Cabo Verde mergulhado na escuridão dos serviços públicos essenciais
Todavia, tal situação não é um mero incidente técnico nem um episódio isolado. É o sintoma visível de um problema muito mais profundo: o mau funcionamento estrutural do Estado cabo-verdiano na prestação de bens e serviços essenciais. A energia elétrica, a água, os transportes e até as comunicações são setores cuja ineficiência tem vindo a comprometer o bem-estar das famílias, a competitividade das empresas e, sobretudo, a confiança dos cidadãos nas instituições públicas. O país parece viver num ciclo de emergência permanente, em que cada crise é tratada como se fosse a primeira e a última, mas nunca como parte de um problema sistémico que exige visão, planeamento e competência.
Durante
décadas, Cabo Verde foi apontado como um exemplo de estabilidade política e de
boa governação em África. Essa reputação, embora não totalmente injusta, tem
sido progressivamente corroída pela incapacidade do Estado de responder de
forma eficaz às necessidades básicas da população. As falhas no fornecimento de
energia elétrica e de água são, neste contexto, o símbolo mais evidente de um
país que tem adiado a modernização das suas infraestruturas, o reforço das suas
capacidades técnicas e a profissionalização da sua administração. Quando a
eletricidade falta repetidamente, o país para – hospitais interrompem serviços, escolas suspendem aulas,
empresas perdem produção e os cidadãos, impotentes, assistem ao colapso
temporário daquilo que deveria ser um serviço básico e estável.
Mas a
raiz do problema não está apenas na fragilidade técnica das redes de
distribuição ou na obsolescência das centrais de produção de energia. Está,
sobretudo, na ausência de planeamento estratégico e na falta de
responsabilização das estruturas públicas. Cabo Verde continua a operar numa
lógica de remendo, reagindo às crises em vez de as prevenir. A gestão dos
setores críticos é frequentemente marcada pela improvisação, pela politização
das decisões e pela nomeação de dirigentes que, mais do que competência
técnica, privilegiam a proximidade política ou pessoal ao poder. O resultado é
um aparelho estatal que favorece o compadrio em detrimento do mérito e que, ao
fazê-lo, sacrifica a eficiência e o interesse público.
O
problema agrava-se com a cultura enraizada de “jobs for the boys”, em que
cargos de responsabilidade são distribuídos como prémios de lealdade política e
não como reconhecimento de competência profissional. Essa prática tem um custo
incalculável: gera mediocridade institucional, desmotiva os quadros
qualificados e destrói a meritocracia. Quando os lugares são ocupados por quem
“deve favores” e não por quem sabe o que faz, as instituições deixam de
funcionar. É esse o drama que hoje atravessa o país – uma administração onde
muitos executam ordens sem questionar, porque a obediência é mais valorizada do
que o desempenho, e onde a competência é frequentemente vista como ameaça e não
como ativo.
Os
cortes de energia são, por isso, apenas a face mais visível de um sistema que
funciona mal em várias frentes. A gestão da água é outro exemplo paradigmático.
Em pleno século XXI, Cabo Verde continua a enfrentar graves problemas de
abastecimento, com perdas elevadas na rede, tarifas desajustadas e uma fraca
cultura de manutenção. O mesmo se passa com os transportes – marítimos, aéreos e terrestres – que, longe de integrar o território nacional, frequentemente o fragmentam,
isolando comunidades e ilhas inteiras durante semanas. A irregularidade das
ligações interilhas, a má gestão das frotas e a ausência de visão estratégica
fazem com que o arquipélago continue, paradoxalmente, dividido pela própria
geografia que deveria unir.
O que
une todos estes setores é a falta de capacidade do Estado em garantir
continuidade, previsibilidade e qualidade nos serviços públicos. E isso não se
deve apenas à escassez de recursos, como tantas vezes se afirma, mas à má
utilização dos recursos disponíveis. A incompetência instalada em algumas
empresas públicas e serviços essenciais torna-se tanto mais grave quanto mais
se perpetua sob o manto do conformismo e da impunidade. Quando as falhas se
tornam habituais, a indignação cede lugar à resignação, e o país adapta-se ao
atraso como se fosse inevitável.
