O governo do MpD e a sua “hipérbole verídica”

 

À medida que Cabo Verde se aproxima de novas eleições legislativas, torna-se inevitável olhar para trás e avaliar, com a necessária sobriedade, o percurso governativo dos últimos dez anos. Desde 2016 que o MpD, liderado por Ulisses Correia e Silva, vem ocupando o poder prometendo modernização, estabilidade, transparência e desenvolvimento acelerado. Hoje, porém, após uma década de governação, o que sobressai não é o cumprimento dessas promessas estruturantes, mas antes a construção de um universo paralelo feito de slogans, propaganda e hipérboles, onde o que não foi feito durante dez anos é agora miraculosamente anunciado como possível nos três ou cinco meses que antecedem o escrutínio eleitoral. Esta tentativa de reescrever a realidade não só subestima a inteligência dos cabo-verdianos, como representa uma profunda erosão da confiança pública nas instituições democráticas.

O primeiro grande fracasso, incontornável e unanimemente reconhecido pela população, é o colapso dos transportes interilhas. O governo que prometeu “resolver definitivamente” a conetividade aérea e marítima entre ilhas acabou por agravar dramaticamente o problema. No transporte aéreo, o desmantelamento da TACV doméstica e a subsequente entrega das ligações à Binter e à Bestfly, através de processos pouco transparentes, geraram um sistema caro, irregular e incapaz de garantir previsibilidade às populações. No transporte marítimo, o quadro não foi mais animador. O polémico contrato de concessão à CV Interilhas concentrou o mercado num único operador, limitando a concorrência e resultando em tarifas altas, irregularidade no serviço e inúmeras queixas públicas. Especialistas chamaram a atenção para cláusulas problemáticas, conflitos de interesse e falta de mecanismos eficazes de fiscalização. Em consequência, o transporte marítimo deteriorou-se ao ponto de se tornarem comuns cancelamentos repentinos e longas esperas em portos congestionados. Agora, a poucos meses das eleições, anuncia-se a compra de aviões, a chegada de barcos que “nunca mais acabam”, a reestruturação de rotas e uma miríade de soluções tardias que deveriam ter sido concretizadas desde o primeiro mandato. Esta súbita aceleração pré-eleitoral revela não apenas improviso, mas sobretudo um profundo desrespeito pelo sofrimento diário dos cidadãos que durante anos ficaram isolados ou sujeitos a um sistema de transportes disfuncional.

 

Outro compromisso emblemático, repetido obsessivamente desde 2016, foi a construção do Hospital Nacional de Cabo Verde. Durante duas legislaturas, multiplicaram-se anúncios, estudos, fotografias de maquetes, garantias de financiamento e declarações de que o projeto avançaria “em breve”. No entanto, em 2025, a verdade permanece imutável: o hospital continua a não existir. As evacuações médicas continuam a sobrecarregar famílias e o Estado; os serviços especializados são insuficientes; e a capacidade geral do sistema de saúde permanece estagnada. O mesmo sucede com os aeroportos de Santo Antão, Fogo e Maio, todas promessas que, década após década, reaparecem como miragens eleitorais. A expansão dos portos de Porto Novo e Vale dos Cavaleiros também foi sucessivamente anunciada, sem que obras estruturantes tenham começado a tempo de alterar a vida das populações. Apenas agora, com o relógio eleitoral a correr, se ressuscitam projetos antigos como se fossem novos, alimentando a sensação de que as prioridades do governo não seguem a lógica do desenvolvimento, mas sim a lógica do ciclo eleitoral.

 

No ensino superior, o cenário não é mais alentador. Durante anos, milhares de estudantes acumularam dívidas de propinas, muitas vezes impedidos de concluir cursos ou de obter diplomas. As repetidas promessas de solução, feitas desde o primeiro mandato, ficaram adiadas até ao limite. Só agora, em 2025, surge um programa extraordinário para pagamento parcial das dívidas e o anúncio de residências universitárias cujo atraso se tornou vergonha nacional. Esta lentidão estrutural contrasta com a facilidade com que o governo promove grandiosos discursos sobre nómadas digitais, hubs tecnológicos, inteligência artificial, economia azul futurista e drones. As prioridades parecem invertidas: primeiro os anúncios futuristas, depois – se sobrar tempo – as necessidades reais dos cidadãos.

