História do dinheiro e da função do dólar no sistema monetário internacional (ensaio)

Num momento em que a economia global enfrenta tensões geopolíticas, endividamento crescente, inflação persistente e debates sobre desdolarização, compreender as raízes históricas do dinheiro e das moedas hegemónicas tornou-se mais do que um exercício académico: é uma necessidade cívica.

O presente ensaio parte de uma pergunta fundamental: o que é, afinal, o dinheiro? Para responder, revisitamos a sua evolução histórica, desde as primeiras formas de crédito e moeda nas civilizações antigas até aos grandes centros financeiros que moldaram a economia mundial. Em seguida, analisamos como o dólar norte-americano se tornou a principal moeda do mundo, quais os pilares que sustentam essa hegemonia e por que razão ela persiste apesar das previsões recorrentes do seu declínio. Por fim, examinamos os limites e os riscos do atual império monetário, interrogando a sua sustentabilidade num mundo cada vez mais fragmentado e multipolar.

Este ciclo não pretende anunciar o fim de uma era nem oferecer respostas simplistas. Propõe, antes, um olhar histórico e crítico sobre o dinheiro enquanto instrumento de poder, confiança e organização social. Porque compreender a moeda dominante é também compreender as regras visíveis e invisíveis que moldam a economia global e condicionam as escolhas dos países, sobretudo dos mais vulneráveis.

 I – Breves notas sobre a história do dinheiro

A história do dinheiro é inseparável da história da organização social e do poder político. Muito antes de existirem moedas metálicas, notas bancárias ou mercados financeiros formais, as sociedades humanas já dispunham de mecanismos para medir valor, registar obrigações e organizar trocas ao longo do tempo. O dinheiro não surgiu como um simples objeto destinado a facilitar o comércio, mas como uma tecnologia social fundamental para estruturar relações económicas, hierarquias, deveres e expectativas. A sua função original foi menos a de meio de troca e mais a de unidade de conta e instrumento de coordenação social.

Nas civilizações da Mesopotâmia, há mais de cinco mil anos, a cevada e a prata desempenhavam simultaneamente o papel de referência de valor, meio de pagamento e padrão contabilístico. O elemento decisivo não era o bem físico em si, mas a capacidade de registar compromissos. A invenção da escrita permitiu documentar salários, rendimentos, impostos, empréstimos e juros, revelando que o crédito antecedeu largamente a moeda cunhada. O dinheiro nasceu, assim, ligado à administração, à fiscalidade e à autoridade política, e não como resultado espontâneo de trocas de mercado.

A cunhagem de moedas metálicas teve origem na Lídia, reino da Anatólia ocidental, no século VII a.C., com a emissão de moedas em electrum, uma liga natural de ouro e prata, associada às práticas económicas e fiscais do Estado lídio, sendo posteriormente aperfeiçoada, já no século VI a.C., durante o reinado de Creso.[1]

Essa transformação constituiu um marco decisivo ao introduzir, pela primeira vez, um meio de troca oficialmente garantido que combinava padronização, portabilidade e durabilidade, transformando de forma estrutural as relações económicas e fiscais. No mundo grego e, sobretudo, no mundo romano, tal transformação atingiu uma escala inédita. O Império Romano construiu um vasto sistema monetário baseado no denário, que permitiu integrar economias regionais, pagar exércitos profissionais e arrecadar impostos num espaço político alargado. A moeda tornou-se instrumento central de governação imperial, facilitando a circulação de bens, pessoas e recursos financeiros.

Contudo, a experiência romana expôs também uma verdade recorrente na história monetária: a estabilidade da moeda depende da estabilidade do poder que a sustenta. A progressiva degradação do teor metálico das moedas romanas acompanhou a crise fiscal, militar e política do Império. A desvalorização monetária funcionou como solução de curto prazo para problemas estruturais, mas corroeu a confiança e contribuiu para a fragmentação económica. O colapso do sistema monetário romano não foi súbito, mas gradual, ilustrando como a moeda reflete, com atraso, a erosão da autoridade política.

Após a fragmentação do mundo romano, a Europa conheceu uma redução da monetização, mas não um regresso à economia de troca direta. A partir dos séculos XII e XIII, o renascimento urbano e comercial devolveu centralidade ao dinheiro. Cidades-Estado como Florença desempenharam um papel decisivo nessa transformação. O florim florentino tornou-se uma moeda de referência no comércio europeu, não apenas pela qualidade do ouro, mas pela credibilidade das instituições que o emitiam e pela sofisticação do sistema financeiro que o enquadrava.

