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Ascensão económica e social da China: lições para Cabo Verde (parte 1)*

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  A trajetória da República Popular da China rumo à hegemonia económica global e a sua transmutação de uma sociedade agrária e fragmentada numa superpotência tecnológica e industrial constituem, indubitavelmente, o fenómeno geoeconómico mais disruptivo da história contemporânea, oferecendo um espelho analítico de inestimável valor para nações em desenvolvimento. Quando colocamos em perspetiva este “milagre” chinês, edificado em pouco mais de quatro décadas, e o confrontamos com a realidade de Cabo Verde, que ultrapassou recentemente a barreira simbólica do meio século de independência nacional, o contraste que emerge não é apenas de escala ou de geografia, mas, fundamentalmente, de doutrina de Estado, de qualidade de governação e de cultura institucional. Enquanto a China logrou retirar mais de 850 milhões de cidadãos da pobreza extrema e assumir a liderança em setores de ponta, Cabo Verde, volvidos cinquenta anos de soberania, permanece enredado em constrangimentos estruturais que...

Ernâni Lopes e o caminho estratégico de Cabo Verde*

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Ernâni Lopes (1942–2010), economista português de reconhecido prestígio, deixou um contributo relevante para o pensamento sobre países de pequena escala e recursos limitados. Recusando rótulos ideológicos, Lopes privilegiava soluções pragmáticas que conciliassem a transição para uma economia dinâmica com a preservação do Estado social. Em setembro passado, Portugal homenageou-o com uma conferência e a publicação de um livro, gesto que reafirma a atualidade do seu pensamento e a urgência de revisitar os dilemas que antecipou. Em 1988 criou a SaeR – Sociedade de Avaliação Estratégica e Risco, instituição que produziu, em 1995 e a pedido do Governo cabo-verdiano da altura, um extenso estudo em três volumes sobre o desenvolvimento do arquipélago. Trata-se de um documento que, ainda hoje, é talvez o mais completo sobre o tema e, paradoxalmente, permanece esquecido, engavetado nas instituições governamentais. Aliás, Cabo Verde tornou-se especialista em gastar rios de dinheiro em estudos e, s...

Economia, cultura e dignidade: lições de Keynes para Cabo Verde*

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John Maynard Keynes, o mais célebre dos economistas do século XX, ensinou-nos que a economia não é um fim em si mesma, mas um instrumento ao serviço da dignidade humana, da liberdade e do bem comum. Essa lição – de que a satisfação das necessidades materiais deve ser subordinada a valores permanentes e à justiça – é tão pertinente para as grandes potências como para um pequeno arquipélago como Cabo Verde. Se o país quiser transformar-se num “país-plataforma” capaz de reter e atrair população, gerar prosperidade inclusiva e reduzir a dependência externa, terá de reaproximar a sua política económica das teses keynesianas e, simultaneamente, preservar uma visão humanista da economia. Keynes rompeu com a visão autorreguladora dos mercados e colocou a procura agregada no centro da análise económica. Para ele, é da procura que depende o nível de atividade e, por inerência, o emprego e o crescimento do PIB. Em Cabo Verde, essa ideia ganha forma concreta no turismo, que funciona como o princip...

Breves considerações sobre o voto económico em Cabo Verde*

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A relação entre o desempenho da economia e os resultados eleitorais constitui um dos pilares mais estudados da ciência política moderna . A premissa fundamental, frequentemente debatida na literatura especializada e que serve de base a esta reflexão, sugere um mecanismo de recompensa e punição: os eleitores, agindo racionalmente, tendem a reconduzir governos que promovem a prosperidade e a penalizar aqueles associados à recessão ou à perda de poder de compra. No entanto, ao transpusermos este modelo teórico – vulgarmente conhecido como a hipótese do voto económico – para a realidade de Cabo Verde, deparamo-nos com nuances que exigem uma adaptação cuidada das variáveis clássicas. Cabo Verde é uma economia pequena, insular e altamente aberta, com um espaço de política económica relativamente limitado e uma forte dependência de fluxos externos, nomeadamente do turismo internacional, das remessas da diáspora e da ajuda externa. Esta configuração estrutural condiciona não apenas o desempe...

Dez anos de governação ventoinha: o rei vai nu*

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  A intemporalidade de certas narrativas reside na sua capacidade de expor verdades inconvenientes com uma clareza quase brutal. O conto “O Rei Vai Nu”, popularizado por Hans Christian Andersen em 1837, ilustra essa realidade, encontrando uma pertinência inquietante na governação cabo-verdiana entre 2016 e 2026. Uma década após as promessas de rutura e de uma era de modernidade e prosperidade, a realidade política em Cabo Verde assemelha-se a um espetáculo de ilusionismo, onde a dissonância entre o discurso oficial e a vivência quotidiana se tornou abissal. Em 2016, a oposição ascendeu ao poder sob a bandeira da diversificação económica, visando superar a dependência do turismo e das remessas, e transformar o país num “hub" aéreo, marítimo e digital de relevo internacional. A retórica centrava-se na despartidarização, transparência e meritocracia da administração pública, encapsulada no aforismo “Cabo Verde tem solução”. Contudo, após quase uma década, o balanço é marcado por uma ...

Foguetório e verniz: o B+ que continua a colocar Cabo Verde no patamar do “lixo”*

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  Recentemente, a agência de notação financeira Standard & Poor’s, S&P, anunciou que elevou a sua classificação da dívida soberana de longo prazo de B para B+ e reafirmou a classificação da dívida soberana de curto prazo em B para Cabo Verde, justificando a decisão pelo progresso fiscal e externo. O Governo e a maioria que o sustenta celebraram a pequena melhoria no “rating” como triunfo decisivo, com foguetório e fanfarronice. A verdade é que a melhoria é cosmética: trata‑se de um ligeiro ajuste num quadro que continua a classificar Cabo Verde no patamar do chamado “lixo”, como veremos seguidamente.   As agências de “rating” regem-se por regras próprias e a sua missão é oferecer aos investidores uma classificação de risco dos devedores, para os orientar nas decisões de investimento. Ninguém é obrigado a seguir as suas classificações, mas é um facto que muitos investidores se orientam voluntariamente por elas e isso tem consequências para o acesso dos devedores ao merc...

O funeral das promessas do Governo de reforma do Estado*

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Ao observarmos a última década da governação em Cabo Verde, impõe-se um exercício de anatomia política sobre uma das promessas mais vigorosas e sedutoras do MpD: a reforma profunda do Estado. Em 2016, o país foi mobilizado em torno da visão de um “Estado facilitador”, concebido como uma estrutura leve, ágil, moderna e, sobretudo, menos intrusiva na vida económica e social. O compromisso era inequívoco: romper com o modelo anterior, considerado obeso e excessivamente partidarizado, para dar lugar a uma administração pública (AP) assente na meritocracia e na eficiência. Contudo, volvida uma década, o que se observa não é a celebração dessa modernidade anunciada, mas antes o funeral lento e silencioso das grandes reformas prometidas, soterradas sob o peso de uma máquina burocrática que, longe de emagrecer, se tornou mais dispendiosa e onerosa para o contribuinte cabo-verdiano. Este fenómeno de “engordamento” deliberado das estruturas do Estado constitui o golpe de misericórdia na retórica...