Ascensão económica e social da China e lições para Cabo Verde (parte 2)*

 

No domínio das infraestruturas e da organização do território, a comparação é igualmente dolorosa. A China utilizou a construção de infraestruturas – portos, aeroportos, redes ferroviárias de alta velocidade e infraestruturas digitais – como alavanca deliberada para a integração do mercado interno e a redução dos custos de contexto, numa lógica de conectividade funcional. Em Cabo Verde, a política de infraestruturas tem sido, demasiadas vezes, guiada pela lógica da “obra de fachada”, do betão visível que rende votos no curto prazo, em detrimento da racionalidade económica e da sustentabilidade financeira. O país contraiu dívidas avultadas para erguer infraestruturas que, em muitos casos, se encontram subutilizadas ou carecem de modelos de gestão eficientes.

O exemplo mais paradigmático e vergonhoso desta incompetência estratégica reside no dossiê dos transportes marítimos e aéreos interilhas. Cinquenta anos após a independência, é incompreensível e inaceitável que um país arquipelágico não tenha conseguido, ainda, garantir um sistema de mobilidade fiável, regular e acessível entre as suas ilhas. A descontinuidade territorial, que deveria ser o foco central de qualquer política de Estado, continua a ser um entrave maior ao desenvolvimento do turismo, do comércio interno e da coesão nacional, fruto de décadas de modelos falhados, concessões mal negociadas, subsídios opacos e de uma incapacidade confrangedora de regulação estatal. Enquanto a China constrói pontes sobre mares e túneis através de montanhas em tempo recorde, Cabo Verde debate-se, década após década, com a incapacidade de manter um navio ou um avião a ligar as suas ilhas de forma previsível – um falhanço que reflete a ausência de planeamento integrado e a primazia de interesses opacos sobre o bem comum.

Para além das questões técnicas e administrativas, há uma dimensão sociopolítica que distingue a trajetória das duas nações e que merece reflexão crítica profunda: a qualidade da participação cívica e o ambiente intelectual. Paradoxalmente, embora Cabo Verde seja uma democracia em fase de amadurecimento e a China um regime autoritário, a sociedade civil cabo-verdiana encontra-se excessivamente coartada e condicionada por uma polarização política tóxica. O espaço público em Cabo Verde foi sequestrado pelas máquinas partidárias, criando um ambiente de “nós contra eles” que inibe o pensamento independente e a crítica construtiva. Existe uma autocensura latente que permeia a sociedade: empresários receiam perder contratos com o Estado se criticarem o governo, académicos evitam temas sensíveis para não comprometerem as suas carreiras, e cidadãos comuns hesitam em exprimir opiniões divergentes com receio de represálias ou exclusão social. O Estado, sendo o principal empregador formal e o principal cliente da economia, exerce um poder desproporcional de cooptação e de silenciamento.

Esta atmosfera asfixiante comprime a participação cívica e impede que os melhores talentos contribuam para a solução dos problemas nacionais. A meritocracia é sacrificada no altar da lealdade partidária, e o país perde a sua capacidade de autoanálise e de correção de rumo. Na China, apesar da censura política, existe um debate intenso e pragmático dentro dos círculos técnicos e académicos sobre as melhores soluções para o desenvolvimento económico; em Cabo Verde, o debate é frequentemente reduzido a questiúnculas partidárias estéreis, personalizadas e desprovidas de conteúdo programático, onde a preocupação central é a manutenção ou a conquista do poder, e não a resolução dos problemas estruturais do país.

A dependência externa é outro fator onde a divergência se acentua. A China soube utilizar o investimento estrangeiro e a abertura ao mundo como ferramentas para fortalecer a sua soberania, exigindo transferências de tecnologia e capacitação local. Cabo Verde, após meio século, continua perigosamente dependente da ajuda pública ao desenvolvimento, das remessas dos emigrantes e de um turismo de massas dominado por operadores externos, com pouca incorporação de valor nacional. A diplomacia económica cabo-verdiana, embora ativa, carece muitas vezes da sofisticação e da firmeza necessárias para negociar acordos que protejam efetivamente o interesse nacional a longo prazo.

A relação com a própria China é exemplo disso: sendo benéfica em termos de infraestruturas visíveis, levanta questões sobre o endividamento e sobre a efetiva transferência de “know-how” para os quadros cabo-verdianos. Falta a Cabo Verde uma estratégia de inserção internacional que vá além da mão estendida – uma postura que valorize a sua posição geoestratégica no Atlântico Médio não apenas como slogan, mas como ativo económico tangível, capaz de gerar riqueza endógena e reduzir a vulnerabilidade a choques externos.

Em suma, a análise comparativa entre a trajetória da China e os cinquenta anos de independência de Cabo Verde expõe, de forma crua, as fragilidades de um modelo de desenvolvimento que, apesar dos ganhos inegáveis em democracia formal e liberdade, falhou na construção de um Estado eficiente, meritocrático e estratega. O “milagre” chinês ensina-nos que o desenvolvimento não ocorre por geração espontânea, nem se decreta em discursos de circunstância; é, antes, o produto de uma visão de longo prazo, de uma disciplina executiva consistente e de uma cultura de exigência que premeia a competência e pune a mediocridade. Não se trata de copiar, mas de aprender com quem soube transformar limitações em oportunidades e construir, com pragmatismo e visão, um caminho próprio para o desenvolvimento.

Importa, contudo, reconhecer os limites da comparação. A escala demográfica, o modelo político, os recursos naturais e a inserção geopolítica da China são incomparáveis com os de Cabo Verde. A transposição mecânica de soluções seria não só ineficaz como contraproducente. O que se propõe é uma leitura crítica e seletiva da experiência chinesa, capaz de inspirar políticas públicas mais ambiciosas, coerentes e adaptadas à realidade cabo-verdiana. A China não oferece um modelo único, mas sim um repertório de práticas que podem ser reinterpretadas à luz dos valores, capacidades e objetivos nacionais.

Cabo Verde encontra-se numa encruzilhada histórica perigosa. A persistência num modelo de governação marcado pela partidarização excessiva da administração, pela degradação do ensino, pelo nepotismo e pela ausência de consensos estratégicos condenará o arquipélago a uma estagnação secular e à irrelevância. O país necessita, urgentemente, de uma rutura paradigmática – de uma reforma do Estado que vá além da cosmética e que tenha a coragem de enfrentar os interesses instalados. É imperativo despartidarizar a Administração Pública, blindando-a da voracidade dos ciclos eleitorais; é urgente refundar o sistema educativo com base na qualidade e na exigência; é vital promover uma cultura de mérito em que os “boys” cedam lugar aos melhores quadros produzidos pelo país, tanto nas ilhas como na diáspora.

Praia, 28 de março de 2026

*Artigo publicado no jornal A Nação, edição n.º 970, de 02 de abril de 2026 


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