Ernâni Lopes e o caminho estratégico de Cabo Verde*
Ernâni Lopes
(1942–2010), economista português de reconhecido prestígio, deixou um
contributo relevante para o pensamento sobre países de pequena escala e
recursos limitados. Recusando rótulos ideológicos, Lopes privilegiava soluções
pragmáticas que conciliassem a transição para uma economia dinâmica com a
preservação do Estado social. Em setembro passado, Portugal homenageou-o com
uma conferência e a publicação de um livro, gesto que reafirma a atualidade do
seu pensamento e a urgência de revisitar os dilemas que antecipou.Em 1988 criou a SaeR – Sociedade de Avaliação Estratégica e Risco, instituição que produziu, em 1995 e a pedido do Governo cabo-verdiano da altura, um extenso estudo em três volumes sobre o desenvolvimento do arquipélago. Trata-se de um documento que, ainda hoje, é talvez o mais completo sobre o tema e, paradoxalmente, permanece esquecido, engavetado nas instituições governamentais. Aliás, Cabo Verde tornou-se especialista em gastar rios de dinheiro em estudos e, sobretudo nos últimos dez anos, num sem-número de conferências dispendiosas e praticamente sem utilidade: realizam-se, mas ninguém se preocupa em traduzir as conclusões e recomendações em políticas eficazes.
O primeiro volume, “Documento de Estratégia”, parte de uma premissa incontornável: a singularidade estrutural de Cabo Verde. O país enfrenta condições naturais adversas, recursos escassos e uma demografia oscilante, combinação que gera vulnerabilidade permanente. Pequenas alterações na dinâmica social ou económica podem rapidamente tornar inviáveis certos equilíbrios. Por isso, qualquer estratégia deve conciliar duas dimensões indissociáveis: proteger a viabilidade interna – assegurando subsistência e coesão – e afirmar externamente o arquipélago criando ligações capazes de captar apoio financeiro, humano e tecnológico.
Historicamente, Cabo Verde serviu como nó de circulação no Atlântico – primeiro no tráfico de escravos, depois como ponto de escala marítimo e aéreo – o que lhe conferiu relevância e integração em fluxos internacionais. Com as mudanças tecnológicas, essa função perdeu centralidade, deixando a economia dependente sobretudo das remessas da diáspora e da ajuda externa. Lopes propõe recuperar, de forma adaptada, essa vocação de circulação: não recriar funções obsoletas, mas identificar nichos funcionais na globalização onde o país possa oferecer serviços, conhecimento e capital humano, reforçando os laços com a diáspora, vista como “ilhas exteriores” do arquipélago.
O estudo alerta contra duas tentações perigosas. A primeira é tentar fazer de Cabo Verde “um país como os outros”, aplicando modelos concebidos para sociedades com amplos recursos e mercados internos significativos – caminho que conduz ao fracasso, dada a escala reduzida e a base ecológica frágil do país. A segunda é aceitar indefinidamente um estatuto de excecionalidade que justifique dependência prolongada de ajudas externas. Ainda que a singularidade possa exigir apoios temporários, a dependência estrutural fragiliza a gestão interna e a autonomia política e económica.
Entre os erros estratégicos a evitar, o documento destaca a reprodução de padrões coloniais de desenvolvimento, a industrialização forçada sem vantagens competitivas, políticas protecionistas para procurar autossuficiência e modelos nacionalistas que alimentem expetativas irrealistas. A globalização intensifica a concorrência e reduz o papel das fronteiras económicas; para um mercado interno diminuto como o cabo-verdiano, replicar o percurso histórico dos Estados europeus é inviável e potencialmente danoso, gerando desperdício de recursos e erosão da autoridade do Estado.
A estratégia alternativa proposta assenta em dois pilares complementares. O pilar interno requer uma cultura de contenção – uma “cultura do deserto” – que privilegie a racionalidade no uso dos recursos, a moderação do consumo e a mobilização coletiva em torno da subsistência. A agricultura deve ser encarada como um setor de sobrevivência, gerido com rigor e com investimentos que não comprometam os frágeis equilíbrios ambientais. Nenhum projeto deve pôr em risco recursos cuja perda teria efeitos irreversíveis sobre a sustentabilidade do país.
O pilar externo implica reinserir Cabo Verde em redes globais por meio da oferta de serviços especializados. O país pode explorar vantagens estratégicas como localização atlântica, estabilidade política e capital humano qualificado para se afirmar como parceiro na modernização africana e em projetos regionais. Investir em formação técnica e científica com vocação internacional é essencial, formando quadros capazes de participar em iniciativas regionais e de corresponder às exigências das agências de desenvolvimento. A diáspora deve ser mobilizada não só como fonte de remessas, mas como ponte de transferência de conhecimento, capital e oportunidades. Relações diplomáticas neutras e cooperantes são indispensáveis para garantir apoio e reduzir riscos externos.
No âmbito dessas orientações gerais, o turismo assume um lugar especial no estudo coordenado pelo economista e investigador Ernâni Lopes. O documento reconhece que o turismo pode desempenhar um papel relevante na economia cabo-verdiana, mas alerta para os riscos de uma abordagem simplista que o veja como solução milagrosa. Ou seja, o turismo não pode ser concebido apenas como uma fonte de divisas rápida, à custa da massificação e da degradação ambiental. Pelo contrário, deve ser integrado numa estratégia sustentável, respeitando os limites ecológicos do arquipélago e valorizando a sua cultura única.
Em conclusão, o documento oferece uma orientação clara: Cabo Verde deve assumir a sua singularidade como ponto de partida, evitando tanto a imitação cega de modelos externos como a dependência resignada de apoios internacionais. A melhor estratégia é aquela que equilibra a disciplina interna com a inserção externa, a preservação ecológica com a participação global, a moderação cultural com a ambição diplomática. O turismo, dentro deste quadro, pode ser uma peça importante, mas nunca a peça única. O futuro de Cabo Verde depende da sua capacidade de reinventar a sua função no mundo, transformando a fragilidade em oportunidade e a escassez em criatividade. Esta é uma tarefa difícil, mas não impossível, desde que se compreenda que o verdadeiro objetivo não é copiar os percursos de outros países, mas construir um caminho próprio, sustentado na realidade concreta do arquipélago e nas tendências dominantes da globalização.
Ignorar esta visão integrada comporta riscos sérios. A continuação do atual modelo de crescimento, baseado na excessiva dependência do turismo de massa, a submissão à ajuda externa e a falta de projetos mobilizadores podem degradar os equilíbrios ecológicos e sociais e conduzir a um retrocesso, comprometendo o futuro do país. Cabo Verde não tem margem para grandes erros: cada opção estratégica deve ser ponderada à luz das suas vulnerabilidades e das tendências globais.
Urge revisitar o documento de Ernâni Lopes e aprofundar o seu estudo!
Praia, 14 de março de 2026
*Artigo de opinião publicado no jornal A Nação, edição n.º 968, de 19 de março de 2026
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