Mensagens

A mostrar mensagens de dezembro, 2025

O insólito processo de criação da Ordem dos Economistas de Cabo Verde*

Imagem
Um amigo, economista sénior, enviou-me uma mensagem a perguntar se eu conhecia os dois projetos de lei que deram entrada no Parlamento com vista à criação da Ordem dos Economistas de Cabo Verde. Respondi-lhe que não e que, tal como para ele, também para mim tudo isto surgia como uma grande surpresa. Afinal, não se cria uma ordem profissional à socapa, sem transparência e, sobretudo, sem o envolvimento efetivo daqueles que ela se propõe representar. A criação de uma Ordem de Economistas em Cabo Verde é, em princípio, uma iniciativa legítima e desejável. O país precisa de uma entidade que regule a profissão, fixe padrões éticos e de qualificação e proteja o interesse público nas intervenções técnicas dos economistas. Contudo, a pertinência do objetivo não pode ocultar as insuficiências do processo em curso: apressado, opaco e desprovido de uma auscultação efetiva da própria classe. Há no país memória de uma tentativa anterior de organização coletiva da classe: a Associação de Economistas...

Como a desigualdade alimenta o populismo, segundo o Nobel de Economia 2025

Imagem
Vivemos num momento de clarificação histórica brutal, onde as velhas certezas macroeconómicas colidem violentamente com a realidade social das democracias liberais. A atribuição do Prémio Nobel da Economia de 2025 ao francês Philippe Aghion não é apenas o reconhecimento de uma carreira académica brilhante dedicada ao estudo do crescimento e da inovação; é, acima de tudo, um aviso à navegação para os decisores políticos globais e, muito particularmente, para nações em encruzilhadas de desenvolvimento como Cabo Verde. A tese central que Aghion colocou na mesa mediática no início do corrente mês de dezembro – “quando o crescimento económico não é inclusivo, abre-se a porta aos populismos” – encerra em si a chave para compreendermos a instabilidade que varre o Ocidente e que ameaça contagiar as democracias insulares que, até agora, se julgavam imunes. A análise dos dados empíricos das últimas quatro décadas, cruzando a estagnação da mobilidade social na Europa com os riscos de um capitalis...

O esquema de pirâmide ou a perigosa ilusão do dinheiro fácil*

Imagem
Segundo relatos difundidos em publicações nas redes sociais e em conversas quotidianas – nos serviços, nos cafés e nas ruas – muitos cabo-verdianos terão caído, recentemente, no golpe do chamado “esquema de pirâmide”, isto é, na ilusão do dinheiro fácil. Em Cabo Verde, onde a ostentação há muito vem ganhando terreno, a pressão para demonstrar sucesso imediato agrava o problema. Ver colegas de trabalho, vizinhos, familiares ou amigos a exibir lucros (temporários) gera o receio de ficar de fora – o conhecido FOMO (“Fear of Missing Out”). É este sentimento que, frequentemente, leva famílias a levantar poupanças bancárias, vender bens ou contrair empréstimos para “investir” no vazio, atraídas por promessas de ganhos astronómicos, imediatos e supostamente garantidos. Os esquemas de pirâmide não constituem um fenómeno marginal nem uma sucessão episódica de burlas ingénuas. São estruturas financeiras fraudulentas recorrentes, altamente adaptáveis e historicamente persistentes, que exploram ex...

Uma década de poder de compra em erosão*

Imagem
A célebre frase “É a economia, estúpido!”, cunhada em 1992 para a campanha presidencial de Bill Clinton, mantém plena atualidade quando observamos a erosão persistente do poder de compra em Cabo Verde. Entre a retórica oficial de estabilidade macroeconómica e a experiência concreta das famílias, instalou-se um desfasamento que não pode ser ignorado. Ao longo da última década, o custo de vida aumentou sem que os rendimentos acompanhassem esse movimento, expondo limitações profundas na capacidade do país para proteger os cidadãos dos choques externos e revelando insuficiências internas na formulação de políticas públicas. Combinando os dados oficiais do INE (2016–2024) com a previsão do Banco de Cabo Verde para 2025, a inflação acumulada entre 2016 e 2025 rondará os 20%. Esses números, isoladamente, podem sugerir uma evolução moderada, dada a incidência de choques externos – a pandemia e a crise internacional dos preços dos alimentos e da energia. No entanto, o Índice de Preços no Consum...

Porque é que Cabo Verde continua a ser uma Nação pobre?

