Cabo Verde supostamente mais rico, mas com muito mais pobreza extrema
Adianta ainda que a reclassificação “reflete um
aumento de 16,8 % do rendimento nacional bruto (RNB) per capita entre 2023 e
2024, traduzindo a evolução económica do país”, nomeadamente “um crescimento
real de 7,3 % registado em 2024”, impulsionado sobretudo pelo turismo.
Acrescenta também que contribuíram para esse cálculo
uma menor inflação interna e uma revisão em baixa da população nacional, “com
uma diminuição de 12,8 %, segundo dados das Nações Unidas”, o que teve “impacto
direto no cálculo do RNB per capita”.
Teoricamente, a reclassificação para país de
rendimento médio‑alto reforça a confiança dos investidores internacionais,
abrindo portas a um maior fluxo de capitais privados e a condições mais
favoráveis no acesso ao financiamento em mercados de dívida, e eleva
simultaneamente a reputação global de Cabo Verde, potenciando parcerias
estratégicas e projetos de cooperação que aceleram o desenvolvimento
sustentável.
Contudo, uma análise mais atenta e desapaixonada
revela que este “upgrade” pode ser, na verdade, uma miragem, como a seguir
veremos, sem entrarmos na questão das reservas, nossas e de alguns técnicos
seniores do INE, quanto à fiabilidade dos dados estatísticos oficiais.
Em primeiro lugar, importa sublinhar que o critério do
BM assenta no RNB per capita em dólares norte‑americanos (USD), calculado pelo
método Atlas – uma técnica que suaviza flutuações cambiais para tornar as
comparações internacionais mais estáveis ao longo do tempo. Para 2024, o limiar
mínimo para a categoria de médio‑alto rendimento situa‑se em 4 256 USD. As
estimativas preliminares apontam para que Cabo Verde tenha atingido 4 300 USD
de RNB per capita, ainda que esses valores considerem apenas dados provisórios
do INE, sem a revisão técnica final. Como é sabido, o INE tem frequentemente
revisto em baixa as suas estimativas provisórias quando publica os dados
definitivos das contas nacionais. Foi o que aconteceu, por exemplo, com a taxa
de crescimento do PIB em 2022, que passou de 17,7 % para 15,8 %, uma correção
em baixa de quase dois pontos percentuais. Assim, a decisão mais sensata seria
esperar pela publicação de dados definitivos.
A mudança de estatuto de Cabo Verde, embora possa ser
apresentada como um sinal de sucesso, acarreta uma série de desafios e perdas
significativas. Historicamente, os países de rendimento médio‑baixo beneficiam
de condições mais favoráveis no acesso a financiamento externo, a programas de
ajuda ao desenvolvimento e a parcerias internacionais estratégicas. Com a nova
classificação, Cabo Verde arrisca‑se a ter mais dificuldades nas condições de
acesso a esses recursos.
Talvez a consequência mais flagrante e politicamente
sensível desta reclassificação resida no seu impacto sobre a propaganda
oficial, particularmente no que diz respeito às taxas de pobreza. Nos últimos
anos, a narrativa governamental pautou‑se pela redução da pobreza como um dos
seus maiores êxitos. Com a subida à categoria de país de rendimento médio‑alto,
os patamares de pobreza, segundo as próprias metodologias de cálculo das organizações
internacionais, são automaticamente revistos em alta.
É aqui que o paradoxo se torna mais evidente e cruel.
O BM utiliza diferentes limiares monetários para definir a pobreza consoante o
grupo de rendimento em que o país se insere. Os limiares foram atualizados em
junho deste ano. Para países de baixo rendimento, a linha internacional de
pobreza passou de 2,15 USD para 3 USD por pessoa e por dia, em paridade do
poder de compra (PPC) de 2021. Para países de rendimento médio‑baixo, esse
limiar subiu de 3,65 USD para 4,2 USD, e para os de rendimento médio‑alto, o
valor aumentou de 6,85 USD para 8,3 USD.
Isto significa que, de um momento para o outro, um
número considerável de cabo‑verdianos, que antes não eram considerados em
situação de pobreza (incluindo pobreza extrema) pelos critérios de rendimento
médio‑baixo, passam a sê-lo pela nova métrica. Na prática, cidadãos que antes
estavam acima da linha da pobreza, ou da pobreza extrema, veem‑se agora
inseridos nessa categoria apenas por uma alteração estatística e não por uma
deterioração real das suas condições de vida. Este “efeito estatístico” cria um
paradoxo embaraçoso: um país supostamente mais rico, mas com mais pobres.
Em outubro de 2024, o INE divulgou novas estimativas
segundo as quais a pobreza absoluta terá passado de 35,5 % em 2015 para 24,75 %
em 2023. O INE definiu a “linha de pobreza absoluta” como um rendimento
per capita de 262,8 escudos diários nas zonas urbanas e de 226,3 escudos
diários nas zonas rurais. Esses valores são, contudo, praticamente idênticos
aos de 2015, pelo que já não correspondiam à realidade da pobreza no país.
Para a estimativa da pobreza extrema, o INE adotou,
pela primeira vez, a linha internacional de pobreza de 2,15 USD (PPC de 2017),
o que levou a que a taxa de pobreza extrema caísse de 4,56 % em 2015 para
2,28 % em 2023. Contudo, esse limiar estava incorreto, pois, desde 2008
Cabo Verde era já um país de rendimento médio‑baixo, pelo que o limiar aplicável
deveria ter sido 3,65 USD, e não 2,15 USD, que se destinava a países de baixo
rendimento.
Com a reclassificação atual para país de rendimento
médio‑alto e a correspondente atualização da linha internacional de pobreza para
8,3 USD, surge o seguinte quadro em termos de pobreza extrema, em coerência com
a abordagem do INE.
Considerando que, em termos de PPC, 1 USD em 2021
equivalia a aproximadamente 47,23 escudos, segundo o FMI (via DataMapper), o
limiar de pobreza extrema corresponderia a 392 escudos/dia (8,3 USD × 47,23).
Isto significa que todos os que o INE considerara em situação de pobreza
absoluta em 2023 passaram a ser classificados como em situação de pobreza
extrema: de cerca de 11 280 pessoas (2,28 % de 510 000 residentes) para
aproximadamente 126 225 pessoas (24,75 % de 510 000 residentes). Além disso,
todos aqueles com rendimentos mensais inferiores a 11 760 escudos (392 escudos
× 30 dias) – pensões, reformas, rendimentos sociais – seriam considerados na
pobreza extrema. Assim, muito facilmente poderemos chegar a 30 % da população
total a viver em extrema pobreza.
Deste modo, com a reclassificação de Cabo Verde para
país de rendimento médio‑alto e a correspondente atualização da linha
internacional de pobreza para 8,3 USD/pessoa/dia, a ilusão da erradicação da
pobreza extrema, tão propalada, desfaz-se face à fria realidade das novas
linhas de corte, expondo a fragilidade de um discurso que se baseia em meros
números absolutos e atamancados sem considerar a complexidade das metodologias
subjacentes.
Em suma, a recente reavaliação do BM não pode ser
celebrada sem reservas. Trata‑se de uma medida precipitada, assente em números
provisórios – e muito provavelmente inflacionados – e numa emigração jovem que
distorce os cálculos, cujas implicações financeiras e sociais se mostram
potencialmente negativas.
Praia, 04 de julho de 2025
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