O rei vai nu em Cabo Verde – uma década de governação falhada
Há contos que
atravessam séculos porque encerram verdades universais. O do “rei vai nu” é um
deles: a história de um poder que, embriagado pela sua própria retórica,
desfila em plena praça pública convencido de estar vestido de glória, enquanto
todos veem a sua nudez. Cabo Verde, em 2025, é a encarnação desta parábola. Uma
década de governação que prometia rutura, modernidade e prosperidade revelou-se
afinal um exercício de ilusionismo político, em que a distância entre promessa
e realidade se tornou abissal. Em 2016, o então partido da oposição galvanizou
o eleitorado com um discurso de mudança radical. Falava-se em diversificação
económica, em romper com a dependência do turismo e das remessas, em
transformar o arquipélago num “hub” aéreo, marítimo e digital de referência.
Prometia-se uma administração pública despartidarizada, transparente e
meritocrática. O slogan “Cabo Verde tem solução” ressoava como um hino de
redenção. O povo acreditou. Mas, passados quase dez anos, o balanço é de
frustração e descrença.Talvez em nenhum outro campo a discrepância entre promessa e realidade seja tão gritante como no emprego. O Governo prometera 45.000 novos postos de trabalho. O resultado líquido, entre 2016 e 2024, foi de apenas 4.429. Jovens licenciados enfrentam estágios não remunerados, empregos precários ou a inevitável emigração. A fuga de cérebros tornou-se uma constante, esvaziando o país de quadros qualificados e hipotecando o futuro. Enquanto isso, o Governo vangloria-se de uma descida marginal do desemprego, esquecendo que grande parte do “emprego criado” é informal, precário e sem proteção social. A saga da TACV, rebatizada Cabo Verde Airlines, é um manual de má gestão: reestruturações falhadas, privatizações malconduzidas, intervenções públicas dispendiosas. O sonho de um “hub” aéreo internacional esfumou-se, deixando um rasto de prejuízos para os contribuintes. No mar, a situação não é melhor: as ligações inter-ilhas são erráticas, caras e pouco fiáveis, comprometendo a coesão territorial e o desenvolvimento regional. A mobilidade, que deveria ser um direito básico num arquipélago, tornou-se um obstáculo quotidiano. Na saúde, os hospitais continuam subequipados, com falta de profissionais especializados e listas de espera intermináveis. As evacuações médicas para o exterior permanecem como solução de recurso. Na educação, apesar de alguns indicadores oficiais sugerirem melhorias, a qualidade do ensino degrada-se, refletindo-se em défices de aprendizagem e na frustração de professores e famílias. O discurso da excelência não resiste ao confronto com a realidade.
A despartidarização prometida nunca aconteceu. Pelo contrário, a partidarização agravou-se. O nepotismo e o compadrio tornaram-se regra, a meritocracia foi relegada para segundo plano, e a sociedade civil é frequentemente ignorada. Criou-se um ambiente de medo e censura velada, em que a lealdade partidária vale mais do que a competência. A confiança dos cidadãos nas instituições do Estado, outrora um dos pilares da estabilidade democrática cabo-verdiana, encontra-se hoje profundamente corroída. A perceção generalizada é a de que a justiça é lenta e permeável a influências, que os concursos públicos são frequentemente viciados, que a fiscalização é seletiva e que a corrupção, mesmo quando denunciada, raramente tem consequências efetivas. Esta erosão da confiança não é apenas um problema moral: mina a coesão social, fragiliza a democracia e alimenta o cinismo coletivo. Quando os cidadãos deixam de acreditar que as instituições funcionam para todos, abre-se espaço para a indiferença, para a resignação ou para a fuga – seja pela emigração, seja pelo retraimento da participação cívica.
A falta de transparência na gestão da coisa pública tornou-se um traço recorrente. Relatórios incompletos, contratos opacos, adjudicações diretas e ausência de escrutínio parlamentar efetivo alimentam a perceção de que o Estado serve mais os interesses de grupos instalados do que o bem comum. A corrupção, ainda que muitas vezes subtil e disfarçada sob a capa da legalidade formal, infiltra-se em múltiplos níveis: desde a pequena cunha para acelerar um processo até às grandes decisões estratégicas que beneficiam sempre os mesmos círculos. O nepotismo, por sua vez, tornou-se prática banalizada, com cargos de responsabilidade a serem ocupados por familiares, amigos ou militantes fiéis, independentemente da sua competência. Esta lógica de distribuição de favores não apenas compromete a eficiência da administração pública, como perpetua um sistema de dependência e lealdade que sufoca a inovação e a crítica.
A liberdade de expressão, embora formalmente garantida, enfrenta condicionamentos subtis, mas eficazes. Jornalistas relatam pressões, ameaças veladas e dificuldades de acesso à informação. A autocensura instala-se nos meios de comunicação, dependentes de publicidade estatal ou de interesses privados próximos do poder. Nas redes sociais, espaço de debate e contestação, multiplicam-se campanhas de difamação, ataques coordenados e tentativas de silenciamento de vozes críticas. O resultado é um ambiente em que a crítica é tolerada apenas até certo ponto, e em que o dissenso é frequentemente estigmatizado como antipatriótico ou destrutivo. A democracia, sem liberdade de expressão plena, transforma-se numa casca vazia, em que o ritual eleitoral convive com a asfixia do debate público.
Perante este cenário, o Governo recorre a um expediente recorrente: o “martelamento estatístico”. Dados desatualizados, comparações artificiais e rankings internacionais são usados para sustentar uma narrativa de sucesso. A estatística, que deveria ser instrumento de planeamento, é pervertida em ferramenta de propaganda. O resultado é duplamente nocivo: desacredita as instituições produtoras de dados e alimenta o cinismo coletivo. Quando a narrativa oficial se afasta da experiência concreta dos cidadãos, instala-se a sensação de que o poder não apenas ignora, mas despreza a inteligência popular. O Estado da Nação em 2025 é o de um país suspenso entre o delírio de um futuro radiante, constantemente adiado, e a frustração de um presente negligenciado. A governação transformou-se num exercício de marketing permanente, em que a imagem suplanta a substância. Mas os cidadãos, apesar de tudo, sabem distinguir a retórica da realidade. E é essa lucidez que mantém viva a metáfora: o rei desfila nu, e todos o veem.
Cabo Verde precisa de um banho de realismo. Precisa de uma governação que admita falhas, dialogue com franqueza e apresente soluções credíveis. Precisa de políticas que coloquem os cidadãos no centro, e não a manutenção de uma fachada de sucesso. Precisa de instituições que funcionem com transparência, que combatam efetivamente a corrupção, que promovam a meritocracia e que garantam a liberdade de expressão sem condicionamentos. Só assim será possível vestir o rei com dignidade – não com estatísticas manipuladas ou promessas grandiosas, mas com políticas concretas que respondam às necessidades reais da população.
Até lá, o desfile da ilusão continuará. Mas cada vez mais vozes, como na fábula, ousam dizer em uníssono: o rei vai nu.
Praia, 3 de novembro de 2025
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