Como a “virtude” maquiavélica molda a governação em Cabo Verde

Ler O Príncipe, de Nicolau Maquiavel, é didático em duas frentes. Por um lado, o autor renascentista recupera para a prática política uma noção de virtude ligada ao êxito, à disciplina e à arte de governar. Por outro, essa mesma virtude transforma-se, nas mãos do estratega, em técnica de perceção: o que conta não é tanto o ser quanto o parecer, não tanto o ato quanto o efeito que o ato provoca nas vontades alheias. Maquiavel descreve a virtude do líder em termos de comportamento e decisão ser generoso, piedoso, firme, transparente e, simultaneamente, evidencia como a perceção pode converter ações dúbias em demonstrações de grandeza. Daí nasce a duplicidade que justificou o adjetivo “maquiavélico”: a virtude convertida em instrumento de manipulação.

Quando a retórica maquiavélica se cruza com a tecnologia contemporânea das comunicações, o resultado é um ecossistema em que a mensagem pode ser cuidadosamente curada, repetida e amplificada e em que as emoções condicionam a receção. Hoje, a manipulação maquiavélica articula a criação de emoções, a exploração de ambientes sociais, a conveniência cognitiva e o apelo ao imediatismo. Em conjunto, estes elementos criam um terreno fértil para que uma narrativa autorreferente se imponha, não por ser verdadeira, mas por se tornar confortável, reiterada e conveniente. Em Cabo Verde, estas dinâmicas não são meras abstrações teóricas; tornaram-se práticas quotidianas. A narrativa de que “o país vai bem” tem sido uma constante na retórica do poder repetida em rádios, televisões e redes sociais, criando uma espuma mediática que tenta cobrir contradições e omissões. Essa espuma bela na aparência, vazia de estrutura serve para camuflar problemas estruturais: fragilidades institucionais, desigualdades crescentes, práticas de clientelismo e uma perceção pública de falta de transparência. Quando a propaganda ocupa o espaço do debate substantivo, a agenda pública das reformas necessárias é deslocada para um cenário em que o essencial é celebrar a imagem construída.

 

Factos recentes dão substância a estas preocupações. Um estudo público sobre a qualidade da democracia e da governação mostrou que cerca de dois terços dos cabo-verdianos consideram que o país segue na direção errada, e que uma parcela significativa avalia negativamente a situação económica e a eficácia das instituições sinais de descontentamento difíceis de conciliar com a retórica oficial de prosperidade. A confirmação eleitoral corroborou esse diagnóstico: nas eleições autárquicas de 1 de dezembro de 2024 registaram-se mudanças substanciais no mapa político municipal, interpretadas como um voto de desalento face às narrativas dominantes e como um alerta quanto ao desgaste do discurso oficial. Ainda que os mapas eleitorais não substituam diagnósticos económicos ou éticos, funcionam como termómetro do estado de espírito da nação.

 

Perante estes factos, a virtude maquiavélica entendida como a capacidade de gerir perceções e emoções para garantir obediência ou consumo assume um custo social elevado. Quando o poder opta por governar sobretudo para a propaganda instala-se um circuito vicioso: a imagem celebra conquistas, omite fragilidades e, assim, legitima práticas que, fora do enquadramento publicitário, seriam contestadas. O resultado é uma democracia empobrecida, em que o desempenho das instituições é avaliado com desconfiança e em que o capital cívico a confiança mútua e a disposição para o compromisso coletivo se esgota.


Mais grave é a naturalização do que, noutras circunstâncias, seria inaceitável: a utilização de meios de comunicação para silenciar ou difamar opositores; a transformação de órgãos públicos de informação em megafones de uma narrativa única; o recurso a estatísticas “temperadas” para justificar uma imagem triunfante. Estas práticas corroem a meritocracia e a igualdade de oportunidades, alimentando a ideia de que o exercício do poder serve interesses de grupo antes de servir a comunidade.

