A compulsão privatizadora do Governo e a captura do Estado pelos interesses privados
O Governo em funções desde 2016 tem prosseguido um
processo de privatizações que, em vez de responder a uma estratégia de
desenvolvimento coerente, se apresenta como uma compulsão ideológica, sem visão
de longo prazo, sem transparência e com consequências económicas, sociais e
institucionais de grande gravidade. Em vários artigos de opinião, inclusive
publicados neste semanário, tenho alertado para a intenção do Governo de vender
praticamente todas as empresas públicas ainda existentes, sem que tenha havido
qualquer debate nacional sério capaz de definir o que deve permanecer sob
controlo do Estado e o que poderia, eventualmente, ser entregue a privados.
Essa ligeireza, motivada mais por dogmas e intenções ocultas do que por análise
racional, tem-se traduzido em negócios malconduzidos, contratos lesivos e numa
crescente perda de confiança na governação.A experiência cabo-verdiana recente demonstra que privatizar a qualquer custo, nomeadamente por obstinação ideológica, é um erro. Não basta proclamar os benefícios teóricos do mercado quando, na prática, se aliena património público sem projetos consistentes e sem salvaguarda dos interesses nacionais. O que se verifica é a repetição de um padrão: pressa em privatizar, ausência de concursos transparentes, falta de fiscalização e opacidade nos termos contratuais. Além disso, tem havido ausência de informação, o que dificulta o escrutínio público.
O caso da TACV é paradigmático. Gerida desde 2017 pelo
grupo Icelandair e privatizada em 2019, com a venda de 51% do capital da
empresa por ajuste direto e por apenas 1,3 milhões de euros, a transação foi
apresentada pelo Governo como “um marco da reestruturação económica dos
transportes aéreos em Cabo Verde”. Porém, a TACV afundou rapidamente e os
investidores estrangeiros nunca concretizaram as suas obrigações contratuais,
designadamente a entrega de 11 aeronaves, obrigando o Estado a renacionalizá-la
em 2021. Na sequência do rompimento unilateral do contrato, pagou-se à
Icelandair uma indemnização no valor de 1,46 milhões de dólares, montante
superior aos 1,3 milhões de euros encaixados com a venda dos 51%. Longe de
aliviar o Estado, a privatização e a manutenção da empresa em funcionamento
após a renacionalização estão a revelar-se um grande sorvedouro de recursos: de
2017 à presente data, o Estado já terá avalizado e garantido compromissos
financeiros relacionados com a TACV no valor aproximado de 28,5 milhões de
contos (cerca de 260 milhões de euros), que irá, certamente, engordar ainda
mais a dívida pública. A privatização da TACV, apresentada como solução
milagrosa, acabou por se transformar num dos maiores fracassos da história
económica recente do país.
Outro exemplo revelador é a concessão do transporte
marítimo interilhas à CV Interilhas, em 2019. Anunciada como a solução para um
problema histórico, prometia navios modernos, ligações regulares e previsíveis,
condições de conforto e segurança para passageiros e mercadorias. A realidade
foi o oposto: a empresa nunca adquiriu os cinco novos navios previstos,
recorreu a embarcações velhas e alugadas, sujeitas a avarias constantes, e
nunca cumpriu as frequências mínimas contratadas. Em consequência, passageiros
ficam retidos em terra, mercadorias apodrecem nos portos e emigrantes perdem
dias de férias à espera de barcos que não chegam. Em vez de fiscalizar, o
Governo aceitou cláusulas lesivas e ambíguas que hoje custam indemnizações
milionárias ao erário público, que podem ascender a várias dezenas de milhões
de euros. Para um país pequeno e com recursos limitados, trata-se de uma fatura
colossal. Esta concessão, descrita como um desastre económico e social, expõe a
ingenuidade política e a incapacidade do Governo em negociar e defender o
interesse público nos processos de privatização.
A mesma falta de transparência marcou a concessão da
gestão dos aeroportos à multinacional francesa VINCI. O processo não teve
concurso público e incluiu um escândalo sem precedentes: em outubro de 2017, o
Governo e a VINCI assinaram um MoU (Memorando de Entendimento) para a empresa
efetuar, em prazo curto, um estudo e propor um modelo de gestão. Muitos
críticos destacaram que a mesma empresa que fez o estudo mais tarde se tornou
concessionária. Ou seja, a VINCI tornou-se juíza em causa própria, definindo os
termos que melhor serviam os seus interesses, enquanto o Estado abdicava de
qualquer mecanismo independente de avaliação. É difícil encontrar exemplo mais
flagrante de captura de um processo público por um operador privado. Em vez de
defender os cabo-verdianos, o Governo entregou a gestão de uma infraestrutura
estratégica a uma multinacional em condições de opacidade e favorecimento, que
já minam a confiança no Estado.
Mas talvez o caso simbolicamente mais revelador da
promiscuidade entre interesses públicos e privados tenha sido a alienação de
ações da Caixa Económica. O responsável pela unidade encarregada das
privatizações foi detido pela polícia por se ter envolvido na compra das mesmas
ações cuja venda coordenava, configurando um claro conflito de interesses em
que o vendedor se tornava simultaneamente comprador. Este episódio, para além
de ferir a legalidade, expõe a degradação ética que contamina o atual modelo de
privatizações, transformando processos que deviam ser transparentes e
competitivos em negócios de bastidores, em benefício de alguns e em prejuízo do
interesse público.
Os efeitos acumulados destas práticas são devastadores.
No geral, as privatizações não ajudaram a melhorar os serviços básicos de
transporte nem a reduzir a dívida pública, como prometido, e tampouco
dinamizaram o mercado de capitais, que continua praticamente inexistente. As
escassas receitas obtidas desapareceram no financiamento de défices correntes e
os compromissos assumidos têm agravado a insustentabilidade financeira do país.
No plano social, os cidadãos veem os serviços degradarem-se: transportes
imprevisíveis, tarifas elevadas, mobilidade interna comprometida. E, no plano
institucional, a confiança nas instituições é corroída pela opacidade, pelos
contratos lesivos e pelos escândalos de conflitos de interesse.
Tudo somado, é evidente que a compulsão privatizadora
do Governo tem custado demasiado cara ao país e aos cabo-verdianos. Cada nova
privatização ou concessão confirma o mesmo padrão: decisões apressadas, falta
de transparência, ausência de fiscalização, captura do processo por interesses
privados e, no fim, mais encargos para o Estado e mais sacrifícios para os
cidadãos.
Privatizar não é, em si, o problema. O problema é privatizar sem critério, sem debate, sem ética e sem salvaguarda do interesse nacional. É exatamente isso que tem acontecido em Cabo Verde. O preço dessa compulsão está hoje refletido no potencial aumento da dívida pública, na degradação dos serviços, na perda de confiança dos cidadãos e na erosão da soberania económica. E esse preço, já insustentável, continuará a crescer se o país persistir neste caminho de leviandade e captura do Estado.
Praia, 30 de agosto de 2025
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