Será o yuan a próxima moeda de reserva global?*

 

A questão não é nova, mas raramente foi tão urgente. À medida que a ordem financeira internacional se fragmenta, que as sanções ao Ocidente se multiplicam e que a hegemonia do dólar norte-americano começa a ser questionada com uma seriedade que há décadas não se via, o yuan chinês – ou renminbi, como tecnicamente se designa a moeda da República Popular da China – regressa ao centro do debate geoeconómico global. Pequim tem uma meta clara: elevar o Índice de Internacionalização do yuan dos atuais 5,68% para 20% até 2035, ano em que a China pretende consolidar o estatuto de economia de rendimento médio-alto segundo a classificação do Banco Mundial. É uma ambição que combina cálculo estratégico com impaciência política, mas que esbarra em obstáculos estruturais que nenhuma proclamação administrativa consegue dissolver.

Para compreender a escala do desafio, importa situar o yuan no sistema monetário internacional contemporâneo. A moeda chinesa ocupa atualmente o terceiro lugar entre as divisas com uso internacional, uma posição que reflete tanto o peso económico da China – que responde por cerca de 20% da produção económica global – como os limites da sua integração financeira. Em 2024, a utilização do yuan em transações transfronteiriças atingiu níveis históricos, impulsionada em grande medida pela intensificação das trocas comerciais entre a China e a Rússia na sequência das sanções ocidentais a Moscovo. Todavia, este crescimento assenta em circunstâncias geopolíticas excecionais e não numa adoção orgânica da moeda nos mercados internacionais. O dólar norte-americano continua a responder por cerca de 59% das reservas cambiais globais, enquanto o yuan oscila em torno de 2,5%, apesar dos progressos assinaláveis das últimas duas décadas. Mesmo em termos de pagamentos transfronteiriços via SWIFT, a participação do yuan situa-se nos 2,5%, valor muito distante dos 40% do dólar.

A trajetória histórica do yuan é, ainda assim, notável. Em janeiro de 2012, os créditos documentários denominados em yuan representavam apenas 1,89% do total global, enquanto o dólar dominava com 84,96%. Três anos depois, a moeda chinesa havia quadruplicado a sua participação para 9,43%, ultrapassando o euro e o iene como segunda moeda de crédito comercial internacional. Esta velocidade de ascensão não tem precedentes na história monetária recente e testemunha a capacidade da China de mobilizar o seu peso económico em favor da internacionalização da sua divisa. Porém, a velocidade de um crescimento inicial não garante a sua sustentabilidade. Em 2015, o ciclo de liberalização financeira que Pequim havia iniciado anos antes culminou numa saída de capitais estimada em cerca de um bilião de dólares, obrigando as autoridades a reverter seis anos de abertura da conta de capital e a apertar novamente os controlos. O episódio ficou como uma memória institucional que molda até hoje a cautela com que os decisores chineses abordam a questão da convertibilidade plena do yuan.

É neste contexto que as advertências de Wu Xiaoqiu, diretor da Academia Nacional de Investigação Financeira da Universidade Renmin, assumem particular relevância. Durante a sessão de abertura do Fórum Monetário Internacional 2025, realizado em Pequim, o académico apontou a internacionalização do yuan como o “desafio mais difícil” na trajetória da China rumo à consolidação como potência financeira global. A sua análise assenta em três pilares estruturais sem os quais, argumenta, nenhum progresso será sustentável: a primazia do mercado, o Estado de direito e a estabilidade institucional. Estes não são conceitos abstratos. São precisamente as dimensões em que o sistema político e económico chinês apresenta as maiores fragilidades aos olhos dos investidores internacionais, que exigem previsibilidade, transparência e autonomia dos mecanismos jurídicos face ao poder político como condições mínimas para confiar a uma moeda a função de reserva de valor a longo prazo.

A primazia do mercado é, neste contexto, o pilar mais complexo. O yuan é controlado pelo Banco Popular da China, e o seu valor é amplamente regulado pelo Estado, ao contrário das moedas que flutuam livremente segundo as forças de mercado. Este controlo permitiu à China manter a estabilidade monetária e blindar a sua política macroeconómica face a perturbações externas, mas funciona simultaneamente como um travão à adoção internacional do yuan. Uma moeda de reserva global tem de ser plenamente convertível, livremente transacionável e dotada de liquidez profunda nos mercados cambiais internacionais – requisitos que o modelo atual de gestão cambial chinês não satisfaz plenamente. A inclusão do renminbi na cesta de Direitos Especiais de Saque do FMI, em 2016, foi um reconhecimento político e simbólico da sua importância crescente, mas não alterou os mecanismos estruturais que limitam a sua circulação livre nos mercados globais.

