Ensaio Kafkiano sobre a Ignorância, Mediocridade, Inveja e Maldade Gratuita

A Intoxicação do Espaço Público e a Burocracia da Reputação com o Beneplácito do Estado

Franz Kafka, o arquiteto literário dos labirintos da alma, nunca pisou o solo vulcânico de Cabo Verde, mas a sua prosa é o único instrumento capaz de mapear a topografia do absurdo que se ergue quando o poder se alia ao ressentimento. Ao observarmos a dinâmica das redes sociais num microcosmo social onde as reputações são, simultaneamente, capital e alvo, não estamos perante meras contendas digitais. Estamos a testemunhar a encenação de "O Processo" em tempo real. É um julgamento onde o réu desconhece o seu crime exato, a acusação é uma hidra de mil cabeças anónimas, a defesa é fútil e a sentença é o exílio cívico, tudo sob o olhar vigilante e cúmplice de um poder que lucra com o espetáculo. O arquipélago, fisicamente um lugar de luz e morabeza, encontra o seu duplo sombrio num espaço virtual claustrofóbico e doentio.

O ponto de partida deste processo é a publicação de um pensamento independente. Um texto de opinião, uma análise crítica, uma simples interrogação que perturba a quietude do consenso. É o suficiente para que a complexa maquinaria de aniquilação seja ativada, peça por peça.

A primeira linha de assalto é composta pelos tribalistas ideológicos doentios, as sentinelas do dogma. A sua Ignorância não é ausência de informação, mas sim uma recusa ativa e militante de qualquer facto que contradiga a sua fé. Para eles, o mundo é um campo de batalha onde as ideias não são para ser compreendidas, mas sim classificadas como "amigas" ou "inimigas". Praticam uma hermenêutica da suspeição: descontextualizam frases, distorcem argumentos e invertem o ónus da prova, por vezes forçando o autor a defender-se de acusações delirantes. Pior ainda. Com frequência, nem se dão ao trabalho de ler o conteúdo; basta-lhes a fotografia do autor ou o título do texto. Funcionam como uma infantaria preconceituosa e descartável, incumbida de criar o caos inicial e assinalar o alvo às forças que se seguem.

Atrás deles avança o vasto e amorfo exército da Mediocridade. Este é o reino dos recalcados e frustrados, indivíduos que, na sua maioria, são funcionalmente inúteis à sociedade no que à produção de valor ou conhecimento diz respeito. Incapazes de construir, encontram o seu único propósito na demolição. A visão de alguém que se destaca pelo intelecto, pela coragem ou pelo rigor, serve apenas para lhes espelhar a sua própria insignificância. O ataque ad hominem funciona, na prática, como uma forma de terapia coletiva entre certos grupos: uma projeção da sua autoaversão. Essa dinâmica deteriorante conta, infelizmente, com um braço profissionalizado funcionários públicos, alguns deles remunerados a peso de ouro, que transformam recursos e tempo de serviço em um espaço de comando para a guerrilha digital e a difamação de adversários. É fácil constatar o fenómeno em determinados cafés do país, nomeadamente na Praia e no Mindelo, mesmo durante o horário de expediente. Justificam a sua conduta como uma defesa "patriótica" do governo ou do partido, mas, na verdade, estão apenas a defender o sistema que lhes garante um salário em troca de lealdade, e não de competência.

O motor que incendeia esta aliança profana é a Inveja, aqui elevada à categoria de ferramenta de gestão política. Muitos destes agressores são dependentes diretos das benesses do poder. O seu emprego, o seu estatuto e o seu pequeno palco de influência foram obtidos não por mérito, mas por subserviência ao partido político que sustenta o poder. O pensador livre é uma anomalia intolerável, a prova viva de que a relevância pode ser alcançada fora do curral. A sua destruição torna-se, assim, um imperativo para a manutenção do status quo. Este assassinato de caráter conta com o apoio velado das instituições do poder, pois a sua agenda e a dos agressores convergem: a ambos lhes interessa politicamente a criação de um ambiente de intimidação que silencie o escrutínio e a crítica. O linchamento de um dissidente serve como um espetáculo pedagógico, uma lição brutal para quem mais ouse sair da linha.

