O que Cabo Verde pode aprender com a China?
O primeiro e talvez mais gritante abismo que separa a gestão pública chinesa da realidade cabo-verdiana reside na conceção do tempo político e na existência de um projeto de nação. A China opera com base numa planificação temporal dilatada, materializada nos seus Planos Quinquenais, que não são meras cartas de intenções, mas roteiros operativos rigorosos, onde metas económicas, sociais e ambientais são perseguidas com disciplina quase militar, independentemente das oscilações táticas da política interna. Existe, em Pequim, um consenso estratégico sobre, por exemplo, onde o país deve estar em 2035 ou 2050, e toda a máquina estatal é mobilizada para esse fim. Em contrapartida, Cabo Verde, meio século após a libertação do jugo colonial, ainda não conseguiu forjar um pacto de regime robusto sobre os pilares fundamentais do seu desenvolvimento. O país sofre de uma patologia de curto-prazismo agudo, em que o horizonte de planeamento raramente ultrapassa os cinco anos de uma legislatura. Documentos orientadores como o Plano Estratégico de Desenvolvimento Sustentável (PEDS), embora tecnicamente competentes, acabam frequentemente por não ser devidamente socializados nem apropriados pela sociedade civil ou pela oposição política, transformando-se em “planos de governo” e não em “planos de Estado”. Além disso, revelam fragilidades significativas ao nível da sua execução. Esta descontinuidade administrativa é uma ferida aberta no desenvolvimento nacional: a cada alternância de poder assiste-se a uma espécie de terraplanagem institucional, em que projetos estruturantes são descontinuados, rebatizados ou sabotados apenas por terem a paternidade da fação política rival, resultando num desperdício criminoso de recursos escassos e de tempo histórico que um pequeno Estado insular não se pode dar ao luxo de perder.
A ausência de continuidade estratégica agrava-se, e em grande parte explica-se, pela profunda degradação da qualidade da Administração Pública cabo-verdiana, vítima de um processo de partidarização excessiva que corrói os alicerces do Estado. A China, pese embora o seu sistema de partido único e as críticas legítimas quanto à falta de liberdades políticas, implementou no seio do seu aparelho administrativo e partidário uma meritocracia feroz. A ascensão de quadros na hierarquia estatal chinesa depende, em larga medida, de métricas de desempenho tangíveis – crescimento do PIB local, atração de investimento, estabilidade social –, criando uma elite burocrática altamente qualificada e orientada para resultados. Inversamente, em Cabo Verde, a administração do Estado foi capturada pela lógica do clientelismo e do amiguismo. O fenómeno da nomeação de boys partidários – indivíduos cuja principal qualificação é a lealdade à cor partidária do momento, seja ela do MpD ou do PAICV, em detrimento da competência técnica ou da experiência comprovada – tornou-se norma na ocupação de cargos de direção na administração central, nos institutos públicos e nas empresas estatais. Esta prática nefasta tem consequências devastadoras: desprofissionaliza a gestão da coisa pública, promove a incompetência em posições de decisão crítica e, talvez o mais grave, destrói a memória institucional. A cada mudança de ciclo político, quadros técnicos competentes são saneados ou marginalizados e substituídos por comissários políticos muitas vezes impreparados, o que obriga a administração a “reinventar a roda” constantemente, perpetuando erros e impedindo a acumulação de saber técnico necessário para resolver problemas complexos. O Estado, que deveria ser o garante da estabilidade e da excelência, transformou-se numa agência de emprego para clientelas partidárias, onde o mérito é preterido em favor do compadrio e do nepotismo, asfixiando as aspirações de quem procura servir o país com base na competência e no rigor.
