Receitas fiscais e financiamento do Estado: desmontando o mito dos 90%*
À medida que Cabo Verde se aproxima de novas eleições
legislativas, torna-se inevitável olhar para trás e avaliar, com sobriedade e
rigor, o percurso governativo dos últimos anos. Desde 2016 que o MpD exerce o
poder, prometendo modernização, estabilidade, transparência e desenvolvimento
acelerado. Contudo, após quase uma década de governação, o traço dominante não
é a concretização dessas promessas estruturantes, mas antes a construção
sistemática de uma narrativa política assente em slogans, anúncios tardios e
hipérboles cuidadosamente embaladas como verdades incontestáveis. É neste
contexto que emerge aquilo que se pode designar, sem exagero, como a “hipérbole
verídica”: um discurso que parte de fragmentos reais, mas os reorganiza
seletivamente para produzir uma perceção pública profundamente distorcida da
realidade.
Um dos exemplos mais elucidativos desta prática é a
insistência recente do Governo e do MpD em afirmar que as receitas fiscais já
financiam entre 85% e 90% do Orçamento do Estado (OE). Esta afirmação tem sido
apresentada como prova de maturidade fiscal, de consolidação orçamental e de
boa governação económica. No entanto, quando confrontada com os próprios dados
oficiais do Ministério das Finanças, essa narrativa revela-se insustentável.
Não estamos perante uma mera divergência de interpretações técnicas, mas
perante uma afirmação politicamente construída que não resiste a uma leitura
séria e rigorosa dos números.
Entre 2023 e 2025 – período que abrange a recuperação
pós-pandemia e o atual ciclo de crescimento económico relativamente robusto –
as receitas fiscais aumentaram de forma significativa em termos nominais. Ainda
assim, em nenhum desses anos as receitas fiscais financiaram sequer 65% das
despesas totais do OE, de acordo com os dados constantes dos respetivos
orçamentos. Em 2023, esse rácio situava-se em torno dos 57%. Em 2024, subiu
para cerca de 64,4% e, em 2025, terá recuado para aproximadamente 60%. Mesmo
quando a análise é artificialmente restringida às despesas correntes – uma opção
metodológica politicamente conveniente, mas conceptualmente discutível – a
cobertura pelas receitas fiscais aumenta de 67,2% em 2023 para 75% em 2024,
voltando a cair para 72,8% em 2025. Estes números, extraídos dos documentos
orçamentais oficiais, desmontam de forma inequívoca a tese dos “85% a 90%”.
A manipulação do discurso não se limita à apresentação
enviesada de rácios. Ela assenta também na omissão deliberada da dinâmica da
despesa pública. Entre 2023 e 2025, as despesas correntes aumentam de cerca de
66 mil milhões para aproximadamente 81 mil milhões de escudos, um crescimento
superior a 22,7% em apenas dois anos. Este aumento não resulta de um reforço
excecional do investimento público produtivo, mas sobretudo do crescimento
contínuo de despesas rígidas: salários, pensões, prestações sociais, aquisição
de bens e serviços e encargos com juros da dívida pública. O Estado
cabo-verdiano cresce, assim, mais depressa do que a economia que o sustenta,
aprofundando um fosso estrutural entre receitas permanentes e obrigações
permanentes.
A melhor prova de que a narrativa oficial não
corresponde à realidade encontra-se, paradoxalmente, noutro conjunto de dados
produzidos pelo próprio Governo: a evolução do stock oficial da dívida pública.
Se as receitas fiscais estivessem efetivamente a financiar 85% ou 90% do OE,
seria expectável observar uma redução consistente do recurso ao endividamento.
O que se verifica é exatamente o contrário. Em 2023, a dívida pública ascendia
a cerca de 298 mil milhões de escudos, correspondendo a aproximadamente 113% do
PIB “rebased” (redimensionado) – uma atualização metodológica que aumentou o
valor contabilístico da economia em cerca de 15 mil milhões de escudos,
aliviando artificialmente os rácios dívida/PIB. Em 2024, o stock aumentou para
mais de 305 mil milhões de escudos, com uma redução apenas marginal do rácio,
explicada sobretudo pelo crescimento nominal do PIB. Para 2025, projeta-se uma
dívida superior a 312 mil milhões de escudos, ainda acima de 105% do PIB
“rebased”. Importa salientar que se trata de um stock subvalorizado, na medida
em que exclui diversos passivos que, segundo as boas práticas internacionais,
deveriam integrar o perímetro da dívida pública – como já foi demonstrado em
outros artigos de opinião.
Um Estado, cuja dívida pública permanece acima dos
100% do PIB durante vários anos consecutivos, não pode proclamar, com
seriedade, que o seu OE se financia maioritariamente com receitas próprias. O
elevado stock da dívida constitui a prova empírica de que o endividamento
continua a ser um instrumento estrutural de financiamento do funcionamento
corrente do Estado. Acresce que o crescimento da componente da dívida interna
intensifica a pressão sobre o sistema financeiro nacional, sobre as taxas de
juro e sobre o próprio crescimento económico, num contexto em que a margem de
manobra futura se torna progressivamente mais estreita.
Este quadro orçamental e financeiro insere-se numa
lógica mais ampla de governação assente na propaganda e na gestão da perceção
pública. Tal como sucede com os transportes interilhas, com o Hospital
Nacional, com os aeroportos prometidos, com as residências universitárias ou
com a reforma do Estado, também nas finanças públicas se recorre à antecipação
eleitoral para transformar fragilidades estruturais em supostos triunfos. O que
não foi resolvido em quase dez anos é agora apresentado como estando resolvido
– ou prestes a estar – através de anúncios grandiloquentes e leituras
enviesadas da realidade.
A carga fiscal, frequentemente invocada como sinal de
sucesso, constitui outro exemplo deste paradoxo. Situando-se entre 18% e 20% do
PIB, não é particularmente elevada em termos internacionais. Contudo, é
profundamente injusta e ineficiente, por incidir sobre uma base tributária
estreita, excessivamente dependente de impostos indiretos e concentrada num
número reduzido de contribuintes. Cobra-se muito a poucos, cobra-se pouco a
muitos e, no final, cobra-se insuficientemente para sustentar um Estado em
expansão permanente.
Após quase uma década de governação, o problema
central já não reside apenas no incumprimento de promessas, mas no padrão que
se consolidou: um modelo de governação que privilegia a propaganda em
detrimento da prestação de contas, a manipulação do discurso público em detrimento
da transparência e a construção de narrativas autoglorificadoras em detrimento
da verdade. A insistência em afirmar que as receitas fiscais financiam 85% ou
90% do OE constitui apenas mais uma expressão dessa hipérbole verídica – uma
verdade tão exagerada que acaba por se tornar falsa. Ora, propaganda, por mais
sofisticada que seja, não substitui a verdade, não paga a dívida nem constrói
futuro.
Cabo Verde precisa, com urgência, de um banho de
realismo. Precisa de governantes que respeitem a inteligência dos cidadãos e tratem
os números com honestidade em vez de os manipular, como se os cabo-verdianos fossem
incapazes de compreender a realidade.
Praia, 31de janeiro de 2026
*Artigo de opinião publicado no jornal A Nação, edição n.º 962, de 05 de fevereiro de 2016
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