A insustentável leveza da liderança de instituições públicas em Cabo Verde
Em Cabo
Verde, fala-se muito de liderança, mas pratica-se pouco. O discurso sobre o
mérito, a eficiência e a responsabilização tornou-se um exercício retórico que
esconde uma realidade bem mais dura: a de um país onde os lugares de direção e
chefia são, demasiadas vezes, ocupados não pelos mais capazes, mas pelos mais
convenientes. Instalou-se uma cultura de liderança marcada por um fraco
comprometimento com as instituições e com o serviço público. O resultado é uma
administração pública e um tecido institucional presos num ciclo de inércia,
improvisação e mediocridade, que mina silenciosamente a confiança dos cidadãos
e compromete o desenvolvimento do país. Ou seja, falta ao país uma liderança
com propósito, que entenda o tempo como recurso estratégico e o cidadão como
destinatário último da ação pública. Naturalmente, existem bons líderes e
instituições públicas bem geridas, mas são exceções à regra.
Peter Drucker, considerado o pai da gestão moderna, insistia que o verdadeiro líder é aquele que transforma o potencial humano em desempenho. A liderança é uma função moral antes de ser técnica, o que implica servir e não ser servido, criar sentido e não apenas impor regras. Contudo, em Cabo Verde, a liderança pública tende a ser vista como um privilégio e não como um dever. Os cargos são, muitas vezes, encarados como recompensas pessoais ou instrumentos de poder, e não como oportunidades para transformar a realidade. Este desvio ético é, talvez, o maior obstáculo à construção de instituições sólidas e sustentáveis.
O
Governo, enquanto gestor do Estado, tem aqui responsabilidades incontornáveis. É
ele que dá o tom e o exemplo; porém, lamentavelmente, o tom dominante tem sido o
de “jobs for the boys”, isto é, o da complacência com o amiguismo, o compadrio
e o favoritismo, em detrimento do mérito. Ora, o poder político, que deveria
ser o garante da meritocracia, transformou-se no seu maior obstáculo.
Drucker
dizia também que a primeira tarefa de um gestor é gerir o tempo, pois é o único
recurso verdadeiramente irrecuperável. Em Cabo Verde, a relação com o tempo é
uma das marcas mais visíveis da crise de liderança: o cumprimento de prazos é
relativizado, as decisões são adiadas e o tempo – esse recurso finito e
estratégico – é desperdiçado em reuniões estéreis e processos burocráticos que
servem mais para adiar do que para resolver. Como consequência, os atrasos são
sistemáticos, as respostas tardam, a palavra dada perde valor e a sensação de
urgência – motor das sociedades produtivas – parece ausente, instalando-se uma
crise de confiança transversal. O país habituou-se a funcionar com um sentido
distorcido de normalidade, onde a lentidão e a ineficiência são aceites como
inevitáveis.
A isto
soma-se outro problema estrutural: a cadeia de comando existe formalmente, mas,
na prática, é fraca, pouco clara e pouco funcional. Sem uma cadeia de comando
conhecida, respeitada e efetiva, nenhuma organização pode funcionar com
eficiência; a liderança perde autoridade, as decisões diluem-se e a
responsabilidade evapora-se no labirinto institucional. Em demasiadas
instituições cabo-verdianas, o comando é difuso, as ordens contraditórias e as
responsabilidades indefinidas. Há chefias que decidem sem poder, e outras que
têm poder, mas evitam decidir. Esta diluição da autoridade mina a confiança
interna e destrói a noção de accountability – um conceito ainda frágil, mas
essencial à boa governação.
Outro
traço preocupante da liderança cabo-verdiana é a insensibilidade às críticas
construtivas. Em vez de encarar o feedback como oportunidade de melhoria,
muitos líderes reagem com desconfiança, quando não com hostilidade. A crítica é
vista como afronta pessoal, não como instrumento de progresso. Esta atitude
cria um ambiente de medo e conformismo, onde os profissionais mais competentes
optam pelo silêncio para evitar represálias ou o isolamento. Não é raro ver
quadros altamente qualificados, com experiência e mérito comprovado, colocados
“na prateleira” por razões políticas, pessoais ou simplesmente por não se
mostrarem submissos. Trata-se de um desperdício inaceitável de talento e de
capital humano num país que, paradoxalmente, clama por quadros competentes e
inovadores. A exclusão dos que pensam de forma independente ou ousam discordar
é uma das formas mais perniciosas de empobrecimento institucional e ético.
A
ausência de mecanismos eficazes de avaliação de desempenho e de
responsabilização agrava este cenário. Raramente se exigem resultados
concretos, e menos ainda se aplicam consequências pelo incumprimento. O Estado
tolera e, por vezes, recompensa a mediocridade e o descaso, criando um ambiente
onde a excelência é exceção, a apatia regra e a impunidade norma.
Esta
visão distorcida tem custos profundos. A gestão pública cabo-verdiana tornou-se
demasiadamente imprevisível: as decisões dependem mais do humor do dirigente do
que de critérios técnicos; os processos são lentos, mas as desculpas são
rápidas; os planos abundam, mas a execução rareia. O país vive uma espécie de
paralisia suave, onde todos sabem o que está errado, mas poucos se atrevem a
corrigir.
Drucker
alertava ainda que «a cultura come a estratégia ao pequeno-almoço». Em Cabo
Verde, essa frase assume um significado particularmente relevante: por mais que
se anunciem reformas e planos ambiciosos, nada mudará se a cultura de liderança
permanecer prisioneira da complacência e do favoritismo. Um país pequeno, com
recursos limitados, não pode dar-se ao luxo de desperdiçar talento nem de
tolerar ineficiências. Precisa de líderes que compreendam que o tempo é um
ativo precioso, que a responsabilidade é indelegável e que a autoridade se
constrói pelo exemplo, não pela imposição.
É
urgente, portanto, promover uma nova geração de líderes em Cabo Verde – líderes
com ética, visão e sentido de missão. Líderes que saibam escutar, motivar e
decidir. Líderes que não temam o contraditório e que valorizem o mérito acima
da conveniência. Só com uma liderança comprometida com resultados e com o
bem-comum será possível transformar as instituições e devolver aos
cabo-verdianos a confiança num Estado eficiente, justo e orientado para o
futuro. Como diria Drucker, o futuro não se prevê: constrói-se. E Cabo Verde só
o poderá construir com líderes capazes e com coragem para fazer diferente e
melhor.
A
liderança que Cabo Verde precisa não é a que manda, mas a que serve. Não é a
que se protege com bajuladores, mas a que se rodeia de competentes. Não é a que
teme a crítica, mas a que a procura.
Para
terminar:
Enquanto
persistirem as práticas de compadrio, o descaso para com a meritocracia e o
desrespeito pelo tempo e pelo cidadão, o país continuará refém de lideranças
frágeis e de instituições ineficazes.
Enquanto
o país escolher líderes que servem o poder em vez de servir o interesse
público, continuará a desperdiçar o seu maior recurso: as pessoas; por isso, o
desenvolvimento do país fica cada vez mais adiado.
Praia, 25 de outubro de 2025
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