Cabo Verde: ignorância atrevida e falta de noção do ridículo
Há comportamentos sociais
que, em países pequenos, adquirem uma força e uma visibilidade dificilmente
imagináveis em sociedades maiores e mais complexas, onde tenderiam a diluir-se
no anonimato. Em contextos reduzidos, onde o convívio quotidiano alimenta a
ilusão de uma familiaridade omnisciente, emergem frequentemente os chamados
“especialistas universais”: indivíduos que pouco estudaram a fundo, mas opinam
sobre tudo com uma segurança que, ironicamente, o próprio estudo rigoroso não
costuma permitir. O ignorante atrevido não conhece hesitações e comporta como se fosse autoridade suprema em tudo. E essa ausência de dúvidas, no espaço público,
constitui uma ameaça séria à razoabilidade.Neste ambiente, a fronteira entre o erro e a desfaçatez torna-se ténue. Dizer disparates passa a ser celebrado como coragem; agir sem competência, como ousadia; e a autopromoção ilimitada substitui o mérito e o trabalho árduo. O conhecido efeito Dunning-Kruger – identificado por psicólogos que observaram como os menos competentes tendem a sobrestimar as suas capacidades – encontra aqui terreno fértil. Quanto menos alguém sabe, mais tende a falar como se detivesse o monopólio da verdade. E, num tempo em que as redes sociais amplificam ruído em detrimento de mérito, o ignorante atrevido converte-se facilmente em referência. Assim, a mediocridade não apenas se instala: multiplica-se. Torna-se quase regra de ascensão social. A reflexão é confundida com arrogância; a dúvida, com fraqueza; o esforço para elevar o debate, com elitismo – quando não é simplesmente rotulado. Com isso, o ridículo mata: corrói a ambição de melhorar, desvaloriza a competência e extingue a expetativa de que a seriedade ainda compensa.
A consequência direta desta ignorância atrevida é uma
discussão pública cada vez mais clubística e facciosa. Em vez de pensar,
reage-se; em vez de analisar, alinha-se. Os argumentos deixam de ser apreciados
pela sua substância e passam a ser filtrados pela identidade de quem os
profere: se vem do “nosso”, aplaude-se; se vem do “outro”, rejeita-se
automaticamente. Em sociedades pequenas, onde antagonismos são frequentemente
pessoais, familiares ou territoriais, este vício torna-se devastador:
transforma divergências legítimas em conflitos identitários permanentes. E
quando a política desce a esse terreno, degrada-se velozmente em guerras de
vaidades legitimadas por multidões desinformadas.
Cabo Verde, país insular em que todos dependem do olhar de todos, não escapa a essa lógica. Há quem confunda desfaçatez com inteligência, superficialidade com modernidade e arrogância com competência. Mais grave: a ignorância atrevida e a falta de noção do ridículo tornaram-se traços culturais normalizados, quase celebrados. A vaidade converteu-se em moeda social; o aplauso fácil equivale a capital político. E, como escreveu La Rochefoucauld, “a hipocrisia é a homenagem que o vício presta à virtude” – uma frase que descreve com precisão a forma como certos comportamentos ridículos sobrevivem no país, protegidos por uma camada de pretensa virtude.
Se a literatura universal oferece modelos para pensar a vaidade e a mediocridade em sociedades pequenas, são os escritores cabo-verdianos, conhecedores íntimos da pulsação insular, quem melhor denunciam o fenómeno. Germano Almeida, mestre da sátira social, mostrou repetidas vezes, com humor ácido, que o arquipélago é fértil em personagens que vivem da aparência, da bazófia e da autoimportância caricata. O Testamento do Senhor Napumoceno é, nesse sentido, quase um tratado sobre narcisismo social mascarado de virtude pública. Germano percebeu cedo a proliferação de “Napumocenos”: figuras que falam mais alto do que sabem, que desejam parecer mais do que são e que se levam demasiadamente a sério para a escassa seriedade das suas ações.
Corsino Fortes, um dos poetas maiores de Cabo Verde, por sua vez, expôs com poesia ígnea o desfasamento entre a grandeza sonhada e a pequenez real – não a geográfica, inevitável, mas a moral, expressa na tendência de confundir “ilha” com “reino” e “bairro” com “universo”, reivindicando assim uma autoridade absoluta sobre tudo. O problema não reside no sonhar grande, mas em sonhar grande com ferramentas diminutas e vaidades infladas. Corsino advertia, com lucidez quase profética, que um povo que não se examina torna-se prisioneiro da sua própria pose.
