Governo e o triunfo da encenação sobre a responsabilidade

Num país pequeno, onde a intimidade social facilmente se confunde com competência e a visibilidade pública substitui a substância, a ignorância atrevida e a perda da noção do ridículo deixaram de ser exceção para se tornarem norma – com custos materiais, institucionais e morais de efeito corrosivo. Instala-se, assim, um ecossistema político em que a pose vale mais do que o rigor, o anúncio pesa mais do que a execução e a ausência de vergonha cívica deixa de ser lapsus para se transformar em método de governação. O ridículo, longe de envergonhar, passou a conferir poder: legitima o que deveria ser corrigido e absolve o que deveria ser escrutinado. Num país pequeno, onde os erros se multiplicam por escala e cada gesto tem impactos imediatos, essa combinação é fatal: mata instituições, destrói confiança e esvazia oportunidades reais de desenvolvimento.

O ciclo tornou-se evidente em 2016, quando o discurso eleitoral se encheu de promessas transformadoras: diversificação da economia para além do turismo, hospital de referência na Praia, aeroporto em Santo Antão, resolução dos problemas nos transportes marítimos interilhas, recuperação definitiva da companhia aérea nacional, modernização dos aeroportos do Fogo e do Maio, despartidarização da administração pública e os célebres 45.000 postos de trabalho qualificados. Eram bandeiras de modernização, símbolos de um país supostamente prestes a dar um salto histórico. O eleitorado acreditou porque ainda julgava possível reconciliar ambição com seriedade. Contudo, quase uma década depois – e paradoxalmente a poucos meses de novas eleições – reaparecem exatamente as mesmas promessas, recicladas e reanunciadas com um desplante só possível num contexto em que os decisores presumem que a memória cívica é frágil e a tolerância social infinita.

As afirmações recentes sobre obras que vão “começar ainda nesta legislatura” ou projetos “prestes a arrancar” revelam menos um plano operacional do que uma coreografia política. Esta reedição cíclica de promessas não cumpridas converte o eleitorado numa plateia perpetuamente adiada, que assiste, incrédula, ao retorno de anúncios idênticos, como se a inércia governativa pudesse ser mascarada por frases de efeito. É o triunfo da encenação sobre a responsabilidade.

O pano de fundo desta repetição é a opacidade que marca a gestão da coisa pública. Em Cabo Verde, tornou-se quase rotina que grandes projetos surjam envoltos em anúncios exuberantes, mas com escassa informação verificável: contratos não publicados, cronogramas vagos, custos indefinidos, auditorias prometidas mas nunca disponibilizadas ao escrutínio. O resultado é invariável: quando o projeto não avança, a narrativa oficial colide com a cronologia real – repleta de decisões improvisadas, correções tardias, expetativas irrealistas e contratos de contornos pouco claros. O cidadão comum, perante a divergência entre promessa e prática, perde confiança e interioriza a ideia de que o património público se tornou matéria maleável ao serviço de operações de marketing e não de políticas públicas.

A partidarização da administração pública, apesar da promessa explícita de despartidarização, agrava esta perceção de captura do Estado. O fenómeno dos “jobs for the boys” generalizou-se a tal ponto que muitos setores funcionam como extensões partidárias, onde o mérito é secundário e as afinidades políticas se tornaram critério decisivo para recrutamento, progressão e nomeação. A administração pública, assim gerida, não só perde eficácia como se transforma em terreno fértil para o clubismo político: discutem-se pessoas e lealdades em vez de ideias e políticas. A máquina do Estado, fragilizada por escolhas de conveniência, perde capacidade técnica e torna-se incapaz de responder aos desafios nacionais com rigor e visão.

O nepotismo e o compadrio – parentes, amigos e aliados estratégicos colocados em posições-chave sem critério de mérito – multiplicam os danos. Esta cultura de favor mina carreiras, descredibiliza quadros competentes e afasta talento. Num país pequeno, onde a qualificação técnica é recurso escasso e essencial, esta erosão de capital humano traduz-se numa perda estrutural: o Estado planeia pior, executa pior e regula pior. O país empobrece institucionalmente antes de empobrecer economicamente.

A falta de transparência e o clientelismo alimentam ainda práticas de condicionamento da liberdade de expressão. Milícias digitais – algumas explícitas, outras mais subtis – são mobilizadas, por vezes financiadas com recursos públicos, para atacar críticos, intimidar jornalistas, manipular debates e criar um ambiente de medo que corrói a cidadania ativa. Contas anónimas surgem para difamar, distorcer e silenciar qualquer voz que perturbe a narrativa dominante. O espaço digital transforma-se, assim, numa arena onde a crítica se torna arriscada e onde a opinião pública é moldada não por argumentos, mas por mecanismos de intimidação simbólica. A democracia adoece quando a crítica deixa de ser exercício de cidadania para se tornar ato de coragem individual.

Nada disto é isolado ou acidental. A saga da TACV, as sucessivas promessas sobre a normalização dos transportes interilhas e o labirinto de concessões e avales demonstram o que acontece quando se substitui planeamento por espetáculo. O caso dos transportes marítimos é paradigmático: prometeu-se reorganização, frota reforçada, novas parcerias, regulação forte. Na prática, acumulou-se o oposto: contratos polémicos, falhas operacionais, ilhas isoladas durante dias, produtos a apodrecer, doentes impedidos de viajar. É difícil imaginar diagnóstico mais evidente da normalização do absurdo. E, quando o absurdo se normaliza, a indignação perde força e o país acomoda-se à negligência como se fosse inevitável.

A apresentação de megaprojetos visionários – hotéis colossais, zonas económicas futuristas, aeroportos multiplicados – constitui outro padrão da mesma lógica. Grandes promessas sem cronograma, sem financiamento sustentável e sem garantias mínimas tornam-se instrumentos de propaganda e não de desenvolvimento. Cada projeto falhado amplia o descrédito externo e acelera o desgaste interno. A reputação do país deteriora-se quando se promete mais do que se cumpre; e deteriora-se ainda mais quando se promete repetidamente aquilo que já se falhou cumprir.

Perante este quadro, a retórica oficial que insiste que “as grandes obras estão para começar” produz um efeito de anestesia coletiva. O que se exige não são slogans, mas transparência: contratos públicos e escrutináveis, estudos de viabilidade consistentes, cronogramas respeitados e responsabilização efetiva por incumprimento. Sem estes elementos, qualquer discurso governativo torna-se insultuoso – e tratar os eleitores como plateia acrítica é tratá-los como mentecaptos, gesto que revela, no seu auge, uma profunda falta de noção do ridículo.

A indignação pública, por mais genuína, tende a dissipar-se no curto ciclo mediático. Mas o país não pode resignar-se a essa volatilidade emocional. Se pretende sair deste círculo vicioso, Cabo Verde precisa de instituições fortes, reguladores independentes, tribunais que funcionem sem pressões, uma sociedade civil ativa, auditorias rigorosas e um jornalismo investigativo que não tema confrontar o poder.

Para concluir, recordemos Nietzsche: “o ridículo mata, mas a seriedade salva.” E num país  pequeno essa diferença é tudo.

Praia, 06 de dezembro de 2025


 

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