Os
apagões, nesse sentido, são também metáforas do apagamento progressivo da
exigência cívica. A cada corte de energia corresponde um corte na confiança
pública; a cada adiamento de uma solução estrutural corresponde o adiamento do
próprio país. O problema é que o tempo não para. Cada ano que passa sem
reformas profundas é um ano em que se desperdiçam oportunidades, perdem-se
talentos e se desincentiva o investimento produtivo. A economia cabo-verdiana,
frágil por natureza, não pode crescer de forma sustentada sem infraestruturas
fiáveis, políticas coerentes e instituições capazes.
O setor
energético é particularmente revelador deste impasse. Cabo Verde dispõe de
condições naturais excecionais para a produção de energias renováveis – vento, sol e, em algumas ilhas,
potencial hídrico e marinho –,
mas continua excessivamente dependente de combustíveis fósseis importados e de
equipamentos antiquados. A transição energética, tantas vezes proclamada, tem
avançado a passo lento, bloqueada por interesses instalados, por falta de visão
e por uma burocracia que desincentiva a inovação. Enquanto outros países
africanos caminham rapidamente para a diversificação das suas fontes de
energia, Cabo Verde continua preso a um modelo caro, ineficiente e vulnerável.
Parte
do problema reside no modo como o Estado encara o planeamento. Em vez de um
instrumento de antecipação e coordenação, o planeamento tornou-se, muitas
vezes, uma formalidade administrativa. Multiplicam-se estratégias, planos e
visões, mas poucas são executadas com rigor, acompanhamento e responsabilidade.
A ausência de uma cultura de avaliação de políticas públicas permite que os
erros se repitam ciclicamente, sem consequências para quem decide, nem
aprendizagem para o sistema. O resultado é um país que reage, mas raramente se
prepara; que discute, mas pouco executa; que promete, mas raramente cumpre.
A isto
soma-se o descaso crescente com o cidadão comum. O serviço público parece
ter-se esquecido da sua razão de ser: servir. O cabo-verdiano é hoje tratado
como um utente que deve conformar-se com a ineficiência e não como um
contribuinte que tem direito à qualidade. As filas intermináveis, os cortes sem
aviso, as respostas tardias e a falta de informação são sintomas de uma
administração que perdeu a noção de urgência e de respeito pelo tempo e pela
dignidade das pessoas. O descaso é, em última análise, a expressão mais
perigosa da incompetência: quando se normaliza o erro, o falhanço deixa de ser
exceção e passa a ser sistema.
Não
basta, por isso, reparar os cabos, substituir os transformadores e renovar
condutas de água. O que Cabo Verde precisa é de uma reforma moral e
institucional. É necessário restaurar o valor do mérito, exigir
responsabilidade aos dirigentes e promover a cultura do planeamento e da
execução. As soluções técnicas existem; o que falta é vontade política e
coragem moral para romper com as práticas que perpetuam o atraso. A energia que
o país mais necessita não é apenas a elétrica – é a energia da competência, da integridade e da
responsabilidade.
O
futuro de Cabo Verde não pode continuar a ser adiado. Cada apagão é um lembrete
de que o país está a viver aquém do seu potencial. A estabilidade política, de
que tanto se orgulha, não deve servir para sustentar a complacência, mas para
criar as condições de uma transformação duradoura. É tempo de os decisores
compreenderem que governar não é gerir crises, mas preveni-las; não é nomear
amigos, mas escolher competentes; não é prometer, mas cumprir. O país precisa
de uma nova geração de líderes públicos capazes de pensar a longo prazo, de
assumir compromissos com resultados e de colocar o interesse nacional acima dos
cálculos partidários.
Enquanto
persistirem os apagões, o verdadeiro corte será outro: o corte entre o país
real e o país possível. Cabo Verde não pode continuar adiado. Porque cada dia
sem luz e sem água é também um dia sem rumo, e nenhum povo pode construir o
futuro na escuridão e sem água.
Praia,
22 de outubro de 2025
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