Economia, cultura e dignidade: lições de Keynes para Cabo Verde*

John Maynard Keynes, o mais célebre dos economistas do século XX, ensinou-nos que a economia não é um fim em si mesma, mas um instrumento ao serviço da dignidade humana, da liberdade e do bem comum. Essa lição – de que a satisfação das necessidades materiais deve ser subordinada a valores permanentes e à justiça – é tão pertinente para as grandes potências como para um pequeno arquipélago como Cabo Verde. Se o país quiser transformar-se num “país-plataforma” capaz de reter e atrair população, gerar prosperidade inclusiva e reduzir a dependência externa, terá de reaproximar a sua política económica das teses keynesianas e, simultaneamente, preservar uma visão humanista da economia.

Keynes rompeu com a visão autorreguladora dos mercados e colocou a procura agregada no centro da análise económica. Para ele, é da procura que depende o nível de atividade e, por inerência, o emprego e o crescimento do PIB. Em Cabo Verde, essa ideia ganha forma concreta no turismo, que funciona como o principal motor da procura externa. Contudo, a procura gerada pelo turismo não se traduz automaticamente em procura nacional: uma parte significativa dos fluxos monetários é capturada por cadeias internacionais de fornecimento e não alimenta suficientemente os circuitos produtivos locais. Estima‑se, por exemplo, que apenas cerca de 5% da procura dos operadores turísticos por produtos agrícolas frescos seja satisfeita por produtores cabo‑verdianos, num mercado anual que ronda os €100 milhões – um indicador que revela a distância entre potencial e realidade.

Da mesma forma, a eficiência marginal do capital (EMC) – a expetativa de rendimento futuro que justifica o investimento hoje – tende a decrescer à medida que se multiplicam investimentos similares. Quando os governos apostam em grandes programas de infraestrutura sem articular medidas que elevem simultaneamente a procura e a capacidade empresarial nacional, correm o risco de aumentar o endividamento público e pressionar a taxa de juro. E quando a taxa de juro ultrapassa a EMC, o investimento privado retrai-se, as infraestruturas permanecem subutilizadas e o país entra num ciclo de dependência e inviabilidade. Foi este nó teórico-prático que Keynes desvendou – e que, no contexto cabo-verdiano, exige uma resposta cuidadosa: infraestrutura sim, mas associada e condicionada a políticas de estímulo à procura nacional, de fomento empresarial e de integração das cadeias locais.

A proposta de transformar Cabo Verde num país-plataforma é promissora precisamente porque converte um problema estrutural – a reduzida dimensão interna do mercado – numa vantagem estratégica: usar a posição geográfica, a língua e os laços da diáspora para criar plataformas de serviços e valor acrescentado nos domínios da saúde, ensino, economia digital, lazer, montagem industrial de alto valor e mediação regional. Mas para que essas plataformas se tornem âncoras de desenvolvimento é indispensável um conjunto coerente de medidas políticas e institucionais: um banco de fomento que financie projetos de risco e catalise recursos; programas de patriotismo económico que aumentem a incorporação local nas cadeias de valor; legislação que transforme a saúde e a educação em fatores competitivos; e um quadro regulatório que promova a formalização e a poupança doméstica. Todas estas ideias estão alinhadas com o legado keynesiano: o Estado não suprime o mercado; cria e sustenta, em termos macro e micro, as condições para que o mercado funcione ao serviço da sociedade.

A demografia deve ser prioridade: Cabo Verde perde residentes e vê ilhas desertificarem, reflexo de uma crise de confiança entre os jovens e da chamada “emigração por encomenda”, impulsionada por envelhecimento nas economias recetoras, mobilidade laboral e diferenças salariais. Esse êxodo é sinal de que muitos não acreditam num futuro aqui. Aumentar a população residente é condição para criar mercado interno, massa crítica humana e capacidades profissionais. Um programa dual – combinando retorno qualificado da diáspora e atração de imigração especializada –, adaptado à realidade do país, pode ser decisivo para repovoar ilhas e reforçar competências. Porém, essas medidas só terão impacto se vierem acompanhadas de garantias concretas: emprego digno, habitação acessível, reconhecimento de qualificações e serviços públicos eficazes.

A governança partilhada deve ser peça central da nossa agenda de desenvolvimento. A confiança social e a participação cívica – valores que Keynes já apreciava – traduzem‑se, em Cabo Verde, na necessidade de reforçar o Conselho de Concertação Social, ativar órgãos constitucionais de diálogo pendentes e construir um cronograma credível de envolvimento da diáspora. Um Estado transparente, que publique avaliações da eficiência marginal dos investimentos e exija análises de impacto económico antes de grandes intervenções, alinha expetativas, reduz riscos e torna o país mais atraente para capital de longo prazo. Governar com os cidadãos e com a diáspora é condição para políticas eficazes e sustentáveis.

Também é urgente modernizar o sistema financeiro: a banca comercial é necessária, mas insuficiente como única fonte de financiamento para um projeto de país-plataforma. A criação de um banco de fomento, com capacidade para financiar micro, pequenas e médias empresas, “start-ups” e projetos de plataforma, e para operar em consórcio com atores internacionais, é uma proposta que converte uma exigência keynesiana (intervenção estatal direcionada) numa ferramenta prática para mobilizar investimento real e inclusivo. Complementarmente, a promoção da poupança interna e da Bolsa de Valores como mecanismo de canalização de capitais domésticos para investimento produtivo é uma prioridade que não pode ser adiada.

Não podemos esquecer o imperativo da justiça distributiva e da sustentabilidade democrática: num mundo em que a crise do “capitalismo democrático” – nas palavras de alguns observadores contemporâneos – se manifesta por desigualdades crescentes e erosão da confiança, as políticas em Cabo Verde devem combinar crescimento com equidade. Combater a evasão fiscal e os fluxos ilícitos, reforçar a independência dos meios de comunicação e proteger o Estado-social são medidas que asseguram que o crescimento não é apenas uma estatística, mas melhoria real das condições de vida. Keynes advogava exatamente isto: a economia ao serviço da civilização e da cultura, não o inverso.

Finalmente, há um fator cultural que é muitas vezes subestimado: a economia humana exige cultura, ciência e arte. Keynes não foi apenas um técnico; foi um defensor da educação, das artes e da ciência como fontes de sentido e de inovação. Em Cabo Verde, investir na formação, na investigação aplicada, nas artes e em políticas de atração de talentos é investir na resiliência criativa do país. A plataforma de ensino e formação profissional, a plataforma internacional de saúde e iniciativas culturais internacionais são igualmente investimentos em capital humano, cuja rentabilidade social e económica se manifesta a médio e longo prazo.

Praia, 07 de março de 2026

*Artigo de opinião publicado no jornal A Nação, edição n.º 967, de 12 de março2026
 

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