Foguetório e verniz: o B+ que continua a colocar Cabo Verde no patamar do “lixo”*
Recentemente, a agência de notação financeira Standard
& Poor’s, S&P, anunciou que elevou a sua classificação da dívida
soberana de longo prazo de B para B+ e reafirmou a classificação da dívida
soberana de curto prazo em B para Cabo Verde, justificando a decisão pelo
progresso fiscal e externo.O Governo e a maioria que o sustenta celebraram a pequena melhoria no “rating” como triunfo decisivo, com foguetório e fanfarronice. A verdade é que a melhoria é cosmética: trata‑se de um ligeiro ajuste num quadro que continua a classificar Cabo Verde no patamar do chamado “lixo”, como veremos seguidamente.
As agências de “rating” regem-se por regras próprias e
a sua missão é oferecer aos investidores uma classificação de risco dos
devedores, para os orientar nas decisões de investimento. Ninguém é obrigado a
seguir as suas classificações, mas é um facto que muitos investidores se
orientam voluntariamente por elas e isso tem consequências para o acesso dos
devedores ao mercado.
As classificações de crédito atribuídas por agências
como S&P, Moody’s e Fitch, as três maiores e mais conhecidas, funcionam
como um indicador padronizado do risco de incumprimento de um emissor ou de um
título de dívida. Essas classificações dividem‑se, genericamente, em duas
categorias principais: grau de investimento e grau de não investimento, também
designado por grau especulativo, cada uma com implicações distintas para
investidores e para o mercado.
No espectro do grau de investimento situam‑se
emissores e instrumentos de dívida com menor risco de crédito, considerados
mais seguros para a maioria dos investidores. No topo desta categoria está a
classificação AAA, que denota a capacidade de pagamento mais robusta e o risco
de crédito mais baixo possível. Um emissor com AAA é visto como tendo uma força
excecional para honrar os seus compromissos financeiros, sendo minimamente
afetado por adversidades económicas. As classificações AA indicam uma capacidade
de pagamento muito forte e um risco de crédito muito baixo, ainda que
ligeiramente inferior ao AAA. A categoria A representa uma capacidade de
pagamento forte, com maior suscetibilidade a alterações nas condições
económicas do que as categorias superiores, mas com risco de crédito ainda
baixo. Finalmente, BBB é a classificação mais baixa dentro do grau de
investimento. Embora a capacidade de cumprir as obrigações financeiras seja
considerada adequada, existe maior vulnerabilidade a condições económicas desfavoráveis
do que nas categorias superiores. Investidores institucionais, como fundos de
pensões, frequentemente têm mandatos para investir primariamente em títulos
desta categoria devido à perceção de segurança.
Contrastando com essa segurança percebida, está o grau
de não investimento, frequentemente referido como grau especulativo ou “junk
bonds”, onde se encontra o “rating” de Cabo Verde. Esta categoria engloba
emissores e títulos com risco de crédito significativamente mais elevado,
tornando‑os mais voláteis e suscetíveis a condições económicas adversas. Como
consequência, os investidores normalmente exigem um retorno superior para
compensar o risco adicional. A classificação BB marca o início desta categoria;
embora ainda possa existir alguma capacidade de pagamento no curto prazo, a
fiabilidade é menor e a vulnerabilidade a mudanças nas condições económicas,
financeiras e de negócio é acentuada. A classificação B, que inclui B+, B e B‑,
indica um risco de crédito significativo e uma capacidade de pagamento incerta,
sobretudo em cenários económicos adversos. Nas categorias CCC e inferiores, o
emissor é considerado altamente especulativo e vulnerável a incumprimentos, com
o cumprimento das obrigações financeiras a depender fortemente de condições
económicas favoráveis. As classificações CC e C denotam uma vulnerabilidade
ainda maior, muitas vezes com incumprimento iminente ou já ocorrido para
algumas obrigações.
A classificação D significa que o emissor já se
encontra em incumprimento, tendo falhado no pagamento das suas obrigações
financeiras. Investidores que procuram rendimentos mais elevados e aceitam
maior risco tendem a considerar títulos destas categorias, conscientes de que a
volatilidade e o risco de perda de capital são substanciais.
Cabo Verde é um pequeno Estado insular em
desenvolvimento, com uma economia de mercado pouco desenvolvida e uma balança
de pagamentos fortemente dependente da ajuda externa, em particular de
empréstimos concessionais, donativos e remessas de emigrantes.
Mesmo após a liberalização económica e as
privatizações de empresas públicas ocorridas na década de 1990, não se criou um
mercado de capitais que se tivesse desenvolvido, amadurecido, tornado credível
e internacionalizado. O mercado permanece, basicamente, limitado ao mercado
primário, sobretudo de dívida pública, cujos intervenientes são essencialmente
investidores institucionais nacionais. O mercado secundário de capitais
continua, na prática, inexistente.
Nessas condições, dificilmente a notação da República
pode cumprir, de forma inequívoca, duas funções essenciais: por um lado,
sinalizar que Cabo Verde é de confiança, ou seja, que tem capacidade de honrar
os seus compromissos e, assim, merecer o grau de investimento; por outro lado,
indicar que existe risco de incumprimento, o que colocaria a dívida no grau
especulativo com as respetivas consequências nos mercados de capitais, a nível
nacional e internacional.
Na verdade, embora Cabo Verde nunca tenha obtido, por
parte das agências de notação, um “rating” correspondente ao grau de
investimento, o país tem vindo, até à data, a cumprir, com maiores ou menores
dificuldades, os seus compromissos financeiros nacionais e internacionais
relativos à dívida pública, o que lhe permitiu endividar‑se de forma
continuada.
Não obstante, a notação da República pode fornecer uma
indicação útil sobre o nível de endividamento do país e as suas implicações
futuras. Essa notação pode, de forma direta ou indireta, influenciar as
decisões dos parceiros de desenvolvimento de Cabo Verde, ou seja, daqueles que,
na prática, disponibilizam recursos financeiros ao país, nomeadamente
organismos multilaterais de financiamento e desenvolvimento como o Banco
Mundial, o Fundo Monetário Internacional e o Banco Africano de Desenvolvimento.
Ora, uma dívida pública muito elevada pode comprometer a atividade económica,
pois obriga a impostos mais altos para o seu financiamento, pressiona as taxas
de juro e reduz os investimentos privados e o poder de compra das famílias. Se
o défice não for financiável, impõem‑se cortes orçamentais ou aumentos de
impostos para restaurar o equilíbrio fiscal; na ausência dessas medidas, o país
arrisca uma crise da dívida, com recurso à inflação ou ao incumprimento,
seguido, frequentemente, de um programa de ajustamento estrutural.
É, essencialmente, nesse quadro que vejo alguma
utilidade na atual notação de risco de crédito de Cabo Verde. Fora desse
contexto, a sua serventia é bastante limitada.
Praia, 14 de fevereiro de 2026
*Artigo publicado no jornal A Nação, edição n.º 964, de 19 de fevereiro de 2026
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