O governo do MpD e a sua “hipérbole verídica”
O primeiro grande fracasso, incontornável e unanimemente reconhecido pela população, é o colapso dos transportes interilhas. O governo que prometeu “resolver definitivamente” a conetividade aérea e marítima entre ilhas acabou por agravar dramaticamente o problema. No transporte aéreo, o desmantelamento da TACV doméstica e a subsequente entrega das ligações à Binter e à Bestfly, através de processos pouco transparentes, geraram um sistema caro, irregular e incapaz de garantir previsibilidade às populações. No transporte marítimo, o quadro não foi mais animador. O polémico contrato de concessão à CV Interilhas concentrou o mercado num único operador, limitando a concorrência e resultando em tarifas altas, irregularidade no serviço e inúmeras queixas públicas. Especialistas chamaram a atenção para cláusulas problemáticas, conflitos de interesse e falta de mecanismos eficazes de fiscalização. Em consequência, o transporte marítimo deteriorou-se ao ponto de se tornarem comuns cancelamentos repentinos e longas esperas em portos congestionados. Agora, a poucos meses das eleições, anuncia-se a compra de aviões, a chegada de barcos que “nunca mais acabam”, a reestruturação de rotas e uma miríade de soluções tardias que deveriam ter sido concretizadas desde o primeiro mandato. Esta súbita aceleração pré-eleitoral revela não apenas improviso, mas sobretudo um profundo desrespeito pelo sofrimento diário dos cidadãos que durante anos ficaram isolados ou sujeitos a um sistema de transportes disfuncional.
Outro compromisso emblemático, repetido obsessivamente
desde 2016, foi a construção do Hospital Nacional de Cabo Verde. Durante duas
legislaturas, multiplicaram-se anúncios, estudos, fotografias de maquetes,
garantias de financiamento e declarações de que o projeto avançaria “em breve”.
No entanto, em 2025, a verdade permanece imutável: o hospital continua a não
existir. As evacuações médicas continuam a sobrecarregar famílias e o Estado;
os serviços especializados são insuficientes; e a capacidade geral do sistema
de saúde permanece estagnada. O mesmo sucede com os aeroportos de Santo Antão,
Fogo e Maio, todas promessas que, década após década, reaparecem como miragens
eleitorais. A expansão dos portos de Porto Novo e Vale dos Cavaleiros também
foi sucessivamente anunciada, sem que obras estruturantes tenham começado a
tempo de alterar a vida das populações. Apenas agora, com o relógio eleitoral a
correr, se ressuscitam projetos antigos como se fossem novos, alimentando a
sensação de que as prioridades do governo não seguem a lógica do
desenvolvimento, mas sim a lógica do ciclo eleitoral.
No ensino superior, o cenário não é mais alentador.
Durante anos, milhares de estudantes acumularam dívidas de propinas, muitas
vezes impedidos de concluir cursos ou de obter diplomas. As repetidas promessas
de solução, feitas desde o primeiro mandato, ficaram adiadas até ao limite. Só
agora, em 2025, surge um programa extraordinário para pagamento parcial das
dívidas e o anúncio de residências universitárias cujo atraso se tornou
vergonha nacional. Esta lentidão estrutural contrasta com a facilidade com que
o governo promove grandiosos discursos sobre nómadas digitais, hubs tecnológicos, inteligência
artificial, economia azul futurista e drones.
As prioridades parecem invertidas: primeiro os anúncios futuristas, depois – se
sobrar tempo – as necessidades reais dos cidadãos.
Mas o fracasso não está apenas no que não foi
construído. Está também naquilo que foi destruído ou profundamente degradado: a
reforma do Estado, anunciada como uma das bandeiras centrais do MpD, nunca
avançou. Não houve verdadeira revisão da máquina administrativa, nem combate
efetivo à burocracia, nem reforço da meritocracia, nem uma clarificação das
missões e funções das estruturas públicas. Em vez disso, instalou-se, de forma
mais intensa do que nunca, a partidarização da Administração Pública e o nepotismo.