Este défice de meritocracia e de visão estende-se, de forma alarmante, ao setor da educação, pilar central sobre o qual a China alicerçou a sua transformação. Pequim compreendeu, desde as reformas de Deng Xiaoping, que a soberania no século XXI se constrói com capital humano de excelência, investindo massivamente na qualidade do ensino básico, na expansão de universidades de elite e em investigação e desenvolvimento. Cabo Verde, que no pós-independência exibiu indicadores de escolarização louváveis no contexto africano, enfrenta hoje uma crise silenciosa de qualidade e pertinência. Houve, efetivamente, uma aposta na massificação do acesso e na construção de infraestruturas educativas, mas descurou-se tragicamente a substância. O sistema de ensino cabo-verdiano vive um processo de deterioração progressiva, caraterizado por currículos desajustados da realidade económica global e das necessidades locais, por um corpo docente frequentemente desmotivado e com lacunas formativas, e por uma inflação de diplomas que não encontram correspondência em competências reais no mercado de trabalho. O ensino superior cabo-verdiano, salvo honrosas exceções, tem falhado na sua missão de ser um farol de inovação e pensamento crítico, produzindo anualmente centenas de licenciados sem empregabilidade, enquanto o país carece desesperadamente de quadros técnicos intermédios – engenheiros e especialistas em áreas-chave como a economia azul, as energias renováveis ou a tecnologia digital. A excessiva politização das lideranças educativas e a resistência a reformas estruturais que privilegiem a exigência e a excelência condenam a juventude cabo-verdiana a uma subalternidade competitiva. Ao contrário da China, que formou exércitos de engenheiros e cientistas para suportar a sua industrialização, Cabo Verde parece formar uma geração com expetativas frustradas, sem as ferramentas analíticas e técnicas para transformar a economia nacional, perpetuando a dependência de consultoria externa e de ajuda ao desenvolvimento.
No domínio das infraestruturas e da organização do território, a comparação é igualmente dolorosa. A China utilizou a construção de infraestruturas – portos, aeroportos, redes ferroviárias de alta velocidade e infraestruturas digitais – como alavanca deliberada para a integração do mercado interno e a redução dos custos de contexto, numa lógica de conectividade funcional. Em Cabo Verde, a política de infraestruturas tem sido, demasiadas vezes, guiada pela lógica da “obra de fachada”, do betão visível que rende votos no curto prazo, em detrimento da racionalidade económica e da sustentabilidade financeira. O país contraiu dívidas avultadas para erguer infraestruturas que, em muitos casos, se encontram subutilizadas ou carecem de modelos de gestão eficientes. O exemplo mais paradigmático e vergonhoso desta incompetência estratégica reside no dossiê dos transportes marítimos e aéreos interilhas. Cinquenta anos após a independência, é incompreensível e inaceitável que um país arquipelágico não tenha conseguido, ainda, garantir um sistema de mobilidade fiável, regular e acessível entre as suas ilhas. A descontinuidade territorial, que deveria ser o foco central de qualquer política de Estado, continua a ser um entrave maior ao desenvolvimento do turismo, do comércio interno e da coesão nacional, fruto de décadas de modelos falhados, concessões mal negociadas, subsídios opacos e de uma incapacidade confrangedora de regulação estatal. Enquanto a China constrói pontes sobre mares e túneis através de montanhas em tempo recorde, Cabo Verde debate-se, década após década, com a incapacidade de manter um navio ou um avião a ligar as suas ilhas de forma previsível – um falhanço que reflete a ausência de planeamento integrado e a primazia de interesses opacos sobre o bem comum.
Para além das questões técnicas e administrativas, há uma dimensão sociopolítica que distingue a trajetória das duas nações e que merece reflexão crítica profunda: a qualidade da participação cívica e o ambiente intelectual. Paradoxalmente, embora Cabo Verde seja uma democracia em fase de amadurecimento e a China um regime autoritário, a sociedade civil cabo-verdiana encontra-se excessivamente coartada e condicionada por uma polarização política tóxica. O espaço público em Cabo Verde foi sequestrado pelas máquinas partidárias, criando um ambiente de “nós contra eles” que inibe o pensamento independente e a crítica construtiva. Existe uma autocensura latente que permeia a sociedade: empresários receiam perder contratos com o Estado se criticarem o governo, académicos evitam temas sensíveis para não comprometerem as suas carreiras, e cidadãos comuns hesitam em exprimir opiniões divergentes com receio de represálias ou exclusão social. O Estado, sendo o principal empregador e o principal cliente da economia, exerce um poder desproporcional de cooptação e de silenciamento. Esta atmosfera asfixiante comprime a participação cívica e impede que os melhores talentos contribuam para a solução dos problemas nacionais. A meritocracia é sacrificada no altar da lealdade partidária, e o país perde a sua capacidade de autoanálise e de correção de rumo. Na China, apesar da censura política, existe um debate intenso e pragmático dentro dos círculos técnicos e académicos sobre as melhores soluções para o desenvolvimento económico; em Cabo Verde, o debate é frequentemente reduzido a questiúnculas partidárias estéreis, personalizadas e desprovidas de conteúdo programático, onde a preocupação central é a manutenção ou a conquista do poder, e não a resolução dos problemas estruturais do país.