Oswaldo Osório, cronista implacável da arrogância insular, retratou com realismo persistente a soberba microscópica de quem, vivendo num espaço reduzido, se convenceu de que a sua opinião suplanta qualquer estudo, de que a experiência pessoal basta para descartar evidências e de que a proximidade social substitui a competência. A sua crítica mais cortante é simples: numa sociedade pequena, o ridículo não deveria sobreviver – deveria envergonhar. Paradoxalmente, floresce: alimentado por bajulações mútuas, pelo medo do confronto e por cumplicidades sedimentadas.
Em Cabo Verde, o que deveria envergonhar tornou-se espetáculo; o que deveria suscitar reflexão tornou-se rotina; o que deveria ser corrigido transformou-se em marca identitária. E isso corrói, silenciosamente, a base moral do país. Pior: gera uma arrogância desproporcionada à escala nacional. Cabo Verde é pequeno, vulnerável, dependente de fluxos externos e limitado em meios objetivos. Ainda assim, muitos falam como se fosse uma potência regional, como se dispusesse dos recursos do Brasil, da influência de Portugal ou da capacidade militar do Senegal. Esta hipertrofia simbólica –uma espécie de “complexo de grandeza num país microscópico” – conduz a decisões imprudentes, discursos triunfalistas e políticas concebidas para parecer, não para resultar.
A verdade é que, em Cabo Verde, a ignorância atrevida
tem efeitos sociais mais graves do que se admite. O país é demasiado pequeno
para suportar tanta gente que fala antes de pensar, reage antes de analisar e
discute antes de compreender. Quando o debate público se reduz a clubismos,
simpatias pessoais, vingançazinhas, facões e pavoneios, o país entra em paralisia. O espaço social
transforma-se numa arena onde cada um tenta destacar-se não pela qualidade do
argumento, mas pelo volume da voz ou pela quantidade de seguidores.
A ignorância atrevida contamina também as relações
sociais. Num ambiente onde todos observam, comentam e julgam todos, a vigilância
mútua poderia ser um estímulo à responsabilidade; porém, converte-se em
exibicionismo permanente. Prolifera uma cultura em que muitos preferem parecer
competentes a sê-lo; preferem exibir sucesso a construí-lo; preferem errar com
convicção a estudar com humildade.
Este ambiente tem igualmente consequências políticas
relevantes. Quando decisores incorporam esta mistura de ignorância atrevida e
falta de noção do ridículo, instala-se um teatro permanente de autoelogio e
presunção comparativa, muitas vezes sem fundamento objetivo. Os cidadãos são
frequentemente tratados como mentecaptos, enquanto os problemas reais são
relegados, porque a pompa continua a pesar mais do que o conteúdo – e assim o ridículo mata o desenvolvimento.
Não é raro observar o Governo a comportar-se como se o
mundo lhe devesse reverência, sem que tenha realizado o trabalho que
justificaria tal pretensão. Mais grave ainda: entre os seus membros há quem
proclame, com irresponsável grandiloquência, que Cabo Verde tem “dinheiro que nunca
mais acaba” ou que possui “condições para ser mais desenvolvido” do que o país
que é o seu principal credor externo. Hoje, em plena crise crónica de
fornecimento de bens e serviços essenciais como energia, água e transportes interilhas
– cuja
resolução deveria ser prioridade absoluta –, insiste em discursos vazios sobre “nómadas digitais”
ou sobre a “aquisição de drones” para fins vagos e difusos. Enfim, uma autêntica
falta de noção do ridículo!
Num país pequeno como Cabo Verde, a ignorância
atrevida mata: alastra com rapidez, instala-se como cultura, compromete o
funcionamento das instituições e corrói, quase sem se dar por isso, a própria
ideia de bem comum. Pode, contudo, ser enfrentada através de uma educação
exigente, orientada para o pensamento crítico e não para a repetição mecânica;
de lideranças que privilegiem a substância e a competência acima da pose e do
artifício; de uma cidadania vigilante e inconformada, capaz de interpelar em
vez de aplaudir automaticamente; e de uma comunicação social que investigue com
rigor, recusando o papel cómodo de simples caixa de ressonância.
Praia, 10 de dezembro de 2025
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