São Vicente chora, o Governo esbanja
A
dimensão humana da catástrofe em São Vicente é devastadora: nove mortos, duas
pessoas desaparecidas, famílias desalojadas, perda de bens, negócios arruinados
e um sentimento generalizado de impotência. Do ponto de vista social, os
impactos foram avassaladores. Milhares de cidadãos viram as suas casas
inundadas, muitas delas construídas de forma precária e em zonas de risco.
Pequenos empreendedores perderam, em horas, o esforço de uma vida. O tecido
comunitário, assente na solidariedade, foi colocado à prova. Os prejuízos
económicos são incalculáveis, mas indiscutivelmente avultados. Para além dos
danos materiais imediatos, a tragédia paralisa atividades económicas essenciais
– desde a economia informal até ao turismo, setor vital para o país, que pode
sofrer impactos reputacionais duradouros.
O
Estado respondeu à calamidade com medidas de emergência, mas rapidamente ficou
evidente que os recursos disponíveis são insuficientes para dar resposta à
magnitude da destruição. É precisamente por isso que a tragédia de São Vicente
obriga a uma reflexão séria sobre as escolhas feitas no Orçamento do Estado
para 2025 (OE/2025). Ninguém nega que o orçamento público tem sempre limitações
e tensões, mas é incompreensível que, num momento como este, continuem
inscritas rubricas de despesa que podem e devem ser reduzidas drasticamente.
Tomemos, por exemplo, as deslocações e estadias oficiais, que somam cerca de
1,2 mil milhões de escudos, traduzindo-se num aumento de 18% face a 2024. Não
está em causa a importância da representação externa de Cabo Verde, mas sim o
abuso sistemático de viagens que podiam ser substituídas por participações
virtuais ou simplesmente dispensadas. Mesmo a regra do uso obrigatório da
classe económica, prevista em lei, é frequentemente contornada por
justificações vagas. Em plena crise humanitária, sustentar a “indústria das
viagens” que beneficia apenas uma elite é um atentado à confiança pública.
Outro
exemplo gritante são as despesas com consultorias, assistência técnica e
honorários. O Orçamento de 2025 inscreve mais de dez milhões de escudos nessas
rubricas, num aumento de quase 60% face ao exercício anterior. Trata-se de
contratos que, muitas vezes, replicam competências já existentes na
administração ou que servem apenas para manter uma rede de consultores
nacionais e estrangeiros com ligações privilegiadas ao poder político. Cortar
aqui não só é possível como é imperativo. Mais eficaz seria investir esses
recursos em formação interna e no reforço das equipas técnicas da administração
pública, reduzindo a dependência crónica de consultores externos.
Há
ainda uma ironia orçamental difícil de justificar: a manutenção de despesas com
o staff de preparação do III Millennium Challenge Account, quando já se sabe
que o programa não se concretizará. Segundo noticiado no jornal A Nação (edição
n.º 931, de 3 de agosto), os custos com o pessoal que integra a estrutura
criada para preparar o novo programa de investimentos representavam, à data, um
encargo significativo para os cofres públicos – à volta de 40 milhões de
escudos. Continuar a financiar salários avultados a uma equipa cuja missão
deixou de existir é mais do que inércia administrativa; é um insulto às vítimas
de São Vicente. Os recursos inscritos no OE/2025 para esse efeito deveriam ser
imediatamente reafetados às prioridades de reconstrução de São Vicente.
No
conjunto, todas estas despesas configuram o que podemos designar, sem rodeios,
por gordura orçamental: gordura que não acrescenta valor, não melhora a vida
das pessoas e apenas sustenta hábitos instalados e privilégios de uma minoria.
Todavia, a questão de fundo é mais profunda: trata-se da forma como o Estado
cabo-verdiano se organiza e absorve recursos.
Na
verdade, como escrevi em diversos textos, inclusive publicados neste semanário,
a criação de estruturas redundantes para responder a problemas que poderiam ser
resolvidos com melhor gestão das existentes, ou para absorver quadros do
partido no poder, tornou o Estado, particularmente nos últimos anos, obeso,
caro, lento e excessivamente partidarizado. De facto, as despesas correntes do
Estado dispararam durante os nove anos de governação do MpD, com uma velocidade
e uma dimensão nunca antes vistas na história de Cabo Verde: passaram de 34,8
milhões de contos em 2015 para 78,9 milhões de contos em 2025 (OE/2025), um
aumento de 127,1%. Contudo, este aumento brutal e insustentável das despesas de
funcionamento do Estado não corresponde a melhorias nos serviços públicos, nem
está a gerar um impacto positivo e mensurável na vida dos cidadãos. Ou seja, os
recursos públicos estão, de alguma forma, a ser esbanjados. É caso para dizer
que a boa governação não se mede pelo volume de recursos gastos, mas pela
eficácia com que estes respondem às necessidades reais da população.
Como
advertiu Vito Tanzi, antigo diretor do Departamento de Assuntos Fiscais do FMI,
Estados que crescem em funções e estruturas tornam-se “obesos”, absorvendo
recursos que deveriam estar ao serviço da sociedade. Nos pequenos países
insulares, como salientou Amartya Sen, as escolhas orçamentais são, mais do que
técnicas, escolhas de justiça social: cada escudo despendido em privilégios é
um escudo retirado à dignidade básica de uma família.
Por
isso, mais do que cortes pontuais, impõe-se uma reforma estrutural da
administração pública. Não se trata de reduzir indiscriminadamente, mas de
tornar o Estado menos obeso e mais eficiente, focado em funções essenciais e
libertando recursos para a sociedade. Significa combater a multiplicação de estruturas
que consomem orçamento sem entregar resultados visíveis; significa modernizar
procedimentos, digitalizar serviços e eliminar redundâncias; significa
valorizar os servidores que realmente fazem a diferença na vida dos cidadãos e
acabar com a lógica de carreiras políticas paralelas e de consultorias
permanentes.
A tragédia de São Vicente deveria ser o ponto de viragem. Não é admissível pedir paciência e resiliência à população quando o Estado insiste em gastar em estruturas sem serventia, em viagens desnecessárias, em consultorias redundantes, em honorários desproporcionados e em staff sem função. O que se exige é coragem política para cortar onde faz sentido e canalizar fundos para onde realmente fazem falta, nomeadamente para preparar o país para enfrentar as alterações climáticas.
Praia, 23 de agosto de 2025
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