Imagem
Cabo Verde continua, passados cinquenta anos de independência e várias décadas de governação democrática, confrontado com um paradoxo que já não pode ser disfarçado por estatísticas favoráveis ou discursos otimistas: apesar da estabilidade política, de níveis razoáveis de escolaridade e de uma diáspora dinâmica, o país continua a ser, na experiência concreta de muitos cidadãos, uma Nação pobre. A pobreza deixou de ser apenas material; tornou-se estrutural, institucional e estratégica. Não resulta do acaso, da insularidade ou da falta de recursos naturais. Resulta, sobretudo, de escolhas políticas persistentes que bloqueiam a transformação profunda da economia e da sociedade. A economia do desenvolvimento há muito que oferece uma explicação consistente para este tipo de impasse. Daron Acemoglu e James Robinson demonstraram que a diferença essencial entre países ricos e países pobres raramente reside na geografia ou nos recursos naturais, mas sobretudo na natureza das instituições políti...

É urgente repensar o vínculo entre turismo e economia local*

Imagem
Cabo Verde tem enfrentado dificuldades históricas em alinhar o setor turístico com o restante tecido produtivo nacional, o que impede que o crescimento do turismo se traduza em desenvolvimento sustentável e inclusivo. O modelo predominante, marcado pela presença massiva de empreendimentos “all-inclusive” em ilhas como o Sal e a Boa Vista, gerou escala, ligações aéreas regulares e uma ocupação hoteleira constante. Contudo, o “all-inclusive”, embora tenha assegurado estabilidade e atratividade internacional, criou enclaves pouco conectados às comunidades e economias locais, perpetuando a dependência de mercados e capitais externos. O efeito multiplicador do turismo sobre a economia doméstica fica, assim, substancialmente reduzido, limitando o potencial de desenvolvimento inclusivo. Perante este diagnóstico, torna-se urgente repensar o vínculo entre turismo e economia nacional: passar da dependência para a cooperação, do enclave para a integração produtiva. É precisamente aqui que se impõ...

Cabo Verde: ignorância atrevida e falta de noção do ridículo

Imagem
Há comportamentos sociais que, em países pequenos, adquirem uma força e uma visibilidade dificilmente imagináveis em sociedades maiores e mais complexas, onde tenderiam a diluir-se no anonimato. Em contextos reduzidos, onde o convívio quotidiano alimenta a ilusão de uma familiaridade omnisciente, emergem frequentemente os chamados “especialistas universais”: indivíduos que pouco estudaram a fundo, mas opinam sobre tudo com uma segurança que, ironicamente, o próprio estudo rigoroso não costuma permitir. O ignorante atrevido não conhece hesitações e comporta como se fosse autoridade suprema em tudo. E essa ausência de dúvidas, no espaço público, constitui uma ameaça séria à razoabilidade. Neste ambiente, a fronteira entre o erro e a desfaçatez torna-se ténue. Dizer disparates passa a ser celebrado como coragem; agir sem competência, como ousadia; e a autopromoção ilimitada substitui o mérito e o trabalho árduo. O conhecido efeito Dunning-Kruger – identificado por psicólogos que observa...

Governo e o triunfo da encenação sobre a responsabilidade

Imagem
Num país pequeno, onde a intimidade social facilmente se confunde com competência e a visibilidade pública substitui a substância, a ignorância atrevida e a perda da noção do ridículo deixaram de ser exceção para se tornarem norma – com custos materiais, institucionais e morais de efeito corrosivo. Instala-se, assim, um ecossistema político em que a pose vale mais do que o rigor, o anúncio pesa mais do que a execução e a ausência de vergonha cívica deixa de ser lapsus para se transformar em método de governação. O ridículo, longe de envergonhar, passou a conferir poder: legitima o que deveria ser corrigido e absolve o que deveria ser escrutinado. Num país pequeno, onde os erros se multiplicam por escala e cada gesto tem impactos imediatos, essa combinação é fatal: mata instituições, destrói confiança e esvazia oportunidades reais de desenvolvimento. O ciclo tornou-se evidente em 2016, quando o discurso eleitoral se encheu de promessas transformadoras: diversificação da economia para a...

A inveja em Cabo Verde: sintoma cultural ou obstáculo estrutural?

Imagem
  A inveja é um sentimento profundamente enraizado na experiência humana, e em Cabo Verde ela assume contornos que vão muito além do simples ressentimento individual. É um fenómeno social que se manifesta nas relações interpessoais, nas dinâmicas comunitárias e nas estruturas institucionais, influenciando o desenvolvimento do país de maneiras muitas vezes invisíveis, mas decisivas. A inveja, quando institucionalizada, pode levar à criação de políticas públicas que penalizam o sucesso e desincentivam o investimento, perpetuando um ciclo de mediocridade e conformismo. As redes sociais amplificam este fenómeno, expondo conquistas pessoais a um público amplo que, por vezes, reage com escárnio ou acusações de ostentação. A lógica do “quem se expõe, merece ser atacado” reflete, muitas vezes, uma moralidade distorcida que confunde mérito com arrogância e que transforma a inveja em uma forma de justiça social perversa. Este ambiente digital contribui para a polarização social e para a eros...