A banca florentina introduziu inovações que alteraram profundamente a natureza do dinheiro. Letras de câmbio, redes de compensação e contabilidade por partidas dobradas permitiram a circulação de valor sem transporte físico de moeda. O dinheiro tornou-se cada vez mais abstrato, funcionando como promessa registada e como crédito transferível. Este processo marcou uma viragem estrutural: a confiança deslocou-se do conteúdo metálico para a solvabilidade dos emissores e para a estabilidade das regras jurídicas e contratuais.

Essa lógica foi aprofundada no século XVII com a ascensão de Amsterdão. O Banco de Amsterdão, a padronização monetária e a disciplina financeira criaram um ambiente de elevada confiança institucional. A cidade tornou-se o principal centro financeiro da Europa, apoiada no comércio marítimo global, no crédito e numa administração previsível. O dinheiro funcionava sobretudo como registo contabilístico fiável, reduzindo incertezas e custos de transação. A experiência holandesa consolidou a ideia de que a supremacia monetária depende mais de instituições credíveis do que de recursos naturais.

No século XVIII e XIX, Londres assumiu esse papel de forma ainda mais abrangente. A libra esterlina tornou-se a principal moeda internacional, sustentada pelo Império Britânico, pelo padrão-ouro e pela City de Londres enquanto centro financeiro global. A moeda britânica funcionou simultaneamente como meio de pagamento, unidade de conta e reserva de valor do comércio mundial. A hegemonia monetária britânica refletia a supremacia naval, comercial, industrial e institucional do Reino Unido, bem como a profundidade dos seus mercados financeiros.

O século XX marcou uma rutura decisiva. As guerras mundiais e a Grande Depressão expuseram os limites do padrão-ouro e de uma ordem monetária excessivamente rígida. O dinheiro passou a ser entendido como instrumento ativo de política económica. Os Estados assumiram um papel central na gestão monetária, e os bancos centrais tornaram-se instituições-chave na estabilização das economias, no financiamento da atividade produtiva e na gestão de crises. A moeda afastou-se definitivamente do metal precioso e tornou-se fiduciária, sustentada por autoridade política e confiança social.

A história do dinheiro é, assim, uma sucessão de centros monetários – Roma, Florença, Amsterdão, Londres – em que cada moeda dominante reflete a capacidade produtiva, institucional e política do seu tempo. O dinheiro nunca foi neutro. Foi sempre instrumento de poder, meio de coordenação social e espelho das hierarquias económicas. Como sublinhou Karl Polanyi[2], o dinheiro é uma instituição social, inseparável das estruturas políticas que o sustentam.

No mundo contemporâneo, dominado por sistemas digitais, finanças globalizadas e mercados interligados, essa lógica mantém-se. O dinheiro continua a ser uma promessa institucional. Sem confiança, não há moeda que resista; sem autoridade política legítima, não há confiança duradoura. Compreender a história do dinheiro é compreender como as sociedades organizam poder, distribuem riscos e projetam o futuro. Ignorar essa dimensão histórica é abdicar de compreender um dos pilares fundamentais da vida coletiva.

 II – Como o dólar se tornou a principal moeda do mundo?

O domínio do dólar norte-americano no sistema monetário internacional não é um acidente histórico, nem o simples resultado da dimensão económica dos Estados Unidos. Tal como aconteceu com as grandes moedas do passado, a sua ascensão resulta de uma conjugação específica de fatores económicos, institucionais, políticos e geoestratégicos, acumulados ao longo do tempo. O dólar insere-se numa longa linhagem de moedas hegemónicas – do denário romano à libra esterlina – que refletem a capacidade de uma potência estruturar o comércio, as finanças e a confiança internacionais.

No início do século XX, a libra esterlina desempenhava ainda o papel de principal moeda do mundo. Sustentada pelo Império Britânico, pelo padrão-ouro e pela centralidade de Londres como praça financeira global, a libra funcionava como meio de pagamento, unidade de conta e reserva de valor do comércio internacional. Contudo, as duas guerras mundiais alteraram profundamente esse equilíbrio. O Reino Unido saiu enfraquecido, com elevados níveis de endividamento, perda de capacidade produtiva e erosão da sua posição externa. Os Estados Unidos, pelo contrário, emergiram como credor global, com uma base industrial intacta e uma capacidade produtiva sem paralelo.