O Estado de direito, segundo pilar da análise de Wu, é talvez o mais sensível do ponto de vista geopolítico. Os investidores institucionais internacionais – fundos de pensões, bancos centrais, gestores de reservas soberanas – exigem que os ativos nos quais investem estejam protegidos por sistemas jurídicos independentes, com garantias de propriedade e mecanismos de resolução de litígios previsíveis e imparciais. A perceção prevalecente nos mercados ocidentais de que o sistema judicial chinês não oferece estas garantias de forma plena, sendo frequentemente subordinado às prioridades políticas do Partido Comunista, constitui um obstáculo real à adoção massiva de ativos denominados em yuan por parte de investidores internacionais. Não se trata de um preconceito cultural, mas de uma avaliação de risco que determina a alocação de biliões de dólares em reservas soberanas mundiais.

A estabilidade institucional, terceiro pilar, remete para uma dimensão mais ampla: a capacidade do sistema de oferecer um quadro regulatório e político que não mude de forma abrupta ou imprevisível. Neste domínio, a China tem mostrado resultados contraditórios. Por um lado, oferece uma continuidade política assinalável, com um partido no poder há mais de sete décadas e uma burocracia institucional de longa memória. Por outro, as intervenções regulatórias súbitas – como as que visaram o sector tecnológico em 2021, ou as restrições impostas a empresas como a Alibaba e a Didi – geraram choques de confiança que afastaram investidores estrangeiros e levantaram dúvidas sobre a previsibilidade do ambiente de negócios em território chinês.

Face a estes constrangimentos, Wu propõe o que designa por uma “terceira via”, alternativa à liberalização financeira clássica que, reconhece, pode colocar em risco a segurança económica nacional. Esta terceira via assenta em três prioridades: i) a melhoria qualitativa dos ativos internos, com ênfase na promoção de empresas tecnológicas de alto valor acrescentado capazes de gerar procura internacional por ativos em yuan; ii) a atracão de fluxos de capital de longo prazo, sobretudo através do aprofundamento e sofisticação dos mercados de capitais chineses; e iii) a construção de um quadro jurídico credível assente no Estado de direito. É uma abordagem gradualista, consciente dos riscos de uma abertura precipitada, mas que exige reformas estruturais cuja profundidade e velocidade dependem de vontade política mais do que de capacidade técnica.

Um dos obstáculos mais concretos à internacionalização plena do yuan é a ausência de mecanismos eficazes de retorno de capital. A China tem emitido ativos denominados em yuan em volumes crescentes, mas não conseguiu ainda criar canais eficientes para que esse capital regresse ao país após circular nos mercados internacionais. Esta limitação traduz-se numa “circulação externa limitada” do yuan, para utilizar a formulação do próprio Wu, que é agravada por desequilíbrios estruturais persistentes, como o défice comercial bilateral com os Estados Unidos. O volume de obrigações e ações denominadas em yuan detidas por estrangeiros atingiu o recorde de 7,6 biliões de yuan em meados de 2021, segundo dados do Banco Popular da China, sinalizando um interesse crescente dos investidores externos. Mas a ausência de conversibilidade plena e a limitação dos canais de saída de capital continuam a inibir uma adoção mais ampla.

O yuan digital – o e-CNY – surge neste quadro como o elemento potencialmente mais disruptivo da estratégia de internacionalização de Pequim. Os trabalhos nesta frente remontam a 2014, e os programas-piloto iniciados no fim de 2019 alcançaram, em fase de teste, um volume de transações superior a 34,5 mil milhões de yuan, envolvendo mais de 20,8 milhões de utilizadores individuais com carteiras digitais. A aposta não é meramente tecnológica. É, como observou Diana Choyleva, da consultoria Enodo Economics, uma peça central de uma arquitetura financeira alternativa à ordem centrada no dólar que Pequim está a construir. Ao facilitar e baratear os pagamentos transfronteiriços, eliminando intermediários e reduzindo os custos de conversão cambial, o yuan digital poderá exercer uma atracão considerável sobre economias emergentes que dependem de sistemas de pagamento internacional onerosos e que, por razões geoestratégicas, buscam alternativas à hegemonia do dólar. Se uma transferência ponto a ponto em yuan digital se tornar amplamente aceite em transações internacionais, entidades não norte-americanas e não chinesas poderão converter moedas diretamente, sem o envolvimento do dólar como moeda de intermediação.

