Como a “virtude” maquiavélica molda a governação em Cabo Verde
Ler O Príncipe , de Nicolau Maquiavel, é didático em duas frentes. Por um lado, o autor renascentista recupera para a prática política uma noção de virtude ligada ao êxito, à disciplina e à arte de governar. Por outro, essa mesma virtude transforma-se, nas mãos do estratega, em técnica de perceção: o que conta não é tanto o ser quanto o parecer, não tanto o ato quanto o efeito que o ato provoca nas vontades alheias. Maquiavel descreve a virtude do líder em termos de comportamento e decisão – ser generoso, piedoso, firme, transparente – e, simultaneamente, evidencia como a perceção pode converter ações dúbias em demonstrações de grandeza. Daí nasce a duplicidade que justificou o adjetivo “maquiavélico”: a virtude convertida em instrumento de manipulação. Quando a retórica maquiavélica se cruza com a tecnologia contemporânea das comunicações, o resultado é um ecossistema em que a mensagem pode ser cuidadosamente curada, repetida e amplificada – e em que as emoções condicionam a receçã...