Esse novo equilíbrio de poder foi formalizado na Conferência de Bretton Woods, em 1944. O sistema então criado consagrou o dólar como moeda de referência internacional, convertível em ouro, enquanto as restantes moedas se ancoravam a ele. Mais do que um arranjo técnico, Bretton Woods representou um compromisso político: os Estados Unidos assumiam a liderança da ordem económica do pós-guerra, oferecendo estabilidade monetária, financiamento à reconstrução e abertura do seu mercado, em troca da centralidade da sua moeda. A criação do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial reforçou essa arquitetura, institucionalizando um sistema que combinava cooperação multilateral e hegemonia norte-americana.

Durante as décadas seguintes, o dólar consolidou-se como eixo central do sistema monetário internacional. Bancos centrais acumularam reservas em dólares, o comércio internacional passou a ser maioritariamente denominado nessa moeda e os mercados financeiros globais organizaram-se em torno de ativos norte-americanos. Mesmo quando o sistema começou a mostrar sinais de tensão, nos anos 1960, o papel do dólar manteve-se central, precisamente porque não existia alternativa credível com escala comparável.

O abandono da convertibilidade em ouro, em 1971, foi interpretado por muitos como o início do declínio do dólar. No entanto, essa decisão revelou a verdadeira natureza da hegemonia monetária norte-americana. O dólar deixou de estar ancorado num metal precioso e passou a assentar num sistema fiduciário global sustentado por instituições, mercados financeiros profundos, segurança jurídica e poder geopolítico. Longe de enfraquecer a moeda, essa transformação ampliou a sua flexibilidade e a sua centralidade.

A partir desse momento, o sistema monetário internacional passou a girar em torno da capacidade dos Estados Unidos emitirem ativos seguros em grande escala. Os títulos do Tesouro norte-americano tornaram-se o principal ativo de reserva do mundo, não por ausência de risco, mas por ausência de alternativa com igual liquidez, profundidade e previsibilidade. Nova Iorque consolidou-se como o principal centro financeiro global, desempenhando um papel semelhante ao de Londres no século XIX, mas à escala de uma economia mundial muito mais integrada.

O estatuto do dólar confere aos Estados Unidos um privilégio singular: a capacidade de financiar défices externos e orçamentais de forma persistente, emitindo dívida na sua própria moeda. Esse privilégio permite adiar ajustamentos que seriam inevitáveis noutras economias, projetar poder económico além-fronteiras e influenciar a arquitetura financeira global. Ao mesmo tempo, gera desequilíbrios estruturais, incentiva a financeirização da economia e transfere parte dos custos de ajustamento para o resto do mundo.

O chamado império do dólar não se limita à moeda em circulação. Assenta numa vasta infraestrutura de pagamentos, num sistema bancário global interligado e numa rede de alianças políticas e militares que reforçam a confiança no sistema. O Federal Reserve[3] desempenha um papel central, atuando como fornecedor global de liquidez em momentos de crise. Como sublinhou Charles Kindleberger[4], a estabilidade de um sistema financeiro internacional depende da existência de uma potência disposta e capaz de fornecer bens públicos globais – liquidez, coordenação e credibilidade. Nas crises recentes, foi o dólar que desempenhou esse papel.

Paradoxalmente, quanto maior a instabilidade global, maior tende a ser a procura por dólares. Em momentos de crise financeira, tensões geopolíticas ou incerteza sistémica, investidores e bancos centrais recorrem ao dólar como ativo de refúgio. Esta dinâmica explica por que razão sanções, conflitos e choques financeiros, longe de minarem imediatamente a hegemonia do dólar, acabam muitas vezes por reforçá-la no curto prazo.

Apesar disso, a centralidade do dólar tem sido crescentemente questionada. O euro surgiu, no final do século XX, como potencial rival, mas a fragmentação política europeia, a ausência de um verdadeiro mercado de dívida comum durante muitos anos e a falta de uma autoridade fiscal central limitaram o seu alcance internacional. O yuan chinês ganhou peso no comércio e nas reservas, mas permanece condicionado por controlos de capital, menor transparência institucional e dúvidas quanto à previsibilidade jurídica.

Como observa Barry Eichengreen[5], as moedas globais beneficiam de uma forte inércia histórica. A substituição de uma moeda dominante não ocorre por decisão política isolada, nem por simples crescimento económico. Exige mercados financeiros profundos, confiança institucional, abertura de capitais e capacidade de absorver choques globais. Nenhuma moeda reúne ainda, de forma consistente, esse conjunto de atributos.