 

Mas o fracasso não está apenas no que não foi construído. Está também naquilo que foi destruído ou profundamente degradado: a reforma do Estado, anunciada como uma das bandeiras centrais do MpD, nunca avançou. Não houve verdadeira revisão da máquina administrativa, nem combate efetivo à burocracia, nem reforço da meritocracia, nem uma clarificação das missões e funções das estruturas públicas. Em vez disso, instalou-se, de forma mais intensa do que nunca, a partidarização da Administração Pública e o nepotismo. O fenómeno conhecido como “jobs for the boys” atingiu níveis sem precedentes, com nomeações políticas a todos os níveis, desde direções-gerais a conselhos de administração de empresas públicas, passando por chefias intermédias e novas estruturas criadas artificialmente para acomodação partidária. A promiscuidade entre partido e Estado tornou-se tão evidente que muitos cidadãos passaram a evitar expressar opiniões políticas por receio de represálias profissionais, o que constitui uma regressão preocupante da cultura democrática cabo-verdiana.

 

A discriminação política, subtil ou explícita, tornou-se prática corrente. Candidatos identificados como próximos da oposição perderam oportunidades de emprego; trabalhadores com décadas de serviço viram carreiras bloqueadas; concursos públicos foram repetidamente contestados por alegações de favorecimento político; e inúmeras instituições públicas passaram a funcionar como extensões informais do partido no poder. Estes comportamentos não só contrariam a Constituição, como minam a confiança no Estado e criam um ambiente tóxico onde o mérito é secundarizado em favor da lealdade partidária.

 

A relação tensa entre o governo e a comunicação social é outro indicador preocupante. Ao longo dos últimos anos, multiplicaram-se tentativas de condicionar a liberdade de imprensa, fosse através de pressões indiretas, controlo de verbas publicitárias, nomeações estratégicas em órgãos reguladores ou ataques públicos a jornalistas que ousaram fazer perguntas incómodas. Em paralelo, cresceu um ecossistema de milícias digitais, muitas delas compostas por funcionários públicos, pagos com salários elevados e desviados das suas funções essenciais para patrulhar as redes sociais, destruir reputações, intimidar críticos e distorcer debates públicos. Estas milícias não só atacam opositores políticos, como difundem narrativas oficiais, transformando a comunicação governamental num exercício contínuo de propaganda.

 

A manipulação ou apresentação enviesada de dados estatísticos tornou-se igualmente prática comum. Números sobre crescimento, emprego, dívida pública, inflação ou rendimento das famílias são frequentemente apresentados de forma seletiva, omitindo variáveis incómodas ou comparando períodos incomensuráveis. A retórica oficial cria a sensação de que o país atingiu níveis inéditos de progresso, quando a realidade vivida pelas famílias – marcada por salários estagnados, custo de vida crescente, serviços públicos deficientes e aumento das desigualdades – conta uma história muito diferente. A falta de transparência na gestão da coisa pública, associada a vários indícios de favorecimento económico, adjudicações pouco claras, contratos ajustados à medida e opacidade no uso de recursos do Estado, contribui para deteriorar ainda mais a confiança pública.

 

Depois de dez anos de governação, não é apenas o incumprimento das promessas que está em causa: é o padrão de governação assente na propaganda, no controlo político das instituições, na manipulação do debate público e na ausência de prestação de contas. O governo ultrapassou os limites do razoável ao tentar transformar falhas acumuladas em supostos triunfos, prometendo num prazo eleitoral aquilo que não executou durante uma década de poder absoluto. Esta tentativa de reconfigurar a perceção pública através de discursos grandiosos, eufóricos e desconectados da realidade constitui a verdadeira “hipérbole verídica”: uma narrativa tão exagerada que, apesar de se apresentar como verdade, contradiz frontalmente a experiência quotidiana dos cabo-verdianos.

 

Neste momento decisivo, o país precisa de um banho de realismo. Precisa de uma avaliação honesta, rigorosa e transparente. Precisa de governantes que entendam que o desenvolvimento não se constrói com slogans nem com anúncios de ocasião. Precisa de compromissos efetivos, executados com competência, e não de promessas recicladas a cada ciclo eleitoral. E, sobretudo, precisa de um governo que respeite a inteligência do seu povo, que não confunda lealdade com submissão, nem cidadania com silêncio. A democracia cabo-verdiana merece mais do que propaganda: merece verdade, responsabilidade e coragem política.


Urge que deixemos para trás o tempo das hipérboles e iniciemos, enfim, o tempo da responsabilidade.

Praia, 23 de novembro de 2025


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