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A mostrar mensagens de outubro, 2025

A insustentável leveza da liderança de instituições públicas em Cabo Verde

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  Em Cabo Verde, fala-se muito de liderança, mas pratica-se pouco. O discurso sobre o mérito, a eficiência e a responsabilização tornou-se um exercício retórico que esconde uma realidade bem mais dura: a de um país onde os lugares de direção e chefia são, demasiadas vezes, ocupados não pelos mais capazes, mas pelos mais convenientes. Instalou-se uma cultura de liderança marcada por um fraco comprometimento com as instituições e com o serviço público. O resultado é uma administração pública e um tecido institucional presos num ciclo de inércia, improvisação e mediocridade, que mina silenciosamente a confiança dos cidadãos e compromete o desenvolvimento do país. Ou seja, falta ao país uma liderança com propósito, que entenda o tempo como recurso estratégico e o cidadão como destinatário último da ação pública. Naturalmente, existem bons líderes e instituições públicas bem geridas, mas são exceções à regra. Peter Drucker, considerado o pai da gestão moderna, insistia que o verdadeir...

George Orwell e o Triunfo dos Porcos em Terra de Morabeza

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  Num tempo em que a liberdade de expressão é celebrada como um dos pilares da democracia, é irónico – e profundamente inquietante – constatar como essa mesma liberdade tem sido pervertida por aqueles que, escondidos atrás de pseudónimos e perfis falsos, fazem das redes sociais o seu curral de ódio. Tal como em Animal Farm , de George Orwell, onde os porcos, inicialmente libertadores, se tornam tiranos, também em Cabo Verde assistimos à ascensão de uma nova casta de censores informais, que, sob o manto do anonimato, se arrogam o direito de julgar, difamar e silenciar qualquer voz que ouse desafiar o rebanho ideológico dominante. Orwell, com a sua lucidez profética, descreveu com precisão o mecanismo da manipulação política e da inversão moral. No seu romance, os animais revoltam-se contra os humanos em nome da justiça e da igualdade, apenas para verem os porcos – supostamente os mais inteligentes – assumirem o poder e instaurarem um regime ainda mais opressivo. A célebre máxima...

Avaria no elevador social e perpetuação das desigualdades entre ricos e pobres

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  O conceito de mobilidade social é definido comparando o “status” das pessoas com o dos pais no que se refere à profissão, salário, educação ou saúde. Assim, há uma mobilidade social ascendente – ou elevador social como é mais conhecida –, quando se verifica uma progressão na hierarquia social e económica de um indivíduo, alcançando uma posição mais elevada do que aquela ocupada pelos seus pais. Já quando ocorre o inverso, está-se perante uma mobilidade social descendente. Um dos aspetos mais importantes que caraterizam a problemática do elevador social tem a ver com o facto de as oportunidades que alguém vai ter ao longo da vida não dependerem da posição económica e social dos seus pais e nem do local onde nasceu. Por isso, nos países onde a igualdade de direitos é um bem essencial, considera-se que o elevador social é fundamental para garantir uma sociedade justa e equitativa. Para o efeito, criam-se instrumentos visando minorar as desigualdades, de modo que todos tenham as mes...

A falácia da erradicação da pobreza extrema em Cabo Verde

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O Governo vem vangloriando-se até à exaustão que é “campeão” na eliminação da pobreza em Cabo Verde, sobretudo da pobreza extrema que, praticamente, já não existirá no país. E está tão entusiasmado com o seu feito sem paralelo, pelo menos a nível de África, que não se dá conta que os dados oficiais divulgados pelo INE não batem de todo certo, por serem descaradamente incongruentes e sem qualquer adesão à realidade, como veremos mais à frente. É o Governo a governar para a propaganda, no seu melhor! O INE apresentou, no dia 9 de agosto de 2023, as estimativas da pobreza do primeiro e do segundo trimestres de 2023, baseadas nos dados recolhidos no IV IDRF, realizado em 2022. De acordo com os dados divulgados, a taxa da pobreza global (no inquérito anterior designada de pobreza absoluta) passou de 35,2% em 2015 para 20,2% no segundo trimestre de 2023, representando uma queda de 15 pontos percentuais (p.p.). No mesmo período de tempo, a pobreza extrema também sofreu uma ligeira redução, co...

"Desmartelando" dados atamancados do PIB e da Dívida Pública

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No presente artigo, vamos trazer para reflexão dados, a nosso ver, atamancados, do PIB nominal, do stock da dívida pública e do peso deste naquele, enquanto indicadores macroeconómicos que desempenham um papel importante na análise fundamental do desempenho económico do país e da sustentabilidade da dívida pública. Para o efeito, fazemos uso e atualização de alguns dados constantes de outros artigos nossos, também publicados neste periódico. A partir de julho de 2022, começou-se a observar uma queda nos valores do peso da dívida pública no PIB, queda essa justificada, em boa parte, com o "rebasing" (redimensionamento) da base para o cálculo do PIB. Com efeito, conforme uma Nota de Esclarecimento, publicada pelo Governo no dia 12 de agosto de 2022, a atualização em baixa dos rácios da dívida pública face ao PIB tem a ver com o facto de o INE ter levado a cabo "um exercício em que utilizou um novo ano base para o cálculo do PIB (ano de 2015), mediante o qual foram atualiza...

