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O Paradoxo de Kaldor e a valorização do yuan

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  A valorização recente do yuan – a unidade monetária do renminbi, a moeda oficial da República Popular da China – constitui um dos factos económicos mais interessantes do nosso tempo. Num mundo habituado a associar competitividade externa a salários baixos e moedas fracas, a experiência chinesa aponta numa direção diferente. No início de junho de 2026, o yuan offshore negociava em torno de 6,8 por dólar, acumulando uma valorização próxima de 6% em apenas doze meses. Não se trata de uma anomalia passageira, mas do reflexo de uma transformação estrutural. À medida que a economia chinesa sobe na cadeia de valor, aumenta a produtividade, reforça a capacidade tecnológica e conquista mercados através da qualidade e da inovação, a sua moeda tende a fortalecer-se. Este fenómeno confere nova relevância às ideias do economista britânico Nicholas Kaldor, que há várias décadas argumentava que a verdadeira fonte da competitividade não reside em salários baixos ou desvalorizações cambiais, mas ...

Adam Smith e a pobreza: uma leitura a partir de Cabo Verde*

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  Existe uma frase de Adam Smith que raramente aparece nos manuais de economia, mas que deveria figurar em qualquer debate sério sobre desenvolvimento: “ Nenhuma sociedade pode ser florescente e feliz se a maior parte dos seus membros for pobre e miserável.” Escrita em A Riqueza das Nações , em 1776, essa sentença condensa uma dimensão do pensamento smithiano que a história convencionou ignorar – a de que a prosperidade económica só é legítima quando conduz a uma sociedade genuinamente mais justa para a maioria das pessoas. A frase aparece no Livro I, Capítulo VIII, intitulado “Dos Salários do Trabalho”, e o contexto em que foi formulada é tão relevante hoje como o era no século XVIII: Smith escreveu-a precisamente para destruir a chamada “teoria da utilidade da pobreza”, segundo a qual os salários deveriam ser mantidos baixos porque, se os trabalhadores ganhassem mais, tornar-se-iam “preguiçosos” ou teriam filhos em demasia. Esse argumento, que Smith considerava ao mesmo tempo mo...

O Som do Silêncio da Derrota do MpD

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  “Pessoas falando sem comunicar / pessoas ouvindo sem escutar.” [1] – The Sound of Silence , Simon & Garfunkel , 1964 Em 1964, Paul Simon escreveu uma das canções mais perturbadoras do século XX sobre a incomunicabilidade humana: pessoas que falam sem se ouvir, que ouvem sem escutar, que se deixam seduzir pelo brilho da superfície sem questionar a escuridão que a rodeia. “ The Sound of Silence” (O Som do Silêncio) é, no fundo, um retrato implacável de uma sociedade anestesiada pelo ruído do poder. Mais de seis décadas depois, a metáfora encontra uma ressonância inesperada na política cabo-verdiana: durante dez anos, as populações maltratadas falaram, nomeadamente, pelos preços que não conseguiam pagar, pelos empregos que não existiam, pelos barcos que não saíam, pelos filhos que emigravam. Porém, o poder, embriagado pela sua própria narrativa, recusou-se a ouvir. No dia 17 de maio de 2026, em silêncio, o povo respondeu. A derrota do MpD nas eleições legislativas encerrou for...

Quando os aeroportos explicam a redução da taxa de desemprego

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  Há uma arte antiga, cultivada com mestria por governos de todas as latitudes, que consiste em apresentar os dados estatísticos no momento certo, com o enquadramento certo e para o público certo. Cabo Verde não é exceção. A publicação, pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), dos dados mais recentes do mercado de trabalho, relativos ao segundo semestre de 2025, convida a uma leitura que vai muito além dos números em si. Antes de mais, nota-se que os dados foram publicados em período eleitoral, de onde se pode depreender que o INE quis dar um “empurrãozinho” ao Governo. A taxa de desemprego desceu para 4,9%. O emprego cresceu 7,1% face ao período homólogo. São cifras que, lidas isoladamente, têm toda a aparência de uma conquista. O Governo não perdeu tempo em apropriá-las: Cabo Verde estaria, segundo a narrativa oficial, a vencer a batalha do emprego. Mas a análise estatística séria não se faz com instantâneos. Faz-se com trajetórias, com contexto, com a honestidade intelectua...

O paradoxo de Trump: como a confrontação global pode fortalecer a China*

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  Existe uma ironia profunda no centro da política externa do presidente dos Estados Unidos da América (EUA), Donald Trump: a estratégia concebida para conter e enfraquecer a China poderá estar, em vários planos estruturais, a produzir o efeito contrário. Ao adotar uma postura sistematicamente confrontacional, a administração Trump está, paradoxalmente, a criar condições políticas, diplomáticas e económicas favoráveis à consolidação da China como potência global alternativa. Note-se que essa atitude do presidente norte-americano não se limita a Pequim, estendendo-se também a aliados históricos, instituições multilaterais e a teatros de conflito tão distintos como o Médio Oriente. A demonstração mais eloquente dessa dinâmica surgiu no final de 2025, através de um indicador de enorme significado estratégico: pela primeira vez em quase duas décadas, a China ultrapassou os EUA em aprovação internacional, segundo o inquérito anual da Gallup realizado em mais de 130 países. Trinta e se...

O efeito Dunning-Kruger na governação cabo-verdiana

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  “Os ignorantes são ignorantes da sua ignorância.” A frase, atribuída a Peter Allan Baskerville, poderia servir de epígrafe a um fenómeno recorrente na vida pública: a proclamação confiante de certezas onde deveria existir prudência. Em 1999, os psicólogos David Dunning e Justin Kruger descreveram o chamado efeito Dunning-Kruger – um viés cognitivo segundo o qual indivíduos com baixo nível de conhecimento ou competência numa determinada área tendem a sobrestimar as suas capacidades. Trata-se de uma forma de incompetência inconsciente: não apenas não sabem, como não sabem que não sabem. A ilusão de conhecimento protege-os da perceção da sua própria limitação. O episódio de McArthur Wheeler, que acreditou tornar-se invisível às câmaras de vigilância ao cobrir o rosto com sumo de limão, não é apenas uma anedota curiosa; é uma metáfora poderosa sobre os riscos da autoconfiança desinformada. E, embora este fenómeno seja transversal à condição humana, torna-se particularmente proble...