A ilusão do “dinheiro que nunca mais acaba” como instrumento de manipulação eleitoral*
Durante décadas, Cabo Verde construiu a reputação de
uma democracia estável, previsível e em amadurecimento institucional. Essa
imagem, porém, começa a desvanecer-se quando se observa, com rigor, a forma
como o poder político tem vindo a instrumentalizar o Estado para fins
eleitorais. Uma democracia não se degrada apenas por ruturas abruptas ou por
autoritarismos explícitos; degrada-se, sobretudo, quando o uso abusivo de
recursos públicos se normaliza, quando a fronteira entre governação e campanha eleitoral
se dissolve e quando a vulnerabilidade social é explorada como ativo político.
É esse o caminho perigoso que o país começa a trilhar.
A governação do país tem vindo a ser progressivamente
substituída pela encenação. O anúncio vale mais do que a execução, o programa
mais do que o resultado, a perceção mais do que a realidade. Multiplicam-se
comunicados, conferências e campanhas institucionais que apresentam como
conquistas extraordinárias medidas avulsas – muitas delas adiadas
durante anos e subitamente recuperadas no fim do ciclo político. Entretanto,
problemas estruturais permanecem intocados: a fragilidade dos transportes
interilhas, a estagnação da diversificação económica e a persistente
dependência excessiva do turismo, a excessiva partidarização e ineficácia da
Administração Pública, a vulnerabilidade do sistema de saúde, a má qualidade do
ensino, a precariedade laboral, entre outros. O Estado transforma-se num
produtor de narrativas, não num agente de reformas.
Este padrão é particularmente evidente na gestão
orçamental. A súbita expansão da despesa pública à medida que se aproxima o
ciclo eleitoral de 2026 contrasta de forma gritante com a retórica oficial de
rigor e consolidação das contas públicas. O crescimento da despesa corrente em
22,6% em 2025 face a 2024, bem como o aumento de 24,5% da despesa com pessoal
no mesmo período, não pode ser explicado por reformas estruturais da
Administração Pública nem por ganhos de eficiência; trata-se de uma decisão
política deliberada, típica dos ciclos político-económicos, em que o Governo
opta por gastar hoje para colher votos amanhã. Essa opção compromete a
sustentabilidade das finanças públicas e transfere para o futuro – e para
governos vindouros – o custo das benesses distribuídas no presente. Numa
economia pequena, aberta e vulnerável como a cabo-verdiana, tal comportamento
não é apenas imprudente: é institucionalmente irresponsável.
Mais grave ainda é a instrumentalização explícita das
políticas sociais. O Cadastro Social Único, concebido como instrumento técnico
de justiça distributiva, está a ser progressivamente convertido num mecanismo
de mobilização eleitoral, como têm denunciado os órgãos de comunicação social.
Em 2026, o alargamento do Rendimento Social de Inclusão a 10 000 beneficiários,
a par do aumento do valor da pensão social mínima de 6 000 para 7 000 escudos,
ocorre de forma concentrada no período pré-eleitoral, levantando dúvidas
legítimas quanto à neutralidade da sua aplicação. A transferência direta de
recursos para famílias vulneráveis, anunciada e executada em função do
calendário político, cria uma relação de dependência material que condiciona a
liberdade de voto. Não se trata de combater a pobreza de forma estrutural, mas
de transformar a pobreza num ativo político, explorando a urgência material de
quem dispõe de menos alternativas.
A essa estratégia somam-se outras medidas de cariz
claramente eleitoralista: ajustamentos salariais seletivos para determinadas
categorias profissionais, regularizações extraordinárias de vínculos precários
na Administração Pública, perdões fiscais pontuais, assunção de dívidas
relativas às propinas de estudantes universitários e anúncios de programas de
emprego sem continuidade garantida. Essas iniciativas partilham um traço comum:
surgem concentradas no período pré-eleitoral, carecem de enquadramento
estrutural e produzem efeitos imediatos, porém efémeros. Funcionam como pensos
rápidos aplicados sobre feridas profundas, com o único objetivo de criar uma
sensação temporária de alívio e gratidão.
A farsa completa-se com a reativação tardia de
promessas antigas. Compromissos assumidos desde 2016 e reiteradamente
incumpridos reaparecem como se pudessem ser materializados em poucos meses.
Retomam-se e reforçam-se promessas de obras anunciadas há mais de uma década: a
construção do Hospital Nacional; aeroportos internacionais em Santo Antão, Fogo
e Maio; e a expansão dos portos de Porto Novo e de Vale de Cavaleiros. Fala-se
de um sistema nacional de saúde resiliente, quando persistem carências crónicas
de profissionais e equipamentos. Promete-se erradicar a pobreza extrema, apesar
do agravamento da perceção social da precariedade e do aumento da emigração
jovem. Reafirma-se a diversificação económica, enquanto o país continua
estruturalmente dependente do turismo. Evocam-se as energias renováveis e a
economia azul como emblemas de modernidade, apesar do incumprimento reiterado
das metas anunciadas.
Não se trata de uma incapacidade superada à última
hora; trata-se, antes, de encenação política destinada a mascarar um ciclo
governativo esgotado e com pouco para mostrar. Predomina a lógica do “custe o
que custar” para a manutenção no poder; em Cabo Verde, as eleições –
sobretudo as legislativas – assumem, para o Governo, uma dimensão
existencial.
Cabo Verde não precisa de encenadores da esperança que prometem realizar em três meses aquilo que negligenciaram durante quase uma década. O país necessita de governantes capazes de transformar estratégia em reforma e retórica em futuro. O sucesso político depende tanto da perceção quanto do mérito, mas a história ensina que a manipulação permanente esgota a legitimidade e converte a virtude em farsa. Governação não pode equivaler a encenação: a política exige coragem para enfrentar a conveniência, honestidade para expor fragilidades e generosidade para partilhar riscos. Cabe aos cabo-verdianos, munidos de sentido crítico e memória histórica, discernir entre medidas de política pública genuínas e manobras de aliciamento.
Praia, 24 de janeiro de 2026
*Artigo publicado no jornal A Nação, edição n.º 961, de 29 de janeiro de 2026
Comentários
Enviar um comentário