Criar e destruir: o Nobel da Economia de 2025 e as lições para Cabo Verde

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O Prémio Nobel da Economia de 2025 (PNE2025) foi atribuído a Joel Mokyr, Philippe Aghion e Peter Howitt “por terem explicado o fenómeno mais extraordinário e improvável da história económica moderna: a transição da estagnação secular, que caraterizou quase toda a existência humana, para um crescimento sustentado, contínuo e autogerado, impulsionado pela inovação tecnológica. Isto retirou milhões de pessoas da pobreza e lançou as bases da prosperidade contemporânea”, segundo anunciou em comunicado a Real Academia Sueca de Ciências (RASC). A RASC sublinhou que o trabalho dos laureados explica as causas dessa rutura civilizacional e, simultaneamente, alerta para o perigo de se considerar esse progresso como um dado adquirido, uma vez que o crescimento não é um estado permanente, mas sim um processo dinâmico, frágil e reversível, que depende da manutenção de mecanismos institucionais, culturais e científicos que favorecem a inovação e a concorrência.   Como referido, os laureados com o...

Cabo Verde mergulhado na escuridão dos serviços públicos essenciais

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  Nos últimos dois meses, a ilha de Santiago passou longas horas do dia às escuras, e os seus residentes ficaram ainda mais horas por dia sem energia. Ora, agora que a situação do fornecimento de energia dá sinais de melhoria, é a água – esse precioso e vital líquido –, que falta nas torneiras, bem como a Internet, que se tornou ainda mais instável. Tudo isso atormenta os cabo-verdianos e condiciona a sua vida quotidiana. Trata-se de uma experiência que a geração mais recente nunca havia vivenciado. Todavia, tal situação não é um mero incidente técnico nem um episódio isolado. É o sintoma visível de um problema muito mais profundo: o mau funcionamento estrutural do Estado cabo-verdiano na prestação de bens e serviços essenciais. A energia elétrica, a água, os transportes e até as comunicações são setores cuja ineficiência tem vindo a comprometer o bem-estar das famílias, a competitividade das empresas e, sobretudo, a confiança dos cidadãos nas instituições públicas. O país parece...

Não, Sr. Primeiro Ministro, a saraivada tarifária de Trump afeta, sim, a economia!

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  O Primeiro-Ministro afirmou, no dia 03 de abril, que as medidas tarifárias anunciadas pelo Presidente dos Estados Unidos da América (EUA), Donald Trump, “não representam, pelo menos por agora, razões de preocupação para o país”. “As tarifas não vão incidir sobre as remessas de emigrantes, seguramente. Isto é mais de relações comerciais, Cabo Verde não tem relações comerciais intensas de importação e exportação com os Estados Unidos”, alegou. Se é verdade que as relações comerciais entre Cabo Verde e os EUA são residuais, já não é verdade que, indiretamente, o país não vai ser afetado pelo caos tarifário criado pelo Trump, como veremos a seguir. Trump anunciou a 2 de abril novas taxas aduaneiras (chamadas de “tarifas recíprocas”), sobretudo dirigidas a dezenas de nações que apresentam excedentes comerciais significativos com os EUA, incluindo um imposto de 34% sobre as importações da China e 20% sobre a União Europeia. Para além disso, impôs uma taxa-base de 10% sobre as importaçõ...

A ofensiva tarifária de Trump e a Terceira Lei de Newton

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  Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos da América (EUA) assumiram um papel central na promoção do livre comércio, liderando, por exemplo, a criação da OMC – Organização Mundial do Comércio. No entanto, a administração do atual presidente norte-americano, Donald Trump, procura romper com essa tradição, adotando uma postura protecionista sob o lema “America First”, tal como Trump já o tentara ao longo do seu primeiro mandato presidencial, marcando uma viragem significativa na abordagem dos EUA ao comércio internacional. Neste quadro, tanto no passado como no presente, a retórica beligerante e o tom de confrontação adotados servem para marcar um novo capítulo nas relações internacionais, onde o poder económico se desloca para o primeiro plano da diplomacia. Na verdade, desde janeiro de 2025, Trump anunciou uma série de tarifas significativas sobre produtos importados, visando reduzir o défice comercial norte-americano, revitalizar a indústria nacional e travar ...

Vitória de Trump – Possíveis consequências para a economia de Cabo Verde

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Enquanto a maior potência económica, militar e política do mundo, com interesses globais, é inegável a enorme influência que os Estados Unidos da América (EUA) exercem sobre a economia global, independentemente de que partido exerce o mandato, seja ele democrata, seja ele republicano, embora com nuances bem distintas. Na verdade, o PIB estadunidense representa cerca de um quarto da economia global, e o valor do seu orçamento militar é praticamente igual ao somatório dos gastos militares de todos os outros países em conjunto, o que dá aos EUA um alcance sem comparação no cenário internacional. Assim, tendo ganho Donald Trump, do Partido Republicano, e tendo esse partido também assegurado uma maioria nas duas Câmaras do Congresso dos EUA (Câmara dos Deputados e Senado), o Presidente eleito parece ter a vida facilitada para implementar a sua polémica agenda política populista. Se Trump colocar em prática apenas uma fração das suas promessas eleitorais radicais – tarifas comerciais mais al...