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Cabo Verde preso na armadilha fiscal*

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Cabo Verde chega a 2026 num ponto crítico do seu percurso económico. Uma década após a mudança política que levou ao poder um Governo suportado pelo MpD, e depois de sucessivos choques externos – da pandemia às recentes pressões inflacionistas internacionais –, persistem fragilidades estruturais que o tempo não resolveu e a governação não corrigiu. No centro dessas fragilidades está a política fiscal. Mais do que um instrumento de arrecadação, a fiscalidade define prioridades, molda incentivos e condiciona o modelo de desenvolvimento. Num pequeno Estado insular, com mercado limitado, elevada dependência externa e escassez de recursos, a forma como se cobra e se gasta cada escudo é determinante. E é precisamente aqui que o modelo atual revela sinais claros de esgotamento.   Após uma década de governação ventoinha, o sistema fiscal apresenta resultados ambivalentes: alguma estabilidade conjuntural, mas ausência de transformação estrutural. A base tributária permanece estreita, a desp...

Geopolítica de um xerife global errático: que implicações para Cabo Verde?*

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  A ideia de um “xerife global” sempre foi, em si mesma, uma construção ambígua: simultaneamente associada à manutenção da ordem internacional e à imposição unilateral de poder. Contudo, quando esse xerife atua de forma errática – ou deliberadamente imprevisível – o sistema internacional deixa de ser apenas assimétrico para se tornar estruturalmente instável. A ação de um “xerife louco, ou que se faz de louco”, conceito que ecoa a chamada teoria do louco em geopolítica, não constitui apenas uma deriva retórica; transforma-se num instrumento estratégico que introduz incerteza sistémica, desorganizando expetativas, alianças e mecanismos de regulação global. Para países pequenos, abertos e altamente dependentes do exterior, como Cabo Verde, essa instabilidade não é abstrata: é uma variável concreta que afeta diretamente o quotidiano económico e social. A atual conjuntura internacional, marcada pela escalada no Médio Oriente e pelo confronto indireto entre grandes potências, ilustra de...

Será o yuan a próxima moeda de reserva global?*

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  A questão não é nova, mas raramente foi tão urgente. À medida que a ordem financeira internacional se fragmenta, que as sanções ao Ocidente se multiplicam e que a hegemonia do dólar norte-americano começa a ser questionada com uma seriedade que há décadas não se via, o yuan chinês – ou renminbi, como tecnicamente se designa a moeda da República Popular da China – regressa ao centro do debate geoeconómico global. Pequim tem uma meta clara: elevar o Índice de Internacionalização do yuan dos atuais 5,68% para 20% até 2035, ano em que a China pretende consolidar o estatuto de economia de rendimento médio-alto segundo a classificação do Banco Mundial. É uma ambição que combina cálculo estratégico com impaciência política, mas que esbarra em obstáculos estruturais que nenhuma proclamação administrativa consegue dissolver. Para compreender a escala do desafio, importa situar o yuan no sistema monetário internacional contemporâneo. A moeda chinesa ocupa atualmente o terceiro lugar entre ...

Meio século de cooperação China-Cabo Verde: da ajuda à estratégia*

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  Cinquenta anos depois do estabelecimento das relações diplomáticas entre Cabo Verde e a China, o mínimo que se exige a quem analisa esta relação é honestidade intelectual. E essa honestidade começa por reconhecer o óbvio: a China teve – e continua a ter – um papel relevante no desenvolvimento do país. Ao longo de décadas, a cooperação chinesa ajudou a construir infraestruturas, a reforçar o sistema de saúde, a formar quadros e a apoiar o sistema educativo. Barragens, estádios, edifícios públicos, habitação social e equipamentos coletivos não são abstrações; são marcas físicas de uma parceria que, em muitos momentos, respondeu a necessidades reais de Cabo Verde. Este legado é real, é tangível e merece ser valorizado. Os números mais recentes mostram a continuidade da ajuda chinesa: acordos de cooperação de 200 milhões de yuans (cerca de 30 milhões de dólares) em 2025 e 100 milhões de yuans (cerca de 15 milhões de dólares) em 2026, acompanhados de apoios setoriais, como a reabili...

Poderá a China ultrapassar os EUA e liderar a economia mundial?*

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  Nas últimas quatro décadas, a China deixou de ser apenas a “fábrica do mundo” para se afirmar como um ecossistema profundamente integrado, em que a investigação científica, a engenharia aplicada, a rede de fornecedores industriais e a capacidade produtiva operam de forma articulada e sinérgica. A magnitude desta transformação é tal que, hoje, a questão já não é se a China ultrapassará os Estados Unidos da América (EUA) como a maior economia mundial, mas quando – convertendo esse debate num exercício de análise estrutural, mais do que de futurologia. Na verdade, a evolução recente da economia chinesa, apesar das fragilidades conjunturais, confirma que o país já consolidou uma posição de poder sistémico que transcende o PIB nominal e se projeta através da indústria, da tecnologia, das cadeias de valor e da geoeconomia. A questão central é, portanto, temporal e condicional: em que circunstâncias e com que velocidade a China converterá o seu peso material em primazia económica global...

Ascensão económica e social da China e lições para Cabo Verde (parte 2)*

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  No domínio das infraestruturas e da organização do território, a comparação é igualmente dolorosa. A China utilizou a construção de infraestruturas – portos, aeroportos, redes ferroviárias de alta velocidade e infraestruturas digitais – como alavanca deliberada para a integração do mercado interno e a redução dos custos de contexto, numa lógica de conectividade funcional. Em Cabo Verde, a política de infraestruturas tem sido, demasiadas vezes, guiada pela lógica da “obra de fachada”, do betão visível que rende votos no curto prazo, em detrimento da racionalidade económica e da sustentabilidade financeira. O país contraiu dívidas avultadas para erguer infraestruturas que, em muitos casos, se encontram subutilizadas ou carecem de modelos de gestão eficientes. O exemplo mais paradigmático e vergonhoso desta incompetência estratégica reside no dossiê dos transportes marítimos e aéreos interilhas. Cinquenta anos após a independência, é incompreensível e inaceitável que um país arquipe...

Tio Sam como xerife global: entre a ordem e o caos

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  A figura do “xerife global” sempre ocupou um lugar ambíguo na imaginação geopolítica: simultaneamente associada à manutenção da ordem internacional e à imposição unilateral de poder. Durante décadas, essa ambiguidade foi parcialmente mitigada por um quadro institucional relativamente robusto, ancorado em regras, alianças e mecanismos multilaterais que conferiam previsibilidade à atuação das grandes potências. Contudo, quando esse “xerife” passa a agir de forma errática – ou deliberadamente imprevisível – deixa de ser apenas um garante da ordem para se transformar num fator ativo de instabilidade. A lógica da dissuasão pela imprevisibilidade, frequentemente associada à chamada “teoria do louco”, deixa então de ser um instrumento tático e passa a assumir contornos sistémicos, com implicações profundas para a economia global, para a segurança internacional e para a própria arquitetura das relações entre Estados. A conjuntura recente ilustra com particular clareza esta transformação....