Ernâni Lopes e o Caminho Estratégico de Cabo Verde
Ernâni Lopes, renomado economista português, faleceu em 2010, aos
68 anos, depois de uma vida dedicada à investigação e ao serviço público, em
inúmeros papéis. Em setembro passado, Portugal homenageou-o com uma conferência
e a publicação de um livro, gesto que reafirma a atualidade do seu pensamento e
a urgência de revisitar os dilemas que antecipou.Exerceu funções de Ministro das Finanças e de consultor em diversas empresas, nacionais e internacionais. Em 1988 fundou a SaeR – Sociedade de Avaliação Estratégica e Risco, que dirigiu como sócio-gerente até ao final da sua vida. Paralelamente, foi autor e coordenador de numerosos estudos dedicados à economia portuguesa, à cooperação internacional e à análise das economias de vários países africanos de língua oficial portuguesa, com destaque para Cabo Verde.
Contratada pelo Governo da época, a SaeR apresentou, em 1995, um
estudo (três volumes) com mais de 500 páginas sobre o desenvolvimento de Cabo
Verde – talvez o estudo mais completo realizado até hoje. Apesar disso,
permanece esquecido, engavetado nas instituições governamentais. Cabo Verde
tornou-se especialista em gastar rios de dinheiro em estudos e, sobretudo nos
últimos nove anos e meio, em conferências sem serventia: fazem-se, mas ninguém
se importa com as conclusões ou recomendações.
O
primeiro volume, intitulado “Documento de Estratégia”, versa sobre a estratégia
de desenvolvimento económico e social de Cabo Verde e parte de uma constatação
fundamental: a singularidade estrutural do país. O arquipélago apresenta
condições naturais extremamente adversas, uma dotação de recursos escassíssima
e uma população em crescimento contínuo, elementos que, combinados, criam uma
vulnerabilidade permanente. Essa fragilidade significa que pequenas alterações
na dinâmica social ou económica podem rapidamente conduzir a situações de
inviabilidade.
Por causa
disso, qualquer proposta estratégica deve equilibrar, simultaneamente, duas
dimensões indissociáveis: a preservação dos equilíbrios internos, garantindo a
subsistência da população e a coesão social, e a afirmação externa de Cabo
Verde, criando ligações internacionais que permitam captar fluxos de apoio
financeiro, humano e tecnológico indispensáveis à sua sobrevivência. Não se
trata apenas de uma escolha política, mas de uma imposição das condições
objetivas que moldam a realidade cabo-verdiana.
Historicamente,
Cabo Verde desempenhou uma função de circulação no espaço atlântico, primeiro
como plataforma no tráfico de escravos, depois como ponto de escala na
navegação marítima e, mais tarde, na aviação intercontinental. Essa função foi,
ao longo dos séculos, a base da sua relevância internacional e da sua
integração em fluxos económicos globais. Contudo, com a evolução tecnológica e a
modernização dos transportes, esse papel foi-se esbatendo, deixando o país
dependente quase exclusivamente das remessas da diáspora e da ajuda externa. O
documento defende que a estratégia futura deve recuperar, de forma adaptada,
essa vocação de circulação, mas num novo contexto: não se trata de reproduzir
funções históricas ultrapassadas, mas de encontrar nichos funcionais no quadro
da globalização que permitam a Cabo Verde oferecer serviços, conhecimento e
capital humano, reforçando ao mesmo tempo os laços com a diáspora, que
constitui uma espécie de “ilhas exteriores” do arquipélago.
O texto
rejeita duas tentações perigosas. A primeira seria tentar transformar Cabo
Verde num país como os outros, aplicando modelos de desenvolvimento pensados
para sociedades com abundância de recursos naturais e mercados internos
significativos. Esse caminho levaria a um fracasso inevitável, pois a escala
reduzida do país e a sua base ecológica frágil não suportam projetos
industriais de grande dimensão ou políticas de autossuficiência. A segunda
tentação, simétrica, seria considerar Cabo Verde como um caso tão específico e
desfavorecido que mereceria, indefinidamente, um tratamento preferencial por
parte da comunidade internacional. Embora durante algum tempo essa singularidade
possa justificar ajudas especiais, ela não pode constituir, por si só, uma base
estratégica sólida, pois depender em excesso de apoios externos cria
vulnerabilidade política e económica e fragiliza a capacidade interna de gestão
e disciplina.
O documento
é claro ao identificar erros estratégicos a evitar. Entre eles estão a
reprodução de padrões coloniais de desenvolvimento, a insistência numa
industrialização forçada sem condições competitivas, a tentativa de alcançar
autossuficiência alimentar ou produtiva através de protecionismo e a adoção de
modelos nacionalistas que criam expectativas irrealistas na população. A
globalização, ao intensificar a concorrência internacional e reduzir a
importância das fronteiras económicas, tornou inviável a estratégia clássica de
desenvolvimento autónomo seguida historicamente pelos Estados europeus. Para
Cabo Verde, com um mercado interno diminuto, tentar replicar esse percurso
seria não apenas impossível como prejudicial, gerando frustração, desperdício
de recursos e degradação da autoridade do Estado.
