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A mostrar mensagens de março, 2026

Ascensão económica e social da China: lições para Cabo Verde (parte 1)*

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  A trajetória da República Popular da China rumo à hegemonia económica global e a sua transmutação de uma sociedade agrária e fragmentada numa superpotência tecnológica e industrial constituem, indubitavelmente, o fenómeno geoeconómico mais disruptivo da história contemporânea, oferecendo um espelho analítico de inestimável valor para nações em desenvolvimento. Quando colocamos em perspetiva este “milagre” chinês, edificado em pouco mais de quatro décadas, e o confrontamos com a realidade de Cabo Verde, que ultrapassou recentemente a barreira simbólica do meio século de independência nacional, o contraste que emerge não é apenas de escala ou de geografia, mas, fundamentalmente, de doutrina de Estado, de qualidade de governação e de cultura institucional. Enquanto a China logrou retirar mais de 850 milhões de cidadãos da pobreza extrema e assumir a liderança em setores de ponta, Cabo Verde, volvidos cinquenta anos de soberania, permanece enredado em constrangimentos estruturais que...

Ernâni Lopes e o caminho estratégico de Cabo Verde*

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Ernâni Lopes (1942–2010), economista português de reconhecido prestígio, deixou um contributo relevante para o pensamento sobre países de pequena escala e recursos limitados. Recusando rótulos ideológicos, Lopes privilegiava soluções pragmáticas que conciliassem a transição para uma economia dinâmica com a preservação do Estado social. Em setembro passado, Portugal homenageou-o com uma conferência e a publicação de um livro, gesto que reafirma a atualidade do seu pensamento e a urgência de revisitar os dilemas que antecipou. Em 1988 criou a SaeR – Sociedade de Avaliação Estratégica e Risco, instituição que produziu, em 1995 e a pedido do Governo cabo-verdiano da altura, um extenso estudo em três volumes sobre o desenvolvimento do arquipélago. Trata-se de um documento que, ainda hoje, é talvez o mais completo sobre o tema e, paradoxalmente, permanece esquecido, engavetado nas instituições governamentais. Aliás, Cabo Verde tornou-se especialista em gastar rios de dinheiro em estudos e, s...

Economia, cultura e dignidade: lições de Keynes para Cabo Verde*

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John Maynard Keynes, o mais célebre dos economistas do século XX, ensinou-nos que a economia não é um fim em si mesma, mas um instrumento ao serviço da dignidade humana, da liberdade e do bem comum. Essa lição – de que a satisfação das necessidades materiais deve ser subordinada a valores permanentes e à justiça – é tão pertinente para as grandes potências como para um pequeno arquipélago como Cabo Verde. Se o país quiser transformar-se num “país-plataforma” capaz de reter e atrair população, gerar prosperidade inclusiva e reduzir a dependência externa, terá de reaproximar a sua política económica das teses keynesianas e, simultaneamente, preservar uma visão humanista da economia. Keynes rompeu com a visão autorreguladora dos mercados e colocou a procura agregada no centro da análise económica. Para ele, é da procura que depende o nível de atividade e, por inerência, o emprego e o crescimento do PIB. Em Cabo Verde, essa ideia ganha forma concreta no turismo, que funciona como o princip...

Breves considerações sobre o voto económico em Cabo Verde*

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A relação entre o desempenho da economia e os resultados eleitorais constitui um dos pilares mais estudados da ciência política moderna . A premissa fundamental, frequentemente debatida na literatura especializada e que serve de base a esta reflexão, sugere um mecanismo de recompensa e punição: os eleitores, agindo racionalmente, tendem a reconduzir governos que promovem a prosperidade e a penalizar aqueles associados à recessão ou à perda de poder de compra. No entanto, ao transpusermos este modelo teórico – vulgarmente conhecido como a hipótese do voto económico – para a realidade de Cabo Verde, deparamo-nos com nuances que exigem uma adaptação cuidada das variáveis clássicas. Cabo Verde é uma economia pequena, insular e altamente aberta, com um espaço de política económica relativamente limitado e uma forte dependência de fluxos externos, nomeadamente do turismo internacional, das remessas da diáspora e da ajuda externa. Esta configuração estrutural condiciona não apenas o desempe...