A dependência externa é outro fator onde a divergência se acentua. A China soube utilizar o investimento estrangeiro e a abertura ao mundo como ferramentas para fortalecer a sua soberania, exigindo transferências de tecnologia e capacitação local. Cabo Verde, após meio século, continua perigosamente dependente da ajuda pública ao desenvolvimento, das remessas dos emigrantes e de um turismo de massas dominado por operadores externos, com pouca incorporação de valor nacional. A diplomacia económica cabo-verdiana, embora ativa, carece muitas vezes da sofisticação e da firmeza necessárias para negociar acordos que protejam efetivamente o interesse nacional a longo prazo. A relação com a própria China é exemplo disso: sendo benéfica em termos de infraestruturas visíveis, levanta questões sobre o endividamento e sobre a efetiva transferência de know-how para os quadros cabo-verdianos. Falta a Cabo Verde uma estratégia de inserção internacional que vá além da mão estendida – uma postura que valorize a sua posição geoestratégica no Atlântico Médio não apenas como slogan, mas como ativo económico tangível, capaz de gerar riqueza endógena e reduzir a vulnerabilidade a choques externos.
Em suma, a análise comparativa entre a trajetória da China e os cinquenta anos de independência de Cabo Verde expõe, de forma crua, as fragilidades de um modelo de desenvolvimento que, apesar dos ganhos inegáveis em democracia formal e liberdade, falhou na construção de um Estado eficiente, meritocrático e estratega. O “milagre” chinês ensina-nos que o desenvolvimento não ocorre por geração espontânea, nem se decreta em discursos de circunstância; é, antes, o produto de uma visão de longo prazo, de uma disciplina executiva consistente e de uma cultura de exigência que premeia a competência e pune a mediocridade. Não se trata de copiar, mas de aprender com quem soube transformar limitações em oportunidades e construir, com pragmatismo e visão, um caminho próprio para o desenvolvimento.
Cabo Verde encontra-se numa encruzilhada histórica perigosa. A persistência num modelo de governação marcado pela partidarização excessiva da administração, pela degradação do ensino, pelo nepotismo e pela ausência de consensos estratégicos condenará o arquipélago a uma estagnação secular e à irrelevância. O país necessita, urgentemente, de uma rutura paradigmática – de uma reforma do Estado que vá além da cosmética e que tenha a coragem de enfrentar os interesses instalados. É imperativo despartidarizar a Administração Pública, blindando-a da voracidade dos ciclos eleitorais; é urgente refundar o sistema educativo com base na qualidade e na exigência; é vital promover uma cultura de mérito em que os boys cedam lugar aos melhores quadros produzidos pelo país, tanto nas ilhas como na diáspora.
Cabo Verde tem todas as condições – estabilidade, posição geográfica e recursos humanos – para trilhar um caminho de prosperidade, mas, para isso, precisa de assimilar a lição mais difícil que a China oferece: a de que o sucesso das nações se constrói com rigor, planeamento e, acima de tudo, com um sentido de Estado que se sobreponha aos interesses mesquinhos das fações partidárias. Sem essa mudança de mentalidade, os próximos cinquenta anos serão apenas um eco pálido das oportunidades perdidas no presente.
Praia, 24 de janeiro de 2026
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