A execução final é levada a cabo pela Maldade Gratuita, e é aqui que o processo se revela em toda a sua dimensão patológica, transitando da inveja para o puro sadismo. É aqui que a análise de Arthur Schopenhauer ressoa com uma precisão cirúrgica: "Sentir inveja é humano, saborear a desgraça alheia é diabólico." Os agressores ultrapassam a fronteira do ressentimento "humano" e entram no território do prazer demoníaco. Eles sentem-se, genuinamente, felizes e realizados ao orquestrar a humilhação. Friedrich Nietzsche, por sua vez, foi ainda mais incisivo ao dissecar a psicologia do poder que emerge da fraqueza, afirmando: "A visão de um sofredor faz bem, a de um fazedor de sofrimento ainda melhor – este é um princípio duro, mas um princípio fundamental, antigo, poderoso, humano." Para estes indivíduos, fazer sofrer é a sua única forma de se sentirem poderosos, de exercerem um controlo sobre a realidade que, de outra forma, os esmaga. É um frenesim de caça em matilha, um ato catártico onde a dor infligida ao outro serve de analgésico para as suas próprias frustrações. O escárnio partilhado em grupos privados, a celebração da angústia da vítima, confere-lhes este sentimento de poder e de pertença que as suas vidas estéreis lhes negam.

Contudo, o que eleva este drama de aldeia a uma tragédia Kafkiana é a Impunidade absoluta, calculada e sistémica, que serve de alicerce a toda a estrutura. Esta máquina de difamação não opera num vácuo; ela prospera à sombra de um Estado que se demite da sua função protetora. As instituições de controlo social, nomeadamente os Tribunais, pouco ou nada fazem. A vítima que ousa procurar justiça entra num segundo labirinto, ainda mais perverso. Depara-se com a lentidão processual, com os custos proibitivos, com a dificuldade técnica de identificar agressores por detrás de perfis falsos e com uma aparente falta de vontade ou de especialização para lidar com a violência digital. O próprio ato de procurar justiça transforma-se numa segunda punição, um processo de revitimização que exaure os seus recursos e a sua fé na lei. Esta inação do sistema judicial não é uma mera falha; é uma mensagem política. Sinaliza que o espaço digital é uma zona de exceção, onde a lei da selva prevalece e onde os prevaricadores têm mãos livres para continuar a prevaricar.

O resultado é a instalação de um regime de terror intelectual. O alvo direto fica exausto, silenciado. Mas o efeito mais devastador é sobre os espectadores. A mensagem é clara: "Se te atreveres a pensar fora da caixa, isto é o que te espera". A autocensura torna-se a estratégia de sobrevivência dominante. O debate público, que deveria ser um oceano de ideias, transforma-se num pântano de platitudes e de medo, onde apenas as vozes autorizadas pela tribo ou pelo poder podem ecoar sem receio. A esfera digital, em vez de libertar, aprisiona.

Conclui-se, assim, que este ensaio Kafkiano não é uma mera metáfora literária. É a descrição clínica de um sistema de controlo social perfeitamente adaptado ao século XXI. Um sistema onde a burocracia não é feita de papelada, mas de partilhas e comentários; onde os guardas não usam farda, mas perfis falsos; e onde a condenação não leva à prisão física, mas ao isolamento social e à morte civil. É o triunfo da mediocridade organizada, um mecanismo eficiente para garantir que nenhuma voz se erga demasiado alto, que nenhuma luz brilhe demasiado forte, preservando assim a confortável escuridão do status quo. O réu, no final, compreende a lição mais terrível de Kafka: o processo é, em si mesmo, a punição.

Praia, 05 de novembro de 2025

 


 

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