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Meio século de cooperação China-Cabo Verde: da ajuda à estratégia*

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  Cinquenta anos depois do estabelecimento das relações diplomáticas entre Cabo Verde e a China, o mínimo que se exige a quem analisa esta relação é honestidade intelectual. E essa honestidade começa por reconhecer o óbvio: a China teve – e continua a ter – um papel relevante no desenvolvimento do país. Ao longo de décadas, a cooperação chinesa ajudou a construir infraestruturas, a reforçar o sistema de saúde, a formar quadros e a apoiar o sistema educativo. Barragens, estádios, edifícios públicos, habitação social e equipamentos coletivos não são abstrações; são marcas físicas de uma parceria que, em muitos momentos, respondeu a necessidades reais de Cabo Verde. Este legado é real, é tangível e merece ser valorizado. Os números mais recentes mostram a continuidade da ajuda chinesa: acordos de cooperação de 200 milhões de yuans (cerca de 30 milhões de dólares) em 2025 e 100 milhões de yuans (cerca de 15 milhões de dólares) em 2026, acompanhados de apoios setoriais, como a reabili...

Poderá a China ultrapassar os EUA e liderar a economia mundial?*

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  Nas últimas quatro décadas, a China deixou de ser apenas a “fábrica do mundo” para se afirmar como um ecossistema profundamente integrado, em que a investigação científica, a engenharia aplicada, a rede de fornecedores industriais e a capacidade produtiva operam de forma articulada e sinérgica. A magnitude desta transformação é tal que, hoje, a questão já não é se a China ultrapassará os Estados Unidos da América (EUA) como a maior economia mundial, mas quando – convertendo esse debate num exercício de análise estrutural, mais do que de futurologia. Na verdade, a evolução recente da economia chinesa, apesar das fragilidades conjunturais, confirma que o país já consolidou uma posição de poder sistémico que transcende o PIB nominal e se projeta através da indústria, da tecnologia, das cadeias de valor e da geoeconomia. A questão central é, portanto, temporal e condicional: em que circunstâncias e com que velocidade a China converterá o seu peso material em primazia económica global...

Ascensão económica e social da China e lições para Cabo Verde (parte 2)*

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  No domínio das infraestruturas e da organização do território, a comparação é igualmente dolorosa. A China utilizou a construção de infraestruturas – portos, aeroportos, redes ferroviárias de alta velocidade e infraestruturas digitais – como alavanca deliberada para a integração do mercado interno e a redução dos custos de contexto, numa lógica de conectividade funcional. Em Cabo Verde, a política de infraestruturas tem sido, demasiadas vezes, guiada pela lógica da “obra de fachada”, do betão visível que rende votos no curto prazo, em detrimento da racionalidade económica e da sustentabilidade financeira. O país contraiu dívidas avultadas para erguer infraestruturas que, em muitos casos, se encontram subutilizadas ou carecem de modelos de gestão eficientes. O exemplo mais paradigmático e vergonhoso desta incompetência estratégica reside no dossiê dos transportes marítimos e aéreos interilhas. Cinquenta anos após a independência, é incompreensível e inaceitável que um país arquipe...

Tio Sam como xerife global: entre a ordem e o caos

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  A figura do “xerife global” sempre ocupou um lugar ambíguo na imaginação geopolítica: simultaneamente associada à manutenção da ordem internacional e à imposição unilateral de poder. Durante décadas, essa ambiguidade foi parcialmente mitigada por um quadro institucional relativamente robusto, ancorado em regras, alianças e mecanismos multilaterais que conferiam previsibilidade à atuação das grandes potências. Contudo, quando esse “xerife” passa a agir de forma errática – ou deliberadamente imprevisível – deixa de ser apenas um garante da ordem para se transformar num fator ativo de instabilidade. A lógica da dissuasão pela imprevisibilidade, frequentemente associada à chamada “teoria do louco”, deixa então de ser um instrumento tático e passa a assumir contornos sistémicos, com implicações profundas para a economia global, para a segurança internacional e para a própria arquitetura das relações entre Estados. A conjuntura recente ilustra com particular clareza esta transformação....

Ascensão económica e social da China: lições para Cabo Verde (parte 1)*

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  A trajetória da República Popular da China rumo à hegemonia económica global e a sua transmutação de uma sociedade agrária e fragmentada numa superpotência tecnológica e industrial constituem, indubitavelmente, o fenómeno geoeconómico mais disruptivo da história contemporânea, oferecendo um espelho analítico de inestimável valor para nações em desenvolvimento. Quando colocamos em perspetiva este “milagre” chinês, edificado em pouco mais de quatro décadas, e o confrontamos com a realidade de Cabo Verde, que ultrapassou recentemente a barreira simbólica do meio século de independência nacional, o contraste que emerge não é apenas de escala ou de geografia, mas, fundamentalmente, de doutrina de Estado, de qualidade de governação e de cultura institucional. Enquanto a China logrou retirar mais de 850 milhões de cidadãos da pobreza extrema e assumir a liderança em setores de ponta, Cabo Verde, volvidos cinquenta anos de soberania, permanece enredado em constrangimentos estruturais que...

Ernâni Lopes e o caminho estratégico de Cabo Verde*

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Ernâni Lopes (1942–2010), economista português de reconhecido prestígio, deixou um contributo relevante para o pensamento sobre países de pequena escala e recursos limitados. Recusando rótulos ideológicos, Lopes privilegiava soluções pragmáticas que conciliassem a transição para uma economia dinâmica com a preservação do Estado social. Em setembro passado, Portugal homenageou-o com uma conferência e a publicação de um livro, gesto que reafirma a atualidade do seu pensamento e a urgência de revisitar os dilemas que antecipou. Em 1988 criou a SaeR – Sociedade de Avaliação Estratégica e Risco, instituição que produziu, em 1995 e a pedido do Governo cabo-verdiano da altura, um extenso estudo em três volumes sobre o desenvolvimento do arquipélago. Trata-se de um documento que, ainda hoje, é talvez o mais completo sobre o tema e, paradoxalmente, permanece esquecido, engavetado nas instituições governamentais. Aliás, Cabo Verde tornou-se especialista em gastar rios de dinheiro em estudos e, s...

Economia, cultura e dignidade: lições de Keynes para Cabo Verde*

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John Maynard Keynes, o mais célebre dos economistas do século XX, ensinou-nos que a economia não é um fim em si mesma, mas um instrumento ao serviço da dignidade humana, da liberdade e do bem comum. Essa lição – de que a satisfação das necessidades materiais deve ser subordinada a valores permanentes e à justiça – é tão pertinente para as grandes potências como para um pequeno arquipélago como Cabo Verde. Se o país quiser transformar-se num “país-plataforma” capaz de reter e atrair população, gerar prosperidade inclusiva e reduzir a dependência externa, terá de reaproximar a sua política económica das teses keynesianas e, simultaneamente, preservar uma visão humanista da economia. Keynes rompeu com a visão autorreguladora dos mercados e colocou a procura agregada no centro da análise económica. Para ele, é da procura que depende o nível de atividade e, por inerência, o emprego e o crescimento do PIB. Em Cabo Verde, essa ideia ganha forma concreta no turismo, que funciona como o princip...