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A mostrar mensagens de novembro, 2025

Como a “virtude” maquiavélica molda a governação em Cabo Verde

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Ler O Príncipe , de Nicolau Maquiavel, é didático em duas frentes. Por um lado, o autor renascentista recupera para a prática política uma noção de virtude ligada ao êxito, à disciplina e à arte de governar. Por outro, essa mesma virtude transforma-se, nas mãos do estratega, em técnica de perceção: o que conta não é tanto o ser quanto o parecer, não tanto o ato quanto o efeito que o ato provoca nas vontades alheias. Maquiavel descreve a virtude do líder em termos de comportamento e decisão – ser generoso, piedoso, firme, transparente – e, simultaneamente, evidencia como a perceção pode converter ações dúbias em demonstrações de grandeza. Daí nasce a duplicidade que justificou o adjetivo “maquiavélico”: a virtude convertida em instrumento de manipulação. Quando a retórica maquiavélica se cruza com a tecnologia contemporânea das comunicações, o resultado é um ecossistema em que a mensagem pode ser cuidadosamente curada, repetida e amplificada – e em que as emoções condicionam a receçã...

O mito do crescimento económico baseado na dependência do turismo de enclave*

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O turismo é hoje o principal motor da economia cabo-verdiana. A marca de um milhão de visitantes alcançada em 2023 confirma a recuperação robusta de um setor que, antes da pandemia, já representava mais de um quinto do PIB. É inegável o seu papel na criação de emprego, na atração de investimento estrangeiro e na geração de receitas fiscais. Contudo, esta dependência crescente levanta uma questão essencial: o turismo em Cabo Verde está a criar desenvolvimento sustentável ou apenas a sustentar uma ilusão de prosperidade? Sob a aparência de sucesso, esconde-se uma vulnerabilidade estrutural. O modelo dominante, centrado em grandes empreendimentos “all-inclusive” nas ilhas do Sal e da Boa Vista, produz crescimento económico mensurável, mas uma integração económica mínima. O turista chega, consome e parte  –  quase sem deixar rasto económico nas comunidades locais. A maioria dos bens e serviços utilizados pelos hotéis é importada, e os lucros tendem a ser repatriados para o exterio...

O governo do MpD e a sua “hipérbole verídica”

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  À medida que Cabo Verde se aproxima de novas eleições legislativas, torna-se inevitável olhar para trás e avaliar, com a necessária sobriedade, o percurso governativo dos últimos dez anos. Desde 2016 que o MpD, liderado por Ulisses Correia e Silva, vem ocupando o poder prometendo modernização, estabilidade, transparência e desenvolvimento acelerado. Hoje, porém, após uma década de governação, o que sobressai não é o cumprimento dessas promessas estruturantes, mas antes a construção de um universo paralelo feito de slogans, propaganda e hipérboles, onde o que não foi feito durante dez anos é agora miraculosamente anunciado como possível nos três ou cinco meses que antecedem o escrutínio eleitoral. Esta tentativa de reescrever a realidade não só subestima a inteligência dos cabo-verdianos, como representa uma profunda erosão da confiança pública nas instituições democráticas. O primeiro grande fracasso, incontornável e unanimemente reconhecido pela população, é o colapso dos transp...

2016 – 2025: uma década sem criação líquida de emprego em Cabo Verde*

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Em Cabo Verde, o debate em torno da criação de emprego tem sido marcado por uma dissonância entre os indicadores macroeconómicos e a realidade do mercado de trabalho. O discurso oficial enfatiza taxas de crescimento do PIB, percentagens de redução do desemprego e séries estatísticas que sugerem prosperidade. Contudo, uma análise mais detalhada revela que a evolução quantitativa do emprego não corresponde a uma transformação qualitativa capaz de assegurar trabalho decente, formal e protegido. A narrativa de progresso económico, frequentemente sustentada em indicadores agregados, contrasta com a persistência de fenómenos estruturais como a elevada informalidade, o subemprego e as desigualdades territoriais e de género. Os dados das Estatísticas do Mercado de Trabalho relativos ao 1.º semestre de 2025, divulgados em outubro p.p. pelo INE, ilustram de forma clara este paradoxo. Apesar de se registar um crescimento do emprego de 7,3% e uma redução da taxa de desemprego para 7,5%, face ao ...

