Cabo Verde mergulhado na escuridão dos serviços públicos essenciais

 

Nos últimos dois meses, a ilha de Santiago passou longas horas do dia às escuras, e os seus residentes ficaram ainda mais horas por dia sem energia. Ora, agora que a situação do fornecimento de energia dá sinais de melhoria, é a água esse precioso e vital líquido –, que falta nas torneiras, bem como a Internet, que se tornou ainda mais instável. Tudo isso atormenta os cabo-verdianos e condiciona a sua vida quotidiana. Trata-se de uma experiência que a geração mais recente nunca havia vivenciado.

Todavia, tal situação não é um mero incidente técnico nem um episódio isolado. É o sintoma visível de um problema muito mais profundo: o mau funcionamento estrutural do Estado cabo-verdiano na prestação de bens e serviços essenciais. A energia elétrica, a água, os transportes e até as comunicações são setores cuja ineficiência tem vindo a comprometer o bem-estar das famílias, a competitividade das empresas e, sobretudo, a confiança dos cidadãos nas instituições públicas. O país parece viver num ciclo de emergência permanente, em que cada crise é tratada como se fosse a primeira e a última, mas nunca como parte de um problema sistémico que exige visão, planeamento e competência.

 

Durante décadas, Cabo Verde foi apontado como um exemplo de estabilidade política e de boa governação em África. Essa reputação, embora não totalmente injusta, tem sido progressivamente corroída pela incapacidade do Estado de responder de forma eficaz às necessidades básicas da população. As falhas no fornecimento de energia elétrica e de água são, neste contexto, o símbolo mais evidente de um país que tem adiado a modernização das suas infraestruturas, o reforço das suas capacidades técnicas e a profissionalização da sua administração. Quando a eletricidade falta repetidamente, o país para – hospitais interrompem serviços, escolas suspendem aulas, empresas perdem produção e os cidadãos, impotentes, assistem ao colapso temporário daquilo que deveria ser um serviço básico e estável.

 

Mas a raiz do problema não está apenas na fragilidade técnica das redes de distribuição ou na obsolescência das centrais de produção de energia. Está, sobretudo, na ausência de planeamento estratégico e na falta de responsabilização das estruturas públicas. Cabo Verde continua a operar numa lógica de remendo, reagindo às crises em vez de as prevenir. A gestão dos setores críticos é frequentemente marcada pela improvisação, pela politização das decisões e pela nomeação de dirigentes que, mais do que competência técnica, privilegiam a proximidade política ou pessoal ao poder. O resultado é um aparelho estatal que favorece o compadrio em detrimento do mérito e que, ao fazê-lo, sacrifica a eficiência e o interesse público.

 

O problema agrava-se com a cultura enraizada de “jobs for the boys”, em que cargos de responsabilidade são distribuídos como prémios de lealdade política e não como reconhecimento de competência profissional. Essa prática tem um custo incalculável: gera mediocridade institucional, desmotiva os quadros qualificados e destrói a meritocracia. Quando os lugares são ocupados por quem “deve favores” e não por quem sabe o que faz, as instituições deixam de funcionar. É esse o drama que hoje atravessa o país – uma administração onde muitos executam ordens sem questionar, porque a obediência é mais valorizada do que o desempenho, e onde a competência é frequentemente vista como ameaça e não como ativo.

 

Os cortes de energia são, por isso, apenas a face mais visível de um sistema que funciona mal em várias frentes. A gestão da água é outro exemplo paradigmático. Em pleno século XXI, Cabo Verde continua a enfrentar graves problemas de abastecimento, com perdas elevadas na rede, tarifas desajustadas e uma fraca cultura de manutenção. O mesmo se passa com os transportes – marítimos, aéreos e terrestres – que, longe de integrar o território nacional, frequentemente o fragmentam, isolando comunidades e ilhas inteiras durante semanas. A irregularidade das ligações interilhas, a má gestão das frotas e a ausência de visão estratégica fazem com que o arquipélago continue, paradoxalmente, dividido pela própria geografia que deveria unir.