O contexto geopolítico alimenta esta dinâmica. As sanções ocidentais à Rússia após a invasão da Ucrânia demonstraram de forma inequívoca que a dependência do sistema financeiro dolarizado implica uma vulnerabilidade estratégica real para os países sujeitos à pressão americana. Pequim não ignorou esta lição. A China intensificou os seus esforços de internacionalização do yuan precisamente para limitar as consequências para a sua economia das tensões crescentes com Washington, reagindo ao risco de os Estados Unidos utilizarem o dólar como arma geoeconómica. As sanções impostas a empresas como a Huawei e as restrições ao acesso da China a tecnologias sensíveis criaram um incentivo estrutural para Pequim acelerar a construção de uma arquitetura financeira alternativa. Entre 2009 e 2020, o Banco Popular da China assinou acordos bilaterais de swap com 41 países, mecanismo que permite a esses Estados obter liquidez em yuan sem recurso ao dólar, num processo que pode ser visto como a construção incremental de uma infraestrutura paralela ao sistema Bretton Woods.

O comércio da China com parceiros da Ásia, África e América Latina tem crescido de forma consistente, e as trocas bilaterais nessas regiões são cada vez mais denominadas em yuan. A ascensão da China como o maior parceiro comercial de mais de 120 países do mundo cria uma base natural para a expansão do uso da sua moeda, na medida em que o comércio e os pagamentos em yuan reduzem os custos de transação para os parceiros chineses e diminuem a exposição ao risco cambial face ao dólar. No entanto, a maior parte do comércio com os Estados Unidos, a Europa e a América Latina continua a realizar-se em dólares ou euros. O yuan permanece, em larga medida, uma moeda de uso intrarregional asiático e de nicho nos corredores de comércio específicos da China.

A avaliação honesta da trajetória do yuan exige que se evitem dois erros simétricos: o triunfalismo que vê na ascensão chinesa o fim iminente da hegemonia do dólar, e o ceticismo que descarta o yuan como um ator de segunda ordem no sistema monetário internacional. A realidade é mais complexa e mais interessante do que qualquer um dos extremos. O yuan tem hoje uma presença internacional que há vinte anos seria impensável. A sua inclusão no cabaz de Direitos Especiais de Saque do FMI, o crescimento dos mercados de obrigações em yuan acessíveis a investidores estrangeiros, a expansão dos acordos de swap bilaterais, o lançamento do yuan digital e a utilização crescente da moeda em transações com países emergentes constituem avanços reais e substanciais. Mas a distância entre o terceiro lugar e a condição de moeda de reserva dominante – ou mesmo de verdadeiro rival sistémico do dólar – é enorme, e não se percorre apenas com vontade política ou força económica.

O percurso exige transformações institucionais profundas que afetam o modelo de governação do partido-Estado chinês. Exige uma abertura da conta de capital que implica riscos de instabilidade que Pequim tem sistematicamente evitado. Exige um sistema jurídico percecionado como independente e fiável pelos investidores internacionais. E exige mercados de capitais suficientemente profundos, líquidos e transparentes para absorver os fluxos que uma moeda de reserva global necessita de mobilizar. Wu Xiaoqiu tem razão quando diz que alcançar o índice de internacionalização de 20% até 2035 exigirá “reformas muito mais ambiciosas” do que as atualmente em curso. A questão não é se a China tem capacidade económica para sustentar a ascensão do yuan – essa capacidade existe, e é formidável. A questão é se tem disposição política para aceitar as transformações institucionais que essa ascensão exige, transformações que implicam ceder parcelas de controlo que o Partido Comunista Chinês nunca cedeu facilmente. É aí que reside, em última análise, o verdadeiro teste da internacionalização do yuan.

 Praia, 23 de abril de 2026

*Ensaio baseado em declarações do professor Wu Xiaoqiu, diretor da Academia Nacional de Investigação Financeira da Universidade Renmin, proferidas no Fórum Monetário Internacional 2025, bem como em dados do Banco Popular da China, do FMI e da SWIFT.




Comentários

Mensagens populares deste blogue

Como a desigualdade alimenta o populismo, segundo o Nobel de Economia 2025

A miséria da ideologia de direita e de esquerda em Cabo Verde

Ensaio Kafkiano sobre a Ignorância, Mediocridade, Inveja e Maldade Gratuita