Dez anos de governação ventoinha: o rei vai nu*
A
intemporalidade de certas narrativas reside na sua capacidade de expor verdades
inconvenientes com uma clareza quase brutal. O conto “O Rei Vai Nu”,
popularizado por Hans Christian Andersen em 1837, ilustra essa realidade,
encontrando uma pertinência inquietante na governação cabo-verdiana entre 2016 e
2026. Uma década após as promessas de rutura e de uma era de modernidade e
prosperidade, a realidade política em Cabo Verde assemelha-se a um espetáculo
de ilusionismo, onde a dissonância entre o discurso oficial e a vivência
quotidiana se tornou abissal.Em 2016, a oposição ascendeu ao poder sob a bandeira da diversificação económica, visando superar a dependência do turismo e das remessas, e transformar o país num “hub" aéreo, marítimo e digital de relevo internacional. A retórica centrava-se na despartidarização, transparência e meritocracia da administração pública, encapsulada no aforismo “Cabo Verde tem solução”.
Contudo, após quase uma década, o balanço é marcado por uma profunda frustração e desconfiança popular. O tão alardeado “milagre económico” não se materializou. Em contraste com a projeção de 7% de crescimento médio anual, o país registou apenas 3,33% entre 2016 e 2024. A dívida pública expandiu-se de forma preocupante, comprometendo a sustentabilidade orçamental. O custo de vida ascendeu vertiginosamente, erodindo o poder de compra das famílias. A dependência estrutural do turismo persistiu, expondo a economia a choques externos como a pandemia de COVID-19 e a guerra na Ucrânia. Embora inegáveis, estes eventos não podem servir de escusa para a inação na implementação de políticas de resiliência e diversificação que deveriam ter sido iniciadas muito antes. Projetos infraestruturais essenciais, nomeadamente os aeroportos internacionais de Santo Antão, Fogo e Maio, o Hospital Nacional e a expansão e modernização do porto do Porto Novo, ficaram confinados ao anúncio público, sem execução efetiva, sendo adiados ou substancialmente reduzidos. A magnificência das promessas contrasta ostensivamente com a modéstia das concretizações, revelando a nudez da governação, tal como na fábula do rei.
O setor do emprego personifica, talvez de forma mais aguda, o desfasamento entre o prometido e o alcançado. A promessa de 45.000 novos postos de trabalho resultou num saldo líquido de apenas 4.429 entre 2016 e 2024. Este cenário conduziu jovens licenciados a estágios não remunerados, empregos precários ou à inevitável emigração. A “fuga de cérebros” tornou-se uma constante, privando o país de quadros qualificados e hipotecando o seu futuro. A alegada redução do desemprego é frequentemente sustentada por uma proliferação de emprego informal, precário e desprovido de proteção social.
A saga da TACV, rebatizada Cabo Verde Airlines, é um paradigma de má gestão: reestruturações falhadas, privatizações malconduzidas e intervenções públicas onerosas. O ambicionado “hub” aéreo internacional desvaneceu-se, legando um rasto de prejuízos aos contribuintes. No domínio marítimo, as ligações interilhas permanecem erráticas, dispendiosas e ineficazes, comprometendo a coesão territorial e o desenvolvimento regional. A mobilidade, um direito fundamental em contexto arquipelágico, transformou-se num obstáculo quotidiano. No setor da saúde, os hospitais continuam subequipados, com escassez de profissionais especializados e listas de espera intermináveis. As evacuações médicas para o exterior persistem como solução de recurso. Na educação, apesar de alguns indicadores oficiais sugerirem melhorias, a qualidade do ensino degrada-se, manifestando-se em défices de aprendizagem e na frustração de docentes e encarregados de educação. O discurso da excelência não encontra lastro na realidade.
A prometida despartidarização nunca se concretizou, tendo, pelo contrário, a partidarização se agravado. O nepotismo e o compadrio tornaram-se práticas rotineiras, relegando a meritocracia para segundo plano e marginalizando a sociedade civil. Instalou-se um clima de receio e censura velada, onde a lealdade partidária sobrepuja a competência. A confiança dos cidadãos nas instituições do Estado, outrora um pilar da estabilidade democrática cabo-verdiana, encontra-se profundamente corroída. A perceção generalizada aponta para uma justiça morosa e suscetível a influências, concursos públicos frequentemente viciados, uma fiscalização seletiva e uma impunidade da corrupção. Esta erosão da confiança transcende o plano moral, minando a coesão social, fragilizando a democracia e alimentando o cinismo coletivo. A descrença nas instituições fomenta a indiferença, a resignação ou a fuga, seja através da emigração, seja pela retração da participação cívica.
A gestão da coisa pública padece de uma crónica falta de transparência. Relatórios incompletos, contratos opacos, adjudicações diretas e a ausência de um escrutínio parlamentar efetivo alimentam a perceção de que o Estado serve mais interesses instalados do que o bem comum. A corrupção, frequentemente disfarçada sob o manto da legalidade formal, infiltra-se em múltiplos níveis, desde pequenos favores até decisões estratégicas que beneficiam círculos restritos. O nepotismo, por sua vez, tornou-se uma prática banalizada, com cargos de responsabilidade a serem preenchidos por familiares, amigos ou militantes fiéis, independentemente da sua competência. Esta lógica de distribuição de favores compromete a eficiência da administração pública e perpetua um sistema de dependência e lealdade que sufoca a inovação e a crítica.
A liberdade de expressão, embora formalmente garantida, enfrenta condicionamentos subtis, mas eficazes. Jornalistas reportam pressões, ameaças veladas e dificuldades de acesso à informação. A autocensura instala-se nos meios de comunicação, dependentes de publicidade estatal ou de interesses privados próximos do poder. Nas redes sociais, proliferam campanhas de difamação, ataques coordenados e tentativas de silenciamento de vozes críticas. Este ambiente tolera a crítica apenas até certo ponto, estigmatizando o dissenso como antipatriótico ou destrutivo. A democracia, sem liberdade de expressão plena, esvazia-se, transformando o ritual eleitoral numa fachada. Perante este cenário, o Governo recorre ao expediente do “martelamento estatístico”. Dados desatualizados, comparações artificiais e rankings internacionais são mobilizados para sustentar uma narrativa de sucesso. A estatística, que deveria ser um instrumento de planeamento, é pervertida em ferramenta de propaganda, desacreditando as instituições produtoras de dados e alimentando o cinismo coletivo.
Quando a narrativa oficial se distancia da experiência concreta dos cidadãos instala‑se a sensação de que o poder ignora e até despreza a inteligência popular. Em 2026, Cabo Verde surge suspenso entre o delírio de um futuro radioso – repetidamente adiado – e a frustração de um presente negligenciado. A governação converteu‑se num exercício contínuo de marketing, em que a imagem prevalece sobre a substância. Ainda assim, os cidadãos conseguem distinguir retórica de realidade; essa lucidez mantém viva a metáfora do rei que desfila nu e que todos, afinal, veem.
Praia, 21 de fevereiro de 2026
*Artigo de opinião publicado no jornal A Nação, edição n.º 965, de 26 de fevereiro de 2026
Comentários
Enviar um comentário