 

O que une todos estes setores é a falta de capacidade do Estado em garantir continuidade, previsibilidade e qualidade nos serviços públicos. E isso não se deve apenas à escassez de recursos, como tantas vezes se afirma, mas à má utilização dos recursos disponíveis. A incompetência instalada em algumas empresas públicas e serviços essenciais torna-se tanto mais grave quanto mais se perpetua sob o manto do conformismo e da impunidade. Quando as falhas se tornam habituais, a indignação cede lugar à resignação, e o país adapta-se ao atraso como se fosse inevitável.

 

Os apagões, nesse sentido, são também metáforas do apagamento progressivo da exigência cívica. A cada corte de energia corresponde um corte na confiança pública; a cada adiamento de uma solução estrutural corresponde o adiamento do próprio país. O problema é que o tempo não para. Cada ano que passa sem reformas profundas é um ano em que se desperdiçam oportunidades, perdem-se talentos e se desincentiva o investimento produtivo. A economia cabo-verdiana, frágil por natureza, não pode crescer de forma sustentada sem infraestruturas fiáveis, políticas coerentes e instituições capazes.

 

O setor energético é particularmente revelador deste impasse. Cabo Verde dispõe de condições naturais excecionais para a produção de energias renováveis – vento, sol e, em algumas ilhas, potencial hídrico e marinho –, mas continua excessivamente dependente de combustíveis fósseis importados e de equipamentos antiquados. A transição energética, tantas vezes proclamada, tem avançado a passo lento, bloqueada por interesses instalados, por falta de visão e por uma burocracia que desincentiva a inovação. Enquanto outros países africanos caminham rapidamente para a diversificação das suas fontes de energia, Cabo Verde continua preso a um modelo caro, ineficiente e vulnerável.

 

Parte do problema reside no modo como o Estado encara o planeamento. Em vez de um instrumento de antecipação e coordenação, o planeamento tornou-se, muitas vezes, uma formalidade administrativa. Multiplicam-se estratégias, planos e visões, mas poucas são executadas com rigor, acompanhamento e responsabilidade. A ausência de uma cultura de avaliação de políticas públicas permite que os erros se repitam ciclicamente, sem consequências para quem decide, nem aprendizagem para o sistema. O resultado é um país que reage, mas raramente se prepara; que discute, mas pouco executa; que promete, mas raramente cumpre.

 

A isto soma-se o descaso crescente com o cidadão comum. O serviço público parece ter-se esquecido da sua razão de ser: servir. O cabo-verdiano é hoje tratado como um utente que deve conformar-se com a ineficiência e não como um contribuinte que tem direito à qualidade. As filas intermináveis, os cortes sem aviso, as respostas tardias e a falta de informação são sintomas de uma administração que perdeu a noção de urgência e de respeito pelo tempo e pela dignidade das pessoas. O descaso é, em última análise, a expressão mais perigosa da incompetência: quando se normaliza o erro, o falhanço deixa de ser exceção e passa a ser sistema.

 

Não basta, por isso, reparar os cabos, substituir os transformadores e renovar condutas de água. O que Cabo Verde precisa é de uma reforma moral e institucional. É necessário restaurar o valor do mérito, exigir responsabilidade aos dirigentes e promover a cultura do planeamento e da execução. As soluções técnicas existem; o que falta é vontade política e coragem moral para romper com as práticas que perpetuam o atraso. A energia que o país mais necessita não é apenas a elétrica – é a energia da competência, da integridade e da responsabilidade.

 

O futuro de Cabo Verde não pode continuar a ser adiado. Cada apagão é um lembrete de que o país está a viver aquém do seu potencial. A estabilidade política, de que tanto se orgulha, não deve servir para sustentar a complacência, mas para criar as condições de uma transformação duradoura. É tempo de os decisores compreenderem que governar não é gerir crises, mas preveni-las; não é nomear amigos, mas escolher competentes; não é prometer, mas cumprir. O país precisa de uma nova geração de líderes públicos capazes de pensar a longo prazo, de assumir compromissos com resultados e de colocar o interesse nacional acima dos cálculos partidários.

 

Enquanto persistirem os apagões, o verdadeiro corte será outro: o corte entre o país real e o país possível. Cabo Verde não pode continuar adiado. Porque cada dia sem luz e sem água é também um dia sem rumo, e nenhum povo pode construir o futuro na escuridão e sem água.

 

Praia, 22 de outubro de 2025


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