Mensagens

Cabo Verde: racionalizar o Estado para conter a despesa pública

Imagem
  Como tenho vindo a defender, Cabo Verde já não dispõe de margem para continuar a tratar a despesa pública como se os recursos do país fossem inesgotáveis. A urgência de uma dieta institucional deixou de ser uma simples metáfora do debate político para se tornar uma exigência de sustentabilidade financeira do Estado. Ao longo da última década, consolidou-se um padrão de expansão da máquina pública que não foi acompanhado por ganhos proporcionais de eficiência nem por melhorias equivalentes na qualidade dos serviços prestados aos cidadãos. O resultado está à vista: mais despesa, maior rigidez orçamental, mais dívida e menor capacidade para investir nas áreas que verdadeiramente impulsionam o desenvolvimento económico e o bem-estar coletivo. O Estado cresceu, mas não se tornou mais eficaz; tornou-se mais pesado, mais oneroso e cada vez mais absorvido pela manutenção da sua própria estrutura Todavia, Cabo Verde não pode sustentar indefinidamente este modelo sem pagar a fatura sob a f...

Breves considerações sobre as reformas estruturais que Cabo Verde precisa

Imagem
  1.   Cabo Verde virou uma página política. As legislativas de maio de 2026 devolveram o PAICV ao poder ao fim de dez anos, mas o dado mais eloquente da noite não foi a alternância: foi a abstenção recorde, acima dos 53%. Quando mais de metade do eleitorado fica em casa, numa democracia apontada como exemplar em África, a mensagem é clara: os cabo-verdianos querem resultados, não promessas. Este ciclo político pode ser a última oportunidade, numa geração, para atacar a raiz dos problemas que geram estagnação relativa e descontentamento. Desperdiçá-la seria imperdoável. 2.   À primeira vista, os números oficiais até animam: em 2025, o PIB terá crescido 6,3%, a inflação fixou-se em 2,3% e o desemprego caiu para 6,2%. Mas debaixo da superfície persistem fragilidades profundas: uma dívida pública oficial na ordem dos 107,1% do PIB – das mais elevadas de África –, uma economia perigosamente dependente do turismo e um Estado que pesa muito e entrega pouco. O crescimento recent...

Criptomoedas em Cabo Verde: oportunidades, riscos e regulação

Imagem
  Em outubro de 2008, um documento de nove páginas publicado na internet por um autor identificado apenas como Satoshi Nakamoto propunha ao mundo uma ideia aparentemente simples: criar um sistema eletrónico de pagamento entre pares que dispensasse completamente a intermediação de qualquer instituição financeira. Esse texto lançaria as bases de uma revolução silenciosa que, mais de uma década e meia depois, movimenta dezenas de biliões de dólares por dia e divide economistas, reguladores e investidores entre a fascinação e o ceticismo. Em janeiro de 2009 ,  Satoshi Nakamoto lançou a primeira criptomoeda, denominada Bitcoin, que também é a primeira moeda digital criada com base no sistema descentralizado blockchain . A tecnologia subjacente ao Bitcoin – a blockchain (cadeia de blocos) – é um registo distribuído ( distributed ledger ), público e partilhado por milhares de computadores, no qual as transações são registadas de forma permanente e virtualmente imutável. Alterar qu...

O Paradoxo de Kaldor e a valorização do yuan

Imagem
  A valorização recente do yuan – a unidade monetária do renminbi, a moeda oficial da República Popular da China – constitui um dos factos económicos mais interessantes do nosso tempo. Num mundo habituado a associar competitividade externa a salários baixos e moedas fracas, a experiência chinesa aponta numa direção diferente. No início de junho de 2026, o yuan offshore negociava em torno de 6,8 por dólar, acumulando uma valorização próxima de 6% em apenas doze meses. Não se trata de uma anomalia passageira, mas do reflexo de uma transformação estrutural. À medida que a economia chinesa sobe na cadeia de valor, aumenta a produtividade, reforça a capacidade tecnológica e conquista mercados através da qualidade e da inovação, a sua moeda tende a fortalecer-se. Este fenómeno confere nova relevância às ideias do economista britânico Nicholas Kaldor, que há várias décadas argumentava que a verdadeira fonte da competitividade não reside em salários baixos ou desvalorizações cambiais, mas ...