Breves considerações sobre o voto económico em Cabo Verde*
A
relação entre o desempenho da economia e os resultados eleitorais constitui um
dos pilares mais estudados da ciência política moderna. A premissa fundamental, frequentemente
debatida na literatura especializada e que serve de base a esta reflexão,
sugere um mecanismo de recompensa e punição: os eleitores, agindo
racionalmente, tendem a reconduzir governos que promovem a prosperidade e a penalizar
aqueles associados à recessão ou à perda de poder de compra.No entanto, ao transpusermos este modelo teórico – vulgarmente conhecido como a hipótese do voto económico – para a realidade de Cabo Verde, deparamo-nos com nuances que exigem uma adaptação cuidada das variáveis clássicas. Cabo Verde é uma economia pequena, insular e altamente aberta, com um espaço de política económica relativamente limitado e uma forte dependência de fluxos externos, nomeadamente do turismo internacional, das remessas da diáspora e da ajuda externa. Esta configuração estrutural condiciona não apenas o desempenho económico objetivo, mas também a forma como os eleitores percecionam a capacidade real de atuação do governo e, consequentemente, o grau de responsabilidade que lhe atribuem pelos resultados económicos.
Para compreender a dinâmica do voto económico em Cabo Verde, é imperativo recuar aos momentos de alternância política, onde a economia desempenhou invariavelmente um papel de charneira. As vitórias MpD em 1991 e 2016, bem como o regresso do PAICV em 2001, não podem ser dissociadas dos ciclos económicos subjacentes. Em 2016, por exemplo, o desgaste provocado por um crescimento anémico e o aumento da dívida pública foram catalisadores decisivos para a mudança de ciclo político, validando a tese de que o eleitorado cabo-verdiano exerce um voto punitivo quando a perceção de bem-estar estagna. Contudo, a aplicação cega da teoria do voto económico esbarra num obstáculo empírico recente e significativo: as eleições legislativas de 2021.
O escrutínio de 2021 constitui o “cisne negro” na aplicação linear da teoria económica a Cabo Verde. Num cenário onde o PIB contraiu de forma histórica em 2020 – consequência direta da paralisia do turismo provocada pela pandemia da COVID-19 – a teoria clássica anteciparia uma derrota esmagadora do incumbente. Contudo, observou-se precisamente o oposto: uma nova maioria absoluta para o MpD. Este fenómeno obriga-nos a refinar a análise, introduzindo o conceito de “clareza de responsabilidade”. O eleitor cabo-verdiano parece ter isentado o executivo da responsabilidade pela crise, atribuindo-a a um choque externo exógeno. Mais do que punir a recessão (voto retrospetivo simples), o eleitorado terá valorizado a gestão da emergência sanitária e social (voto sociotrópico), optando pela continuidade como garantia de estabilidade em tempos de incerteza.
Não obstante a excecionalidade de 2021, os sinais mais recentes, nomeadamente os resultados das eleições autárquicas de 2024, sugerem um regresso à normalidade teórica, onde o “bolso” do eleitor volta a ditar a sentença política. A inflação acumulada, o encarecimento dos bens essenciais e a perceção de desigualdade no acesso às oportunidades económicas reacenderam o voto económico na sua vertente mais egocêntrica. Diferente da crise pandémica, a crise do custo de vida é frequentemente percecionada como um falhanço na regulação e nas políticas públicas de mitigação, devolvendo a responsabilidade política ao governo central. Se em 2021 o medo do desconhecido protegeu o incumbente, no ciclo atual, a erosão lenta do poder de compra funciona como um corrosivo silencioso da base de apoio governamental.
É fundamental também dissecar a estrutura económica de Cabo Verde para entender como se formam as expetativas eleitorais. Numa economia de pequenos serviços, altamente dependente do turismo e das remessas da diáspora, a avaliação que o eleitor faz não se baseia apenas nos indicadores macroeconómicos abstratos, como o crescimento do PIB, mas sim na sua tradução tangível: emprego jovem e rendimento disponível. A desconexão entre os números do crescimento macroeconómico – muitas vezes aparentemente robustos no pós-pandemia – e a realidade microeconómica das famílias cria um terreno fértil para o voto de protesto. A teoria ensina-nos que quando o crescimento não é inclusivo, o “voto económico” transforma-se numa arma contra as elites, independentemente da cor partidária. Em Cabo Verde, onde o desemprego jovem permanece uma ferida estrutural, a promessa de futuro (voto prospetivo) torna-se tão ou mais valiosa que o balanço do passado.
A dicotomia entre o PAICV e o MpD nestas matérias revela estratégias distintas de mobilização do voto económico. O MpD, historicamente associado a uma agenda liberal e de abertura ao mercado, tenderá a capitalizar quando o otimismo empresarial e o investimento externo estão em alta, apelando a um eleitor que vota com base na expetativa de modernização e crescimento. Por outro lado, o PAICV recuperará tração quando a narrativa se centra na proteção social, no papel do Estado e na redistribuição, captando o voto daqueles que se sentem deixados para trás pelo mercado. O aumento da abstenção e a ascensão da UCID nas eleições de 2021 são, também eles, sintomas económicos: representam o eleitorado que deixou de acreditar na capacidade de qualquer um dos grandes partidos para resolver os problemas estruturais da economia cabo-verdiana.
Analisando a conjuntura pré-2026, o governo enfrenta o desafio clássico da “maldição do segundo mandato” agravada pela conjuntura internacional. A teoria do voto económico sugere que, à medida que o tempo de governação aumenta, a tolerância do eleitorado para com desculpas exógenas diminui. Se em 2021 a pandemia serviu de escudo, em 2026 a inflação acumulada e a erosão do poder de compra serão faturas cobradas diretamente ao executivo. A capacidade de o governo comunicar não apenas a retoma do turismo, mas a diversificação efetiva da economia e a proteção dos rendimentos, será determinante. O eleitor cabo-verdiano já provou que não vota apenas com o estômago, mas também com a cabeça, avaliando a competência gestionária. Contudo, a paciência para promessas de longo prazo é um recurso finito.
Por seu turno, a oposição tem o desafio de apresentar uma alternativa credível. O voto económico punitivo é eficaz para desalojar um governo, mas não garante, por si só, a adesão a um novo projeto se este não for percecionado como economicamente competente. A penalização do incumbente é mais forte do que a recompensa, mas o eleitor precisa de um “porto seguro” para onde transferir o seu voto.
Em suma, a aplicação da teoria do voto económico a Cabo Verde exige uma leitura que vá além da correlação simples entre PIB e percentagem de votos. Exige a incorporação de variáveis como a clareza da responsabilidade num contexto de choques externos, a distinção entre a recuperação macroeconómica e a perceção microeconómica de bem-estar, e a elevada sensibilidade do eleitorado à erosão do poder de compra e ao desemprego.
Praia, 28 de fevereiro de 2026
*Artigo publicado no jornal A Nação, edição n.º 966, de 05 de março de 2026
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