George Orwell e o Triunfo dos Porcos em Terra de Morabeza
Orwell, com a sua lucidez profética, descreveu com precisão o mecanismo da manipulação política e da inversão moral. No seu romance, os animais revoltam-se contra os humanos em nome da justiça e da igualdade, apenas para verem os porcos – supostamente os mais inteligentes – assumirem o poder e instaurarem um regime ainda mais opressivo. A célebre máxima “Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais do que os outros” tornou-se, tristemente, um espelho da realidade cabo-verdiana contemporânea, onde a igualdade de direitos é proclamada, mas a liberdade de opinião é tolerada apenas enquanto não incomodar os interesses instalados.
Nas redes sociais, esse novo “Reino dos Porcos” manifesta-se através de perfis apócrifos que se dedicam a vigiar, atacar e descredibilizar cidadãos que ousam pensar de forma autónoma. Não se trata de debate, nem de confronto de ideias – trata-se de linchamento moral, de assassinato de carácter, de uma estratégia deliberada de intimidação. Os alvos são quase sempre os mesmos: profissionais íntegros, trabalhadores empenhados, cidadãos que, com coragem cívica, expõem contradições, denunciam inércias ou simplesmente expressam opiniões que não se alinham com o discurso hegemónico dos partidos no poder ou da oposição institucionalizada. Porém, por suportar o Governo que gere o dinheiro público e distribui “tachos”, o partido no poder parece ter um batalhão maior de censores informais e de intimidadores mais radicalizados, sendo alguns deles altos funcionários do Estado, pagos a peso de ouro com o dinheiro dos cabo-verdianos.
Na verdade, os ataques não são espontâneos. São orquestrados, muitas vezes com a cumplicidade tácita – ou mesmo ativa – de estruturas do Estado e partidárias que, incapazes de responder com argumentos, recorrem à difamação como arma política. Tal como os porcos de Orwell reescreviam os mandamentos da revolução para justificar os seus privilégios, também estes agentes do anonimato reescrevem os factos, distorcem declarações, fabricam narrativas, tudo em nome de uma suposta “defesa da verdade” que mais não é do que a imposição de uma ortodoxia ideológica. A verdade, nesse contexto, deixa de ser um valor e passa a ser uma construção utilitária, moldada ao sabor das conveniências do momento.
O mais perturbador, porém, não é a existência desses perfis – afinal, a cobardia sempre encontrou refúgio no anonimato – mas sim a passividade com que a sociedade os tolera. Há uma espécie de resignação cínica, como se o facto de alguém ser atacado nas redes fosse um preço inevitável por se expor publicamente. Pior: há quem aplauda, quem partilhe, quem incentive, como se o escárnio fosse uma forma legítima de participação cívica. Orwell teria reconhecido esse fenómeno como parte do processo de degradação moral que acompanha todas as formas de autoritarismo disfarçado de democracia. Quando o medo de ser alvo supera a vontade de dizer o que se pensa, a liberdade já não é mais do que uma ilusão.
Em Cabo Verde, este fenómeno adquire contornos particularmente graves, porque se inscreve num contexto de fragilidade institucional e de cultura política ainda marcada por clientelismos, lealdades partidárias e uma certa reverência acrítica ao poder. A crítica, quando não vem de dentro do sistema, é vista como traição. O dissenso é confundido com deslealdade. E assim, em vez de se cultivar uma esfera pública vibrante, plural e intelectualmente exigente, alimenta-se uma bolha de conformismo, onde o debate é substituído por slogans, e a cidadania por militância cega.
Os porcos de Orwell não precisaram de censura oficial para controlar os outros animais – bastou-lhes manipular a linguagem, reescrever a história e incutir o medo. Do mesmo modo, os novos inquisidores digitais não precisam de tribunais nem de decretos: basta-lhes um teclado, uma conta falsa e uma audiência disposta a acreditar. A sua força reside na impunidade, na ausência de responsabilização, na complacência das autoridades que, apesar de terem meios legais para agir, preferem não se envolver. Fingem que não veem, que não sabem, que não podem. Mas podem. E sabem. E veem. Só que não querem. Porque, no fundo, essa violência simbólica serve-lhes. É útil. É eficaz. E é barata.
O Governo e os partidos políticos, por sua vez, fingem indignação. Condenam publicamente os ataques, apelam ao civismo, fazem discursos sobre ética e respeito. Mas nos bastidores, alimentam essas mesmas redes de perfis falsos, encorajam os seus apoiantes e militantes a “combater” os críticos, e até distribuem tarefas e narrativas. É uma hipocrisia institucionalizada, onde o discurso oficial serve apenas para manter as aparências, enquanto a máquina de difamação opera com total liberdade. Orwell teria chamado a isto “duplipensar”: a capacidade de manter duas crenças contraditórias ao mesmo tempo e aceitá-las ambas. Os partidos dizem que são contra o ódio, mas praticam-no. Dizem que defendem a liberdade, mas perseguem quem a exerce.
Este fenómeno, contudo, não é exclusivo de Cabo Verde. Está a acontecer um pouco por todo o lado, fruto da nova onda populista que varre democracias frágeis e consolidadas. A lógica é sempre a mesma: simplificar o discurso, criar inimigos internos, desacreditar as instituições, e mobilizar as massas através da emoção e da indignação. As redes sociais tornaram-se o terreno fértil para essa estratégia, permitindo que o ressentimento se transforme em ação política, que a mentira se disfarce de opinião, e que a violência simbólica se normalize como parte do jogo democrático. É uma regressão civilizacional disfarçada de modernidade.
A impunidade dos agressores digitais é, portanto, sintoma de um problema mais profundo: a erosão dos valores democráticos, a banalização da mentira, e a substituição do pensamento crítico por tribalismo ideológico. Quando os porcos tomam conta da quinta, não é apenas a liberdade que está em risco – é a própria ideia de verdade, de justiça, de humanidade. E quando os cidadãos honestos são perseguidos por dizerem o que pensam, não é apenas a sua reputação que é destruída – é o tecido moral da sociedade que se desfaz.
É urgente, portanto, recuperar o sentido ético da participação cívica. Isso implica coragem para denunciar os ataques anónimos, mas também lucidez para não cair na tentação do revanchismo. A resposta à calúnia não pode ser a contra-calúnia. A resposta ao insulto não pode ser o insulto. A resposta à mentira tem de ser a verdade – dita com firmeza, mas também com elevação. Porque, como nos lembra Orwell, o verdadeiro poder não está na força bruta, mas na capacidade de manter a dignidade mesmo quando tudo à volta conspira para a sua destruição.
Cabo Verde merece mais do que um curral digital onde os porcos se digladiam pelo controlo da narrativa. Merece uma esfera pública onde as ideias se confrontam com respeito, onde a crítica é acolhida como sinal de vitalidade democrática, e onde a coragem de pensar diferente não seja punida com o exílio virtual. Para isso, é preciso que cada cidadão assuma o seu papel – não como animal obediente, mas como ser pensante, livre e responsável. Só assim poderemos, um dia, olhar para trás e dizer que, ao contrário do que aconteceu na quinta de Orwell, a revolução em Cabo Verde não foi traída pelos seus próprios porcos.
Praia, 27 de outubro de 2025
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