O fenómeno conhecido como “jobs for the boys” atingiu níveis sem precedentes,
com nomeações políticas a todos os níveis, desde direções-gerais a conselhos de
administração de empresas públicas, passando por chefias intermédias e novas
estruturas criadas artificialmente para acomodação partidária. A promiscuidade
entre partido e Estado tornou-se tão evidente que muitos cidadãos passaram a evitar
expressar opiniões políticas por receio de represálias profissionais, o que
constitui uma regressão preocupante da cultura democrática cabo-verdiana.
A discriminação política, subtil ou explícita,
tornou-se prática corrente. Candidatos identificados como próximos da oposição
perderam oportunidades de emprego; trabalhadores com décadas de serviço viram
carreiras bloqueadas; concursos públicos foram repetidamente contestados por
alegações de favorecimento político; e inúmeras instituições públicas passaram
a funcionar como extensões informais do partido no poder. Estes comportamentos
não só contrariam a Constituição, como minam a confiança no Estado e criam um
ambiente tóxico onde o mérito é secundarizado em favor da lealdade partidária.
A relação tensa entre o governo e a comunicação social
é outro indicador preocupante. Ao longo dos últimos anos, multiplicaram-se
tentativas de condicionar a liberdade de imprensa, fosse através de pressões
indiretas, controlo de verbas publicitárias, nomeações estratégicas em órgãos
reguladores ou ataques públicos a jornalistas que ousaram fazer perguntas
incómodas. Em paralelo, cresceu um ecossistema de milícias digitais, muitas
delas compostas por funcionários públicos, pagos com salários elevados e
desviados das suas funções essenciais para patrulhar as redes sociais, destruir
reputações, intimidar críticos e distorcer debates públicos. Estas milícias não
só atacam opositores políticos, como difundem narrativas oficiais,
transformando a comunicação governamental num exercício contínuo de propaganda.
A manipulação ou apresentação enviesada de dados
estatísticos tornou-se igualmente prática comum. Números sobre crescimento,
emprego, dívida pública, inflação ou rendimento das famílias são frequentemente
apresentados de forma seletiva, omitindo variáveis incómodas ou comparando
períodos incomensuráveis. A retórica oficial cria a sensação de que o país
atingiu níveis inéditos de progresso, quando a realidade vivida pelas famílias
– marcada por salários estagnados, custo de vida crescente, serviços públicos
deficientes e aumento das desigualdades – conta uma história muito diferente. A
falta de transparência na gestão da coisa pública, associada a vários indícios
de favorecimento económico, adjudicações pouco claras, contratos ajustados à
medida e opacidade no uso de recursos do Estado, contribui para deteriorar
ainda mais a confiança pública.
Depois de dez anos de governação, não é apenas o
incumprimento das promessas que está em causa: é o padrão de governação assente
na propaganda, no controlo político das instituições, na manipulação do debate
público e na ausência de prestação de contas. O governo ultrapassou os limites
do razoável ao tentar transformar falhas acumuladas em supostos triunfos,
prometendo num prazo eleitoral aquilo que não executou durante uma década de
poder absoluto. Esta tentativa de reconfigurar a perceção pública através de
discursos grandiosos, eufóricos e desconectados da realidade constitui a
verdadeira “hipérbole verídica”: uma narrativa tão exagerada que, apesar de se
apresentar como verdade, contradiz frontalmente a experiência quotidiana dos
cabo-verdianos.
Neste momento decisivo, o país precisa de um banho de
realismo. Precisa de uma avaliação honesta, rigorosa e transparente. Precisa de
governantes que entendam que o desenvolvimento não se constrói com slogans nem
com anúncios de ocasião. Precisa de compromissos efetivos, executados com
competência, e não de promessas recicladas a cada ciclo eleitoral. E,
sobretudo, precisa de um governo que respeite a inteligência do seu povo, que
não confunda lealdade com submissão, nem cidadania com silêncio. A democracia
cabo-verdiana merece mais do que propaganda: merece verdade, responsabilidade e
coragem política.
Urge que deixemos para trás o tempo das hipérboles e iniciemos, enfim, o tempo da responsabilidade.
Praia, 23 de novembro de 2025
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