A ilusão do “dinheiro que nunca mais acaba” como instrumento de manipulação eleitoral*

Durante décadas, Cabo Verde construiu a reputação de uma democracia estável, previsível e em amadurecimento institucional. Essa imagem, porém, começa a desvanecer-se quando se observa, com rigor, a forma como o poder político tem vindo a instrumentalizar o Estado para fins eleitorais. Uma democracia não se degrada apenas por ruturas abruptas ou por autoritarismos explícitos; degrada-se, sobretudo, quando o uso abusivo de recursos públicos se normaliza, quando a fronteira entre governação e campanha eleitoral se dissolve e quando a vulnerabilidade social é explorada como ativo político. É esse o caminho perigoso que o país começa a trilhar.


O traço dominante da atual prática governativa é a construção deliberada da ilusão de um Estado financeiramente inesgotável, capaz de responder a todas as carências acumuladas mas apenas quando o calendário eleitoral assim o aconselha. Esta narrativa do “dinheiro que nunca mais acaba” expressão cunhada, levianamente, pelo grandiloquente ministro das Finanças não resulta de uma transformação estrutural da economia nem de ganhos sustentados de produtividade. Pelo contrário, decorre de opções políticas conscientes, tomadas em função da proximidade das eleições e não do interesse público de longo prazo. Trata-se de uma utilização eleitoralista do erário público que se aproxima de uma caricatura do conceito do “dinheiro de helicóptero” atribuído a Milton Friedman. Ou seja, o dinheiro público deixa de ser usado como medida excecional de estabilização económica e passa a funcionar, de forma recorrente, como instrumento de manipulação da vontade popular.

 

A governação do país tem vindo a ser progressivamente substituída pela encenação. O anúncio vale mais do que a execução, o programa mais do que o resultado, a perceção mais do que a realidade. Multiplicam-se comunicados, conferências e campanhas institucionais que apresentam como conquistas extraordinárias medidas avulsas muitas delas adiadas durante anos e subitamente recuperadas no fim do ciclo político. Entretanto, problemas estruturais permanecem intocados: a fragilidade dos transportes interilhas, a estagnação da diversificação económica e a persistente dependência excessiva do turismo, a excessiva partidarização e ineficácia da Administração Pública, a vulnerabilidade do sistema de saúde, a má qualidade do ensino, a precariedade laboral, entre outros. O Estado transforma-se num produtor de narrativas, não num agente de reformas.

 

Este padrão é particularmente evidente na gestão orçamental. A súbita expansão da despesa pública à medida que se aproxima o ciclo eleitoral de 2026 contrasta de forma gritante com a retórica oficial de rigor e consolidação das contas públicas. O crescimento da despesa corrente em 22,6% em 2025 face a 2024, bem como o aumento de 24,5% da despesa com pessoal no mesmo período, não pode ser explicado por reformas estruturais da Administração Pública nem por ganhos de eficiência; trata-se de uma decisão política deliberada, típica dos ciclos político-económicos, em que o Governo opta por gastar hoje para colher votos amanhã. Essa opção compromete a sustentabilidade das finanças públicas e transfere para o futuro – e para governos vindouros – o custo das benesses distribuídas no presente. Numa economia pequena, aberta e vulnerável como a cabo-verdiana, tal comportamento não é apenas imprudente: é institucionalmente irresponsável.


Mais grave ainda é a instrumentalização explícita das políticas sociais. O Cadastro Social Único, concebido como instrumento técnico de justiça distributiva, está a ser progressivamente convertido num mecanismo de mobilização eleitoral, como têm denunciado os órgãos de comunicação social. Em 2026, o alargamento do Rendimento Social de Inclusão a 10 000 beneficiários, a par do aumento do valor da pensão social mínima de 6 000 para 7 000 escudos, ocorre de forma concentrada no período pré-eleitoral, levantando dúvidas legítimas quanto à neutralidade da sua aplicação. A transferência direta de recursos para famílias vulneráveis, anunciada e executada em função do calendário político, cria uma relação de dependência material que condiciona a liberdade de voto. Não se trata de combater a pobreza de forma estrutural, mas de transformar a pobreza num ativo político, explorando a urgência material de quem dispõe de menos alternativas.

 

A essa estratégia somam-se outras medidas de cariz claramente eleitoralista: ajustamentos salariais seletivos para determinadas categorias profissionais, regularizações extraordinárias de vínculos precários na Administração Pública, perdões fiscais pontuais, assunção de dívidas relativas às propinas de estudantes universitários e anúncios de programas de emprego sem continuidade garantida. Essas iniciativas partilham um traço comum: surgem concentradas no período pré-eleitoral, carecem de enquadramento estrutural e produzem efeitos imediatos, porém efémeros. Funcionam como pensos rápidos aplicados sobre feridas profundas, com o único objetivo de criar uma sensação temporária de alívio e gratidão.

 

A farsa completa-se com a reativação tardia de promessas antigas. Compromissos assumidos desde 2016 e reiteradamente incumpridos reaparecem como se pudessem ser materializados em poucos meses. Retomam-se e reforçam-se promessas de obras anunciadas há mais de uma década: a construção do Hospital Nacional; aeroportos internacionais em Santo Antão, Fogo e Maio; e a expansão dos portos de Porto Novo e de Vale de Cavaleiros. Fala-se de um sistema nacional de saúde resiliente, quando persistem carências crónicas de profissionais e equipamentos. Promete-se erradicar a pobreza extrema, apesar do agravamento da perceção social da precariedade e do aumento da emigração jovem. Reafirma-se a diversificação económica, enquanto o país continua estruturalmente dependente do turismo. Evocam-se as energias renováveis e a economia azul como emblemas de modernidade, apesar do incumprimento reiterado das metas anunciadas.

 

Não se trata de uma incapacidade superada à última hora; trata-se, antes, de encenação política destinada a mascarar um ciclo governativo esgotado e com pouco para mostrar. Predomina a lógica do “custe o que custar” para a manutenção no poder; em Cabo Verde, as eleições sobretudo as legislativas assumem, para o Governo, uma dimensão existencial.

 

Cabo Verde não precisa de encenadores da esperança que prometem realizar em três meses aquilo que negligenciaram durante quase uma década. O país necessita de governantes capazes de transformar estratégia em reforma e retórica em futuro. O sucesso político depende tanto da perceção quanto do mérito, mas a história ensina que a manipulação permanente esgota a legitimidade e converte a virtude em farsa. Governação não pode equivaler a encenação: a política exige coragem para enfrentar a conveniência, honestidade para expor fragilidades e generosidade para partilhar riscos. Cabe aos cabo-verdianos, munidos de sentido crítico e memória histórica, discernir entre medidas de política pública genuínas e manobras de aliciamento.


Praia, 24 de janeiro de 2026

 *Artigo publicado no jornal A Nação, edição n.º 961, de 29 de janeiro de 2026

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Como a desigualdade alimenta o populismo, segundo o Nobel de Economia 2025

A miséria da ideologia de direita e de esquerda em Cabo Verde

Ensaio Kafkiano sobre a Ignorância, Mediocridade, Inveja e Maldade Gratuita