 

É, por isso, revelador observar como, a escassos meses do fim do mandato iniciado em 2016 e renovado em 2021, o Governo retoma compromissos incumpridos ao longo de quase uma década, como se ainda fosse possível concretizá-los no curto espaço de tempo que resta. Promessas de modernização da administração pública, de reforço da transparência e de digitalização dos serviços; de combate efetivo à pobreza e à desigualdade; de diversificação da economia para além do turismo e das remessas; de investimentos estruturantes na saúde, nos aeroportos, nos portos e na educação; de criação de empregos qualificados para travar a emigração juvenil; de políticas ambientais robustas para enfrentar a vulnerabilidade climática todas essas bandeiras foram erguidas com solenidade em programas e discursos, mas ficaram aquém da execução. Agora, em tempo de balanço, são retomadas como se pudessem ser cumpridas em três ou quatro meses, numa espécie de corrida contra o calendário que mais parece encenação do que governação.

 

A promessa de um sistema de saúde mais resiliente, por exemplo, foi reiterada em múltiplas ocasiões, mas os hospitais continuam a enfrentar carências graves de recursos humanos e materiais. O compromisso de reduzir a pobreza extrema e de criar mecanismos de inclusão social mais eficazes foi repetido em relatórios e conferências, mas os inquéritos recentes revelam que a perceção da pobreza aumentou e que muitos cidadãos manifestam vontade de emigrar por motivos laborais. A diversificação económica, anunciada como prioridade desde 2016, continua a ser mais retórica do que realidade, com a dependência estrutural do turismo e das remessas a expor o país a choques externos. A aposta em energias renováveis, apresentada como símbolo de modernidade e sustentabilidade, não atingiu as metas proclamadas e é agora evocada como se pudesse ser concretizada em semanas. Estes exemplos ilustram como a virtude maquiavélica se converte em farsa: compromissos firmes transformados em slogans de última hora, mais destinados a salvar a imagem do que a resolver problemas.

 

Se a virtude maquiavélica é eficaz quando converte confiança em receita ou em estabilidade política imediata, a sua utilização como estratégia dominante conduz à perda de capital moral. A curto prazo, pode influenciar o comportamento eleitoral; a médio e longo prazo, mina a capacidade do Estado para responder a crises e mobilizar consensos para reformas estruturais.

 

Em Cabo Verde, onde desafios como a gestão da dívida, a vulnerabilidade climática e a necessidade de investimentos produtivos exigem soluções técnicas e vontade política sustentada, governar para a fotografia é um luxo perigoso que o país não pode pagar. O antídoto passa por recuperar a primazia da transparência, reforçar a educação cívica e mediática e proteger os espaços de deliberação autónoma. Só assim se evita que a espuma mediática substitua o espessamento democrático que é o debate informado.

 

A história de Maquiavel ensina-nos que o sucesso político depende tanto da perceção quanto do mérito. Mas a lição moderna impõe limites: a manipulação permanente esgota a legitimidade e transforma virtude em farsa. Em Cabo Verde, as sondagens e as urnas recentes não são apenas indicadores estatísticos; são sinais de alarme. Governações que, por zelo propagandístico, preferem o esplendor efémero à reforma duradoura arriscam oferecer ao país a ilusão do progresso enquanto retraem a capacidade de o tornar efetivo. Governar não pode equivaler a encenar: a política exige coragem para enfrentar a conveniência, honestidade para expor fragilidades e generosidade para partilhar riscos e oportunidades.

 

Se Maquiavel nos ensinou a arte de conquistar e conservar o poder, que a sua lição mais útil hoje seja esta: usar a perspetiva estratégica não para fabricar consentimentos artificiais, mas para construir, com honestidade e competência, um mandato que resista ao escrutínio do tempo. Só assim se evita que a “virtude” se transforme na máscara perfeita da ganância e que o poder, em vez de se tornar espetáculo, se converta em serviço. Quando a virtude é reduzida a máscara, a democracia degrada-se em teatro, e o povo deixa de ser protagonista para se tornar plateia.

 

Cabo Verde não precisa de encenadores da esperança, mas de governantes capazes de transformar estratégia em reforma e retórica em futuro.

 

Praia, 30 de novembro de 2025


 

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