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É preciso discutir a compra de consciência eleitoral e de votos em Cabo Verde*

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  A compra de consciência eleitoral e de votos não é um fenómeno novo em Cabo Verde. Ao longo das últimas décadas, sob diferentes formas e com diferentes graus de intensidade, a dependência económica, o acesso a empregos e benefícios públicos, a promessa de favores e a utilização de recursos do Estado ou das autarquias foram, em diferentes momentos, mobilizados como instrumentos de fidelização política. Nem sempre se trata da compra direta de um voto por dinheiro. Muitas vezes, a prática assume formas mais subtis, mas não necessariamente menos eficazes: cria-se uma relação de dependência em que o cidadão passa a associar o benefício recebido, ou a expectativa de o receber, à sua escolha eleitoral. O problema ganhou, contudo, uma dimensão particularmente preocupante nas últimas eleições legislativas. A expansão de benefícios sociais, a distribuição de apoios e outras medidas de forte impacto eleitoral, algumas delas anunciadas ou executadas num período temporal muito próximo do ato ...

Aos 90 anos, a Teoria Geral de Keynes continua a desafiar o pensamento económico

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  A Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda , obra seminal do economista britânico John Maynard Keynes, completou, em fevereiro de 2026, noventa anos. A primeira edição foi publicada em fevereiro de 1936. Convém começar pelo prefácio, onde se condensa o programa intelectual da obra: “A redação deste livro representou, para o autor, uma longa luta de evasão, e a sua leitura deverá ser, para a maioria dos leitores, uma tentativa bem-sucedida de escapar aos modos habituais de pensamento e de expressão. As ideias aqui expostas com tanto esforço são extremamente simples e deveriam ser óbvias. A dificuldade não reside nas ideias novas, mas em libertarmo-nos das antigas, que se ramificam, para quem tenha sido educado como a maioria de nós, por todos os recantos do espírito.” Este passo excede a função protocolar dos prefácios: Keynes não se propõe aperfeiçoar um edifício doutrinário estabelecido, mas remover um obstáculo de natureza epistemológica. O que impede a compreensão dos fenóm...

A Utopia Liberal, de Rui Albuquerque: anatomia de uma tradição

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As interrogações sobre o sentido da existência, sobre Deus ou sobre a finalidade da presença humana no mundo pertencem a uma categoria de problemas que dificilmente admite resposta demonstrável. Existe, porém, uma classe distinta de questões, menos transcendentes e não menos consequentes, cujo tratamento permanece igualmente em aberto: a de determinar qual o modo mais adequado de organizar a vida em comum. Aplicada ao liberalismo, essa interrogação desdobra-se em vários planos. Constituirá ele, enquanto filosofia política e tradição intelectual, apenas uma entre várias configurações historicamente disponíveis, ou a tentativa mais eficaz de articular liberdade, ordem e prosperidade? E as suas deformações contemporâneas resultam de desvios acidentais ou decorrem logicamente dos seus pressupostos? A pertinência destas perguntas não é meramente académica. Os momentos fundadores da modernidade política – a Revolução Gloriosa inglesa, a Independência Americana e, com a ressalva do período d...

Aprender com a China: a anatomia de um Estado elétrico

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  Um relatório do Rhodium Group descreve um ecossistema em que eletricidade barata, processamento de metais e manufatura de tecnologias limpas se reforçam mutuamente. Para os Estados Unidos e para a União Europeia, o diagnóstico é desconfortável: replicar o modelo é hoje quase impossível – e competir com ele terá um preço. O fim de uma narrativa cómoda Durante duas décadas, a leitura ocidental da ascensão industrial chinesa assentou num catálogo restrito de explicações: mão-de-obra barata, uma moeda artificialmente subvalorizada e a apropriação sistemática de propriedade intelectual alheia. Cada um destes elementos tem fundamento histórico. Nenhum deles explica, isoladamente, o que se observa em 2026. O relatório Minerals, Metals, and Megawatts: How China's Power Generation Drives Its Industrial Metals Ecosystem , publicado pelo Rhodium Group [1] a 24 de março de 2026 e assinado pelo analista Rogan Quinn, propõe uma explicação de outra natureza. Pequim consolidou aquilo qu...

Cabo Verde: racionalizar o Estado para conter a despesa pública

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  Como tenho vindo a defender, Cabo Verde já não dispõe de margem para continuar a tratar a despesa pública como se os recursos do país fossem inesgotáveis. A urgência de uma dieta institucional deixou de ser uma simples metáfora do debate político para se tornar uma exigência de sustentabilidade financeira do Estado. Ao longo da última década, consolidou-se um padrão de expansão da máquina pública que não foi acompanhado por ganhos proporcionais de eficiência nem por melhorias equivalentes na qualidade dos serviços prestados aos cidadãos. O resultado está à vista: mais despesa, maior rigidez orçamental, mais dívida e menor capacidade para investir nas áreas que verdadeiramente impulsionam o desenvolvimento económico e o bem-estar coletivo. O Estado cresceu, mas não se tornou mais eficaz; tornou-se mais pesado, mais oneroso e cada vez mais absorvido pela manutenção da sua própria estrutura Todavia, Cabo Verde não pode sustentar indefinidamente este modelo sem pagar a fatura sob a f...