coletivo. O Estado cresceu, mas não se tornou mais eficaz; tornou-se mais pesado, mais oneroso e cada vez mais absorvido pela manutenção da sua própria estrutura Todavia, Cabo Verde não pode sustentar indefinidamente este modelo sem pagar a fatura sob a f...

Breves considerações sobre as reformas estruturais que Cabo Verde precisa

Imagem
  1.   Cabo Verde virou uma página política. As legislativas de maio de 2026 devolveram o PAICV ao poder ao fim de dez anos, mas o dado mais eloquente da noite não foi a alternância: foi a abstenção recorde, acima dos 53%. Quando mais de metade do eleitorado fica em casa, numa democracia apontada como exemplar em África, a mensagem é clara: os cabo-verdianos querem resultados, não promessas. Este ciclo político pode ser a última oportunidade, numa geração, para atacar a raiz dos problemas que geram estagnação relativa e descontentamento. Desperdiçá-la seria imperdoável. 2.   À primeira vista, os números oficiais até animam: em 2025, o PIB terá crescido 6,3%, a inflação fixou-se em 2,3% e o desemprego caiu para 6,2%. Mas debaixo da superfície persistem fragilidades profundas: uma dívida pública oficial na ordem dos 107,1% do PIB – das mais elevadas de África –, uma economia perigosamente dependente do turismo e um Estado que pesa muito e entrega pouco. O crescimento recent...