Ernâni Lopes e o Caminho Estratégico de Cabo Verde

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Ernâni Lopes, renomado economista português, faleceu em 2010, aos 68 anos, depois de uma vida dedicada à investigação e ao serviço público, em inúmeros papéis. Em setembro passado, Portugal homenageou-o com uma conferência e a publicação de um livro, gesto que reafirma a atualidade do seu pensamento e a urgência de revisitar os dilemas que antecipou. Recusava rótulos de esquerda ou de direita, escolhendo antes enfrentar os problemas com pragmatismo e propor respostas tangíveis. Contudo, acreditou e trabalhou para que Portugal se afirmasse na economia de mercado ocidental, insistindo na necessidade de conciliar a transição para uma economia mais dinâmica com a preservação possível do Estado social. Exerceu funções de Ministro das Finanças e de consultor em diversas empresas, nacionais e internacionais. Em 1988 fundou a SaeR – Sociedade de Avaliação Estratégica e Risco, que dirigiu como sócio-gerente até ao final da sua vida. Paralelamente, foi autor e coordenador de numerosos estudos de...

Desmontando os números “martelados” da pobreza em Cabo Verde*

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A redução da pobreza protege a dignidade e os direitos das pessoas, promove a coesão social e a estabilidade política e é imprescindível para um desenvolvimento económico sustentável e justo. Por isso, na formulação de políticas públicas, os Governos, geralmente, atribuem-lhe especial prioridade. Porém, para que essas políticas sejam eficazes, é absolutamente necessário conhecer quem são os pobres, estabelecendo limiares claros, atualizados e contextualizados que permitam orientar e focalizar intervenções de combate à pobreza. Em Portugal, por exemplo, há um hiato temporal de apenas um ano entre o levantamento de dados e a publicação de informações sobre a situação da pobreza à luz de limiares atualizados. Assim, no dia 17 de outubro de 2025, foram divulgados, por ocasião do Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza, os resultados do Inquérito às Condições de Vida e Rendimento realizado pelo INE português em 2024, relativos aos rendimentos do ano anterior (2023).   Segundo os...

A miséria da ideologia de direita e de esquerda em Cabo Verde

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Para saber se podemos ser amigos   Em Cabo Verde, para saber se podemos ser amigos, frequentemente é preciso atravessar o labirinto das aparentes ideologias que nos dividem. Aqui, direita e esquerda tornaram-se rótulos gastos, bandeiras que já não significam nada além de conveniência e oportunismo. A política deixou de ser espaço de ideias e passou a ser palco de vaidades, onde cada lado se alimenta da caricatura do outro. Nesse cenário, a amizade torna-se um teste: será que conseguimos reconhecer o humano para além da trincheira ideológica? Ou estamos condenados a medir afinidades pela miséria dos partidos?   A política cabo-verdiana continua a mover-se sob uma dicotomia ideológica que, embora historicamente enraizada, revela-se cada vez mais obsoleta e contraproducente. A distinção entre esquerda e direita, nascida no contexto da Revolução Francesa, tem servido como referência para a classificação das posições políticas ao longo dos séculos. No entanto, como sublinham autore...

Cabo Verde: o país do “mais ou menos” e da tolerância ao incumprimento*

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  Estudei e vivi mais de dez anos na Alemanha e sou um grande apreciador e seguidor da sua cultura de convivência social e de trabalho, particularmente no que diz respeito à pontualidade, ao cumprimento da palavra dada, ao rigor e ao profissionalismo.   Considerada o país mais rico da Europa e a terceira economia mundial, a Alemanha é uma potência europeia com forte influência política, económica e cultural, destacando-se pela sua engenharia de precisão, inovação industrial e compromisso com a sustentabilidade. Entre os vários fatores que podem ser apontados como causa desse sucesso, destaca-se, em primeiríssimo lugar, o elevado nível de produtividade.   Uma cultura muito positiva e autofavorecedora, que se estende às organizações, explica parte do “milagre germânico”. Os alemães, geralmente, são confiantes, não se prendem a convenções sociais e veem a vida pelo lado prático. Além disso, possuem uma mentalidade que os beneficia, particularmente no trabalho, por serem muit...