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Economia, cultura e dignidade: lições de Keynes para Cabo Verde*

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  John Maynard Keynes, para muitos o mais célebre dos economistas do século XX, ensinou-nos uma lição simples e radical: a economia não é um fim em si mesma, mas um instrumento ao serviço da dignidade humana, da liberdade e do bem comum. Essa lição não perde relevância quando a transplantamos do contexto das grandes economias para um pequeno arquipélago atlântico como Cabo Verde. Pelo contrário: em ambientes onde os mercados são estreitos, as capacidades produtivas limitadas e a circulação de rendimentos dependente de fatores externos, a necessidade de orientar a política económica por uma perspetiva humanista e ativa – tipicamente keynesiana – torna-se urgente e inadiável.   A pedra angular do pensamento de Keynes é a procura agregada. Keynes rompeu com a conceção autorreguladora do mercado e colocou a procura agregada no centro da análise: é da procura que depende o nível de atividade económica, o emprego, o crescimento do produto e, por consequência, a prosperidade mate...

A ilusão do “dinheiro que nunca mais acaba” como instrumento de manipulação eleitoral*

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Durante décadas, Cabo Verde construiu a reputação de uma democracia estável, previsível e em amadurecimento institucional. Essa imagem, porém, começa a desvanecer-se quando se observa, com rigor, a forma como o poder político tem vindo a instrumentalizar o Estado para fins eleitorais. Uma democracia não se degrada apenas por ruturas abruptas ou por autoritarismos explícitos; degrada-se, sobretudo, quando o uso abusivo de recursos públicos se normaliza, quando a fronteira entre governação e campanha eleitoral se dissolve e quando a vulnerabilidade social é explorada como ativo político. É esse o caminho perigoso que o país começa a trilhar. O traço dominante da atual prática governativa é a construção deliberada da ilusão de um Estado financeiramente inesgotável, capaz de responder a todas as carências acumuladas – mas apenas quando o calendário eleitoral assim o aconselha. Esta narrativa do “dinheiro que nunca mais acaba” – expressão cunhada, levianamente, pelo grandiloquente ministro...

O que Cabo Verde pode aprender com a China?

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  A trajetória da República Popular da China rumo à hegemonia económica global e a sua transmutação de uma sociedade agrária e fragmentada numa superpotência tecnológica e industrial constituem, indubitavelmente, o fenómeno geoeconómico mais disruptivo da história contemporânea, oferecendo um espelho analítico de inestimável valor para nações em desenvolvimento. Quando colocamos em perspetiva este “milagre” chinês, edificado em pouco mais de quatro décadas, e o confrontamos com a realidade de Cabo Verde, que ultrapassou recentemente a barreira simbólica do meio século de independência nacional, o contraste que emerge não é apenas de escala ou de geografia, mas, fundamentalmente, de doutrina de Estado, de qualidade de governação e de cultura institucional. Enquanto a China logrou retirar mais de 850 milhões de cidadãos da pobreza extrema e assumir a liderança em setores de ponta, Cabo Verde, volvidos cinquenta anos de soberania, permanece enredado em constrangimentos estruturais que...

Cabo Verde e os novos ventos da geopolítica*

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A ordem internacional atravessa uma das suas fases mais decisivas desde o final da Segunda Guerra Mundial. A redistribuição do poder económico, tecnológico e político está a remodelar as hierarquias globais de forma profunda e permanente, obrigando países de todas as dimensões a repensarem o seu posicionamento externo. Entre os analistas que têm procurado interpretar estes realinhamentos destaca-se Jeffrey D. Sachs, cuja leitura sistemática da emergência de uma nova geopolítica oferece um enquadramento particularmente útil para Estados pequenos e abertos, como Cabo Verde, que dependem de previsibilidade, cooperação multilateral e estabilidade económica para assegurar o seu desenvolvimento. Saliente-se que Sachs é um dos mais conceituados economistas norte-americanos de atualidade, professor na Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, e autor conhecido pelo seu trabalho em desenvolvimento sustentável, redução da pobreza e pela consultoria a governos e organizações internacionais. ...

Um ensaio sobre como a China se tornou uma superpotência económica

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A ascensão da China à condição de superpotência económica é um dos fenómenos mais marcantes da história contemporânea, resultado de uma combinação singular de fatores históricos, institucionais, políticos e económicos. O percurso chinês, desde o final dos anos 1970 até ao presente, revela uma trajetória de transformação estrutural sem precedentes, que desafia paradigmas tradicionais do desenvolvimento e oferece lições valiosas para economistas, decisores políticos e observadores internacionais. Para compreender como a China se tornou uma superpotência económica, é necessário analisar em profundidade as reformas iniciadas por Deng Xiaoping, a integração do país na economia global, o papel do Estado e das empresas estatais, a política industrial e a inovação tecnológica, a transição para um modelo de crescimento mais sustentável, bem como os desafios demográficos, financeiros e geopolíticos que moldam o presente e o futuro do país. O ponto de inflexão da economia chinesa ocorreu em 1978,...