Poderá a China ultrapassar os EUA e liderar a economia mundial?*
Na verdade, a evolução recente da economia chinesa, apesar das fragilidades conjunturais, confirma que o país já consolidou uma posição de poder sistémico que transcende o PIB nominal e se projeta através da indústria, da tecnologia, das cadeias de valor e da geoeconomia. A questão central é, portanto, temporal e condicional: em que circunstâncias e com que velocidade a China converterá o seu peso material em primazia económica global. As projeções internacionais mais recentes, embora divergentes nos prazos, convergem num ponto essencial: a ultrapassagem é plausível, provável e, em determinados cenários, praticamente inevitável.
Segundo o FMI, a economia chinesa deverá crescer entre
4% e 4,5% em 2025, desacelerando gradualmente para valores próximos de 3% na
década seguinte. Os EUA, por seu lado, deverão estabilizar entre 1,6% e 2%. Em
termos de paridade do poder de compra, a China já é a maior economia do mundo
desde 2014, representando cerca de 18,6% do PIB global, contra 15,5% dos EUA.
Em PIB nominal, a diferença permanece significativa, mas a distância relativa
tem vindo a diminuir: em 2000, a economia americana era oito vezes maior; hoje
é apenas 1,4 vezes superior. Mesmo com um crescimento mais moderado, a China
continua a expandir-se a um ritmo que, em termos acumulados, tende a produzir
convergência. A OCDE estima que, num cenário de continuidade das tendências
atuais, a China poderá ultrapassar os EUA em PIB nominal entre 2035 e 2040; num
cenário mais dinâmico, esse ponto de viragem poderá ocorrer antes de 2032.
Mas a análise não se esgota no PIB. A China tornou-se
o centro gravitacional da indústria global. Controla mais de 30% da produção
manufatureira mundial, domina segmentos críticos como baterias, energia solar,
veículos elétricos e a refinação de minerais estratégicos, e é responsável por
mais de metade da capacidade global de processamento de lítio, níquel e terras
raras. Em 2025, a China exportou mais automóveis do que qualquer outro país,
ultrapassando o Japão e a Alemanha, e consolidou a sua posição como maior
exportador mundial de bens de alta tecnologia. A Nova Rota da Seda, apesar de
críticas e reestruturações, ampliou a influência chinesa sobre infraestruturas
estratégicas em mais de 150 países, reforçando a dependência logística e
financeira de grande parte do Sul Global.
No domínio tecnológico, a narrativa ocidental de que a
China está a perder terreno não resiste a uma leitura rigorosa dos dados. O
país lidera em número de patentes registadas, forma mais engenheiros por ano do
que os EUA e a Europa combinados e investe mais de 2,6% do PIB em investigação
e desenvolvimento – valor que, em termos absolutos, já rivaliza com o
investimento norte-americano. Em áreas como inteligência artificial, computação
quântica, telecomunicações e energias renováveis, a China não é apenas
competitiva: é estruturalmente indispensável. A liderança global em 5G, a
expansão das empresas de semicondutores de segunda linha e a rápida
substituição de importações tecnológicas evidenciam uma capacidade de adaptação
que contraria a ideia de que as restrições (tarifas e políticas defensivas) impostas
pelos EUA e pela Europa seriam suficientes para travar o avanço chinês.
A geoeconomia reforça esta tendência. A China é o maior
parceiro comercial de mais de 120 países e detém reservas cambiais superiores a
3 biliões de dólares dos EUA (USD), o que lhe confere uma margem de manobra
financeira significativa. O yuan ainda não é uma moeda de reserva global, mas a
sua utilização no comércio internacional duplicou na última década,
impulsionada por acordos bilaterais e pela crescente – ainda que parcial –
desdolarização de economias emergentes. A criação de sistemas alternativos de
pagamentos, como o CIPS, e a expansão dos bancos de desenvolvimento liderados
pela China – nomeadamente o AIIB e o Novo Banco de Desenvolvimento dos BRICS –
contribuem para a formação de um ecossistema financeiro menos dependente do USD.
Esse quadro sugere que a China está a edificar as
bases para se afirmar como a principal economia mundial, não apenas pela
dimensão do seu mercado, mas sobretudo pela rapidez com que converte
conhecimento em inovação com impacto económico.
Contudo, a trajetória chinesa não está isenta de
riscos. A crise imobiliária, que representa cerca de 25% do PIB, continua a
constituir uma vulnerabilidade estrutural. A demografia é um desafio ainda mais
profundo: a população chinesa começou a diminuir e poderá perder cerca de 100
milhões de habitantes até 2050. A produtividade, embora elevada em setores de
ponta, permanece desigual entre regiões e indústrias. A dívida das
administrações locais e a necessidade de reequilibrar o modelo económico em
direção ao consumo interno são obstáculos relevantes. Ainda assim, tais riscos,
embora significativos, não anulam a tendência de fundo: a China tem demonstrado
uma capacidade histórica de reconfigurar o seu modelo económico quando
confrontada com constrangimentos estruturais.
O que distingue a China não é apenas o crescimento,
mas a coerência estratégica. Enquanto os EUA enfrentam ciclos políticos
voláteis, a China opera com planeamento de longo prazo, metas industriais
claras e uma articulação entre Estado, empresas públicas e setor privado que,
apesar de tensões internas, produz resultados tangíveis. A nova vaga de
industrialização verde, apoiada por subsídios significativos e por uma
capacidade produtiva quase ilimitada, está a reposicionar o país como
fornecedor global de tecnologias essenciais para a transição energética, moldando
o mercado mundial.
Se a China estabilizar o setor imobiliário, continuar
a avançar na inovação tecnológica e mantiver a sua posição dominante na
indústria verde, a ultrapassagem dos EUA será uma questão de tempo – e não de
possibilidade. Mesmo que o PIB nominal demore mais a convergir, o poder
económico efetivo da China já se manifesta na forma como condiciona mercados,
regula fluxos, define padrões tecnológicos e influencia decisões estratégicas
de governos e empresas em todo o mundo.
Assim, a questão de saber quando a China será a
primeira economia mundial depende menos de projeções lineares e mais da
interação entre três fatores: a capacidade chinesa de gerir os seus riscos
internos, a evolução da política económica norte-americana e a dinâmica das
cadeias de valor globais.
E, citando Mao Tsé-Tung, “há grande desordem sob o céu, a situação é excelente” – um contexto que a China parece saber transformar em oportunidade.
Praia, 04 de abril de 2026
*Artigo de opinião publicado no jornal A Nação, edição n.º 971, de 09 de abril corrente
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