Perante
este quadro, a estratégia proposta assenta em dois pilares complementares. O
primeiro é interno e centra-se na preservação da viabilidade ecológica e social
do arquipélago. Isso implica adotar uma cultura de contenção, uma verdadeira
“cultura do deserto”, que valorize a racionalidade no uso dos recursos, a
moderação das expectativas de consumo e a mobilização coletiva em torno da
subsistência. O crescimento populacional deve ser acompanhado por políticas ativas
de planeamento familiar e, sobretudo, por um esforço contínuo de emigração
regular, que alivia a pressão sobre os recursos internos. A agricultura, apesar
de importante para a segurança alimentar, nunca poderá ser competitiva a nível
internacional, devendo ser encarada como um setor de sobrevivência, sujeito a
uma gestão rigorosa e adaptada às limitações climáticas. Nenhum investimento
deve comprometer os frágeis equilíbrios ambientais, pois a destruição destes
teria efeitos irreversíveis na sustentabilidade do país.
O
segundo pilar é externo e passa pela reinserção de Cabo Verde em redes globais
através da oferta de serviços especializados. O documento propõe que o país se
afirme como parceiro positivo nos processos de modernização africana,
utilizando a sua localização atlântica, a estabilidade política e a
qualificação do seu capital humano como vantagens estratégicas. Para isso, é
fundamental investir na formação de quadros técnicos e científicos com vocação
internacional, capazes de participar em projetos regionais e de responder às
exigências das agências internacionais de desenvolvimento. A diáspora deve ser
vista não apenas como fonte de remessas, mas como elemento ativo desta
estratégia, funcionando como ponte entre Cabo Verde e os centros de decisão
internacionais. As boas relações diplomáticas, neutras e cooperantes, são
igualmente essenciais para evitar que conflitos externos agravem a
vulnerabilidade interna e para assegurar a continuidade dos fluxos de apoio
financeiro.
No âmbito dessas orientações gerais, o turismo
ocupa um lugar especial no estudo liderado pelo economista e investigador
Ernâni Lopes. O documento reconhece que o turismo pode desempenhar um papel
relevante na economia cabo-verdiana, mas alerta para os riscos de uma abordagem
simplista que o veja como solução milagrosa. Ou seja, o turismo não pode ser
concebido apenas como uma fonte de divisas rápida, à custa da massificação e da
degradação ambiental. Pelo contrário, deve ser integrado numa estratégia
sustentável, respeitando os limites ecológicos do arquipélago e valorizando a
sua cultura única.
A
estratégia proposta pelo documento combina, portanto, realismo e ambição.
Realismo, porque reconhece as limitações estruturais de Cabo Verde e recusa
soluções utópicas ou importadas. Ambição, porque não se limita a gerir a
escassez, mas procura inserir o país nas dinâmicas globais, criando uma função
específica que lhe permita captar recursos e oferecer oportunidades à sua
população. Esta função pode materializar-se através de serviços ligados à
modernização africana, ao turismo sustentável, à diáspora e à diplomacia ativa.
O objetivo final não é a autossuficiência, que é inalcançável, mas a
viabilidade: a capacidade de manter uma população crescente com dignidade, sem
colapsos sociais ou ambientais, através de uma articulação inteligente entre o
interno e o externo.
Ignorar
esta visão integrada teria consequências graves. A continuação do modelo atual,
baseado na excessiva dependência do turismo, bem como na dependência passiva da
ajuda externa e na ausência de projetos mobilizadores, conduziria
inevitavelmente à regressão, agravada pelo crescimento demográfico, até se
impor novamente uma redução dramática da população por via de crises de
subsistência. Por outro lado, apostar em estratégias erradas, como a
industrialização pesada ou o turismo de massa, poderia destruir os equilíbrios
ecológicos e sociais, comprometendo irreversivelmente o futuro do país. Cabo
Verde não tem margem para erros de grande escala: cada decisão estratégica deve
ser ponderada à luz das suas vulnerabilidades e das tendências globais.
Em
conclusão, o documento oferece uma orientação clara: Cabo Verde deve assumir a
sua singularidade como ponto de partida, evitando tanto a imitação cega de
modelos externos como a dependência resignada de apoios internacionais. A
melhor estratégia é aquela que equilibra a disciplina interna com a inserção
externa, a preservação ecológica com a participação global, a moderação
cultural com a ambição diplomática. O turismo, dentro deste quadro, pode ser
uma peça importante, mas nunca a peça única. O futuro de Cabo Verde depende da
sua capacidade de reinventar a sua função no mundo, transformando a fragilidade
em oportunidade e a escassez em criatividade. Esta é uma tarefa difícil, mas
não impossível, desde que se compreenda que o verdadeiro objetivo não é copiar
os percursos de outros países, mas construir um caminho próprio, sustentado na
realidade concreta do arquipélago e nas tendências dominantes da globalização.
Praia,
17 de novembro de 2025
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