Poderá a China ultrapassar os EUA e liderar a economia mundial?*

 

Nas últimas quatro décadas, a China deixou de ser apenas a “fábrica do mundo” para se afirmar como um ecossistema profundamente integrado, em que a investigação científica, a engenharia aplicada, a rede de fornecedores industriais e a capacidade produtiva operam de forma articulada e sinérgica. A magnitude desta transformação é tal que, hoje, a questão já não é se a China ultrapassará os Estados Unidos da América (EUA) como a maior economia mundial, mas quando – convertendo esse debate num exercício de análise estrutural, mais do que de futurologia.

Na verdade, a evolução recente da economia chinesa, apesar das fragilidades conjunturais, confirma que o país já consolidou uma posição de poder sistémico que transcende o PIB nominal e se projeta através da indústria, da tecnologia, das cadeias de valor e da geoeconomia. A questão central é, portanto, temporal e condicional: em que circunstâncias e com que velocidade a China converterá o seu peso material em primazia económica global. As projeções internacionais mais recentes, embora divergentes nos prazos, convergem num ponto essencial: a ultrapassagem é plausível, provável e, em determinados cenários, praticamente inevitável.

 

Segundo o FMI, a economia chinesa deverá crescer entre 4% e 4,5% em 2025, desacelerando gradualmente para valores próximos de 3% na década seguinte. Os EUA, por seu lado, deverão estabilizar entre 1,6% e 2%. Em termos de paridade do poder de compra, a China já é a maior economia do mundo desde 2014, representando cerca de 18,6% do PIB global, contra 15,5% dos EUA. Em PIB nominal, a diferença permanece significativa, mas a distância relativa tem vindo a diminuir: em 2000, a economia americana era oito vezes maior; hoje é apenas 1,4 vezes superior. Mesmo com um crescimento mais moderado, a China continua a expandir-se a um ritmo que, em termos acumulados, tende a produzir convergência. A OCDE estima que, num cenário de continuidade das tendências atuais, a China poderá ultrapassar os EUA em PIB nominal entre 2035 e 2040; num cenário mais dinâmico, esse ponto de viragem poderá ocorrer antes de 2032.

 

Mas a análise não se esgota no PIB. A China tornou-se o centro gravitacional da indústria global. Controla mais de 30% da produção manufatureira mundial, domina segmentos críticos como baterias, energia solar, veículos elétricos e a refinação de minerais estratégicos, e é responsável por mais de metade da capacidade global de processamento de lítio, níquel e terras raras. Em 2025, a China exportou mais automóveis do que qualquer outro país, ultrapassando o Japão e a Alemanha, e consolidou a sua posição como maior exportador mundial de bens de alta tecnologia. A Nova Rota da Seda, apesar de críticas e reestruturações, ampliou a influência chinesa sobre infraestruturas estratégicas em mais de 150 países, reforçando a dependência logística e financeira de grande parte do Sul Global.

 

No domínio tecnológico, a narrativa ocidental de que a China está a perder terreno não resiste a uma leitura rigorosa dos dados. O país lidera em número de patentes registadas, forma mais engenheiros por ano do que os EUA e a Europa combinados e investe mais de 2,6% do PIB em investigação e desenvolvimento – valor que, em termos absolutos, já rivaliza com o investimento norte-americano. Em áreas como inteligência artificial, computação quântica, telecomunicações e energias renováveis, a China não é apenas competitiva: é estruturalmente indispensável. A liderança global em 5G, a expansão das empresas de semicondutores de segunda linha e a rápida substituição de importações tecnológicas evidenciam uma capacidade de adaptação que contraria a ideia de que as restrições (tarifas e políticas defensivas) impostas pelos EUA e pela Europa seriam suficientes para travar o avanço chinês.

 

A geoeconomia reforça esta tendência. A China é o maior parceiro comercial de mais de 120 países e detém reservas cambiais superiores a 3 biliões de dólares dos EUA (USD), o que lhe confere uma margem de manobra financeira significativa. O yuan ainda não é uma moeda de reserva global, mas a sua utilização no comércio internacional duplicou na última década, impulsionada por acordos bilaterais e pela crescente – ainda que parcial – desdolarização de economias emergentes. A criação de sistemas alternativos de pagamentos, como o CIPS, e a expansão dos bancos de desenvolvimento liderados pela China – nomeadamente o AIIB e o Novo Banco de Desenvolvimento dos BRICS – contribuem para a formação de um ecossistema financeiro menos dependente do USD.

 

Esse quadro sugere que a China está a edificar as bases para se afirmar como a principal economia mundial, não apenas pela dimensão do seu mercado, mas sobretudo pela rapidez com que converte conhecimento em inovação com impacto económico.

 

Contudo, a trajetória chinesa não está isenta de riscos. A crise imobiliária, que representa cerca de 25% do PIB, continua a constituir uma vulnerabilidade estrutural. A demografia é um desafio ainda mais profundo: a população chinesa começou a diminuir e poderá perder cerca de 100 milhões de habitantes até 2050. A produtividade, embora elevada em setores de ponta, permanece desigual entre regiões e indústrias. A dívida das administrações locais e a necessidade de reequilibrar o modelo económico em direção ao consumo interno são obstáculos relevantes. Ainda assim, tais riscos, embora significativos, não anulam a tendência de fundo: a China tem demonstrado uma capacidade histórica de reconfigurar o seu modelo económico quando confrontada com constrangimentos estruturais.

 

O que distingue a China não é apenas o crescimento, mas a coerência estratégica. Enquanto os EUA enfrentam ciclos políticos voláteis, a China opera com planeamento de longo prazo, metas industriais claras e uma articulação entre Estado, empresas públicas e setor privado que, apesar de tensões internas, produz resultados tangíveis. A nova vaga de industrialização verde, apoiada por subsídios significativos e por uma capacidade produtiva quase ilimitada, está a reposicionar o país como fornecedor global de tecnologias essenciais para a transição energética, moldando o mercado mundial.

 

Se a China estabilizar o setor imobiliário, continuar a avançar na inovação tecnológica e mantiver a sua posição dominante na indústria verde, a ultrapassagem dos EUA será uma questão de tempo – e não de possibilidade. Mesmo que o PIB nominal demore mais a convergir, o poder económico efetivo da China já se manifesta na forma como condiciona mercados, regula fluxos, define padrões tecnológicos e influencia decisões estratégicas de governos e empresas em todo o mundo.

 

Assim, a questão de saber quando a China será a primeira economia mundial depende menos de projeções lineares e mais da interação entre três fatores: a capacidade chinesa de gerir os seus riscos internos, a evolução da política económica norte-americana e a dinâmica das cadeias de valor globais.

 

E, citando Mao Tsé-Tung, “há grande desordem sob o céu, a situação é excelente” – um contexto que a China parece saber transformar em oportunidade.


Praia, 04 de abril de 2026


*Artigo de opinião publicado no jornal A Nação, edição n.º 971, de 09 de abril corrente


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