O dólar tornou-se a principal moeda do mundo não apenas porque os Estados Unidos são a maior economia ou a principal potência militar, mas porque conseguiram construir, ao longo de décadas, uma arquitetura institucional e financeira que transformou a sua moeda num bem público global. Essa centralidade não é isenta de custos nem de contradições, mas continua a estruturar o funcionamento do sistema monetário internacional.

Compreender como o dólar alcançou esse estatuto é compreender que as moedas dominantes são produtos históricos, sustentados por poder, instituições e confiança acumulada. Tal como aconteceu com Roma, Florença, Amsterdão e Londres, a hegemonia monetária norte-americana reflete uma configuração específica de forças. A questão decisiva já não é saber por que razão o dólar domina, mas até quando e a que custo – tema que será explorado a seguir.

 III – Os limites e os riscos do império monetário

 

Nenhuma hegemonia monetária é eterna. A história do dinheiro mostra que toda a moeda dominante carrega, desde o momento da sua ascensão, os fatores que mais tarde limitarão o seu poder. O império do dólar, apesar da sua notável resiliência, não foge a esta regularidade histórica. O debate contemporâneo não reside tanto na previsão de um colapso iminente, mas na identificação dos limites estruturais, dos riscos sistémicos e das tensões políticas que acompanham a centralidade prolongada de uma moeda global.

 

Um dos principais limites do império monetário reside nos desequilíbrios que gera no próprio país emissor. A capacidade de financiar défices externos e orçamentais em moeda própria constitui um privilégio singular, mas também uma fonte de distorções profundas. Ao longo do tempo, esse privilégio incentiva o endividamento persistente, a sobrevalorização da moeda e a deslocação de recursos da economia produtiva para o setor financeiro. Tal como ocorreu em impérios monetários anteriores, a vantagem externa tende a traduzir-se em fragilidade interna, com impactos na estrutura industrial, no emprego e na coesão social.

 

A hegemonia do dólar contribuiu para a financeirização da economia norte-americana, reforçando a centralidade dos mercados financeiros e dos ativos em detrimento da produção. Este fenómeno não é exclusivo dos Estados Unidos, mas assume aí uma escala particular, precisamente porque o mundo inteiro absorve dólares, títulos do Tesouro e ativos financeiros denominados nessa moeda. O custo social dessa configuração manifesta-se em desigualdades crescentes, estagnação salarial relativa e tensões políticas internas que, por sua vez, afetam a previsibilidade do sistema.

 

Outro risco estrutural decorre da utilização crescente do sistema monetário como instrumento de política externa. O controlo das infraestruturas financeiras globais – sistemas de pagamentos, liquidação interbancária, acesso a mercados de capitais – transformou o dólar numa poderosa arma geopolítica. Sanções financeiras, congelamento de reservas soberanas e exclusão de países do sistema internacional passaram a ser instrumentos centrais da política externa contemporânea.

 

A decisão de congelar ativos externos de Estados soberanos representou um ponto de inflexão simbólico. Demonstrou, de forma inequívoca, que reservas denominadas em dólares não são apenas instrumentos económicos, mas ativos politicamente condicionados. Esse precedente teve um impacto profundo na perceção de risco de muitos países, sobretudo daqueles que não integram o núcleo político do sistema liderado pelos Estados Unidos. A confiança, pilar essencial de qualquer ordem monetária, passou a ser reavaliada à luz de considerações geopolíticas.

 

Este contexto acelerou debates e iniciativas de desdolarização. Importa, contudo, distinguir entre retórica política e transformação estrutural. Não estamos perante o colapso do dólar, mas perante uma erosão gradual da sua centralidade exclusiva. Vários países reforçaram as reservas de ouro, diversificaram ativos externos e ampliaram o uso de moedas locais em acordos bilaterais. A China tem promovido ativamente o uso internacional do yuan, tanto no comércio como em mecanismos financeiros regionais. Países exportadores de energia discutem contratos noutras moedas, e blocos como os BRICS exploram sistemas alternativos de compensação.

 

Estes movimentos não criam, por si só, uma nova moeda hegemónica. Criam, isso sim, um sistema mais fragmentado, com múltiplos centros parciais de liquidação e reserva. A História sugere que essa fragmentação aumenta a complexidade e a instabilidade do sistema, sobretudo em períodos de choque. A ausência de uma moeda claramente dominante pode reduzir dependências, mas também dificulta a coordenação e a gestão de crises globais.

