A inveja em Cabo Verde: sintoma cultural ou obstáculo estrutural?

 

A inveja é um sentimento profundamente enraizado na experiência humana, e em Cabo Verde ela assume contornos que vão muito além do simples ressentimento individual. É um fenómeno social que se manifesta nas relações interpessoais, nas dinâmicas comunitárias e nas estruturas institucionais, influenciando o desenvolvimento do país de maneiras muitas vezes invisíveis, mas decisivas.

A inveja, quando institucionalizada, pode levar à criação de políticas públicas que penalizam o sucesso e desincentivam o investimento, perpetuando um ciclo de mediocridade e conformismo. As redes sociais amplificam este fenómeno, expondo conquistas pessoais a um público amplo que, por vezes, reage com escárnio ou acusações de ostentação. A lógica do “quem se expõe, merece ser atacado” reflete, muitas vezes, uma moralidade distorcida que confunde mérito com arrogância e que transforma a inveja em uma forma de justiça social perversa. Este ambiente digital contribui para a polarização social e para a erosão do tecido comunitário, dificultando a construção de uma cultura de reconhecimento e valorização do mérito.

 

Em sociedades pequenas e interligadas como a cabo-verdiana, onde as redes de convivência são densas e as oportunidades limitadas, a inveja pode transformar-se num obstáculo estrutural que impede a mobilidade social, a inovação e a coesão social. Este sentimento, que Aristóteles definiu como a dor causada pelo bem-estar alheio, é particularmente agudo em contextos onde a igualdade formal não se traduz em oportunidades reais.

 

A inveja, contudo, não é um fenómeno estanque ou imutável. Ela se alimenta das condições sociais, económicas e culturais que a perpetuam, mas também pode ser transformada por meio de políticas públicas eficazes, educação crítica e uma mudança profunda na mentalidade coletiva.

 

Em Cabo Verde, a perceção de que o sucesso é frequentemente resultado de favores, ligações pessoais ou circunstâncias fortuitas alimenta uma cultura de desconfiança e ressentimento. O sucesso do outro, em vez de ser motivo de inspiração, é muitas vezes encarado como uma ameaça ou uma injustiça, criando um ambiente onde a inveja se torna um mecanismo de regulação social que nivela por baixo as aspirações e os esforços individuais. Nas interações quotidianas, a inveja manifesta-se em murmúrios, críticas veladas e na desvalorização das conquistas alheias. Este comportamento não apenas mina a confiança entre os membros da comunidade, mas também desencoraja a iniciativa e a ambição.

 

Historicamente, a formação da sociedade cabo-verdiana, marcada pela escassez de recursos e pela necessidade de solidariedade, criou um contexto onde a inveja se tornou um mecanismo de controle social. A morabeza, valor cultural que enfatiza a hospitalidade e o respeito, convive com tensões geradas pelas desigualdades visíveis e pela competição por recursos limitados. Esta dualidade torna a inveja um fenómeno complexo, que exige uma abordagem que vá além do moralismo e que reconheça as suas raízes estruturais. No plano económico, a inveja tem um impacto direto na inovação e no empreendedorismo. Empresários e profissionais que enfrentam desconfiança e críticas constantes podem sentir-se desencorajados a investir ou a inovar, prejudicando o crescimento económico.

 

A perceção de que o sucesso é fruto de corrupção ou favorecimento mina a confiança nas instituições e nos mercados, criando um ambiente hostil ao desenvolvimento. Para superar este obstáculo, é fundamental promover uma cultura de reconhecimento do mérito e de valorização do esforço individual e coletivo. A educação desempenha um papel central neste processo, ensinando desde cedo que o sucesso do outro pode ser uma fonte de inspiração e uma oportunidade para toda a comunidade. Reformas institucionais que garantam transparência e justiça na atribuição de oportunidades são igualmente essenciais para reduzir a desconfiança e o ressentimento.

 

Além disso, é necessário fomentar o diálogo aberto e construtivo, que permita dissipar preconceitos e mal-entendidos, e valorizar a diversidade de formas de sucesso e contribuição para a sociedade. O fortalecimento da coesão social, através da construção de redes de apoio e confiança, é crucial para criar um ambiente onde a inveja não seja um veneno, mas um impulso para a superação.

 

Em suma, a inveja em Cabo Verde não é apenas um traço cultural, mas um desafio estrutural que exige uma resposta integrada e consciente. Reconhecê-la e enfrentá-la é um passo decisivo para desbloquear o potencial do país e construir uma sociedade mais justa, solidária e próspera. O futuro de Cabo Verde depende da capacidade de transformar a inveja de obstáculo em motor de progresso, através da valorização do mérito, da educação e da construção de uma cultura que celebre o sucesso coletivo como um triunfo de todos.

 

É necessário que Cabo Verde invista na construção de uma narrativa nacional que valorize a solidariedade, o mérito e a cooperação, rompendo com os ciclos de desconfiança e ressentimento que a inveja alimenta. A promoção de espaços de diálogo e participação cidadã pode contribuir para a desconstrução dos preconceitos e para a criação de uma cultura de reconhecimento mútuo. Além disso, o papel dos meios de comunicação social e das redes digitais deve ser repensado para que deixem de ser veículos de polarização e se tornem plataformas de valorização do mérito e do esforço coletivo. A educação, desde os primeiros anos, deve ser orientada para o desenvolvimento de competências socioemocionais que permitam aos indivíduos lidar com sentimentos como a inveja de forma construtiva, transformando-os em motivação para o crescimento pessoal e comunitário.

 

A formação de líderes e agentes de mudança comprometidos com a ética, a transparência e a justiça social é igualmente fundamental para criar um ambiente onde o sucesso seja visto como um bem comum e não como uma ameaça.

 

Em última análise, a superação da inveja em Cabo Verde passa pela construção de uma sociedade mais inclusiva, onde as oportunidades sejam verdadeiramente acessíveis a todos e onde o sucesso individual contribua para o bem-estar coletivo. Este é um desafio complexo que exige a mobilização de todos os setores da sociedade, desde o governo e as instituições até as comunidades locais e os indivíduos. Somente assim será possível transformar a inveja de um obstáculo paralisante em um motor de progresso e desenvolvimento sustentável para Cabo Verde.

 

Não devemos, contudo, esquecer que a ostentação de riqueza constitui o reverso da moeda e deve igualmente ser evitada, sob pena de fomentar sentimentos de inveja.

 

Praia, 04 de dezembro de 2025


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