 

Há ainda riscos sistémicos associados à transmissão automática da política monetária norte-americana para o resto do mundo. A centralidade do dólar implica que decisões tomadas pelo Federal Reserve, com base em condições internas, tenham efeitos profundos em economias que não participam nessas decisões. Subidas abruptas das taxas de juro provocam fugas de capitais, crises cambiais e dificuldades de financiamento em países endividados em dólares. Para muitas economias periféricas, o ciclo monetário norte-americano traduz-se em instabilidade recorrente e perda de margem de manobra.

 

Esta assimetria levanta questões de legitimidade. Um sistema monetário global que depende das decisões de uma autoridade nacional enfrenta limites políticos evidentes. Como observou Charles Kindleberger[6], a estabilidade de um sistema internacional exige liderança, mas essa liderança implica responsabilidades. Quando a potência hegemónica privilegia interesses domésticos de curto prazo em detrimento da estabilidade global, o sistema torna-se mais vulnerável.

 

A História oferece paralelos elucidativos. Roma recorreu à desvalorização monetária para financiar a expansão imperial, corroendo gradualmente a confiança no denário. Amsterdão perdeu centralidade quando o eixo do comércio global se deslocou e a sua capacidade de projetar poder diminuiu. Londres manteve a libra como moeda internacional durante décadas após o declínio relativo do Reino Unido, mas acabou por ceder perante a exaustão económica e militar do pós-guerra. Em todos estes casos, o declínio monetário foi lento, cumulativo e marcado por crises sucessivas.

 

O maior risco do império monetário contemporâneo não é, portanto, um colapso abrupto, mas a erosão silenciosa da legitimidade. Quando a moeda dominante deixa de ser percebida como bem público global e passa a ser vista como instrumento de poder unilateral, a confiança enfraquece. E sem confiança, nenhuma moeda – por mais líquida, difundida ou institucionalmente apoiada – consegue sustentar indefinidamente o seu estatuto.

 

Como lembraria Karl Polanyi, os sistemas económicos não sobrevivem quando se desligam das bases sociais e políticas que lhes conferem legitimidade. Um sistema monetário global que gera assimetrias persistentes, expõe países a choques externos recorrentes e instrumentaliza a moeda como arma política acaba por enfrentar resistência, mesmo que essa resistência se manifeste de forma gradual e fragmentada.

 

O futuro do sistema monetário internacional dependerá da capacidade de gerir uma transição para uma ordem mais multipolar sem ruturas desestabilizadoras. Isso exigirá reformas institucionais, maior coordenação entre grandes economias e reconhecimento de que a estabilidade monetária é um bem público global, não um subproduto da hegemonia nacional. Até lá, o dólar continuará a ocupar o centro do sistema, não por ausência de riscos, mas por ausência de alternativas plenamente credíveis.

 

A história do dinheiro ensina que o poder monetário é sempre provisório. As moedas dominantes duram enquanto conseguem combinar confiança, capacidade económica e legitimidade política. Ignorar os limites do império monetário não o torna mais sólido; pelo contrário, é frequentemente o primeiro passo para acelerar a sua erosão. É nessa tensão entre permanência e declínio que se joga o futuro do sistema monetário internacional.

 

Praia, 13 de janeiro de 2026



[1] Cf. Heródoto, Histórias, I; Ian Carradice & Martin Price, Coinage in the Greek World (1988); B. V. Head, Historia Numorum (1911).

[2] Karl Polanyi, The Great Transformation: The Political and Economic Origins of Our Time (Boston: Beacon Press, 1944), especialmente cap. 4, onde o autor sustenta que o dinheiro é uma instituição social indissociável das estruturas políticas e do poder estatal que lhe conferem validade.

[3] Banco Central dos Estados Unidos.

[4] Charles Kindleberger, The World in Depression, 1929–1939 (Berkeley: University of California Press, 1973).

[5] Barry Eichengreen, Exorbitant Privilege: The Rise and Fall of the Dollar and the Future of the International Monetary System (Oxford: Oxford University Press, 2011).

[6] Charles Kindleberger, The World in Depression, 1929–1939 (Berkeley: University of California Press, 1973).


 

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Como a desigualdade alimenta o populismo, segundo o Nobel de Economia 2025

A miséria da ideologia de direita e de esquerda em Cabo Verde

Ensaio Kafkiano sobre a Ignorância, Mediocridade, Inveja e Maldade Gratuita