Geopolítica de um xerife global errático: que implicações para Cabo Verde?*

 

A ideia de um “xerife global” sempre foi, em si mesma, uma construção ambígua: simultaneamente associada à manutenção da ordem internacional e à imposição unilateral de poder. Contudo, quando esse xerife atua de forma errática – ou deliberadamente imprevisível – o sistema internacional deixa de ser apenas assimétrico para se tornar estruturalmente instável. A ação de um “xerife louco, ou que se faz de louco”, conceito que ecoa a chamada teoria do louco em geopolítica, não constitui apenas uma deriva retórica; transforma-se num instrumento estratégico que introduz incerteza sistémica, desorganizando expetativas, alianças e mecanismos de regulação global. Para países pequenos, abertos e altamente dependentes do exterior, como Cabo Verde, essa instabilidade não é abstrata: é uma variável concreta que afeta diretamente o quotidiano económico e social.

A atual conjuntura internacional, marcada pela escalada no Médio Oriente e pelo confronto indireto entre grandes potências, ilustra de forma particularmente clara esse fenómeno. O bloqueio funcional do Estreito de Ormuz – por onde circula cerca de 20% do comércio mundial de petróleo – constitui um choque de primeira ordem, com impacto imediato nos preços da energia e, por arrastamento, na inflação global. O regresso do preço do petróleo à casa dos 100 dólares por barril não é apenas um dado de mercado; é um multiplicador de tensões macroeconómicas, sobretudo em economias importadoras líquidas de energia.

 

Cabo Verde insere-se precisamente neste grupo. Com uma forte dependência energética externa, o país está estruturalmente exposto à volatilidade dos mercados internacionais. O aumento do preço dos combustíveis repercute-se de forma quase automática nos custos de transporte, na produção de eletricidade e no preço dos bens essenciais. Num contexto em que a inflação já é sensível a choques externos, um aumento prolongado dos preços energéticos traduz-se numa erosão do poder de compra das famílias e numa pressão acrescida sobre as finanças públicas, na medida em que o Estado tende a intervir para mitigar os efeitos sociais, através de subsídios ou ajustamentos fiscais.

 

Mas o impacto não se limita à dimensão energética. A economia cabo-verdiana é fortemente dependente do turismo, setor que representa cerca de 20% a 25% do PIB e uma fatia significativa do emprego. A instabilidade geopolítica global tende a afetar negativamente a procura turística, seja através da redução do rendimento disponível nos países emissores, seja pelo aumento dos custos de transporte aéreo, diretamente ligados ao preço do combustível. Uma desaceleração do turismo traduz-se rapidamente em menor entrada de divisas, agravando o défice externo e pressionando as reservas externas.

 

A par do turismo, as remessas dos emigrantes – que representam cerca de 10% a 12% do PIB – constituem outro pilar essencial da economia cabo-verdiana. Num cenário de desaceleração económica nas principais economias de acolhimento, como Portugal, França ou Estados Unidos, essas transferências podem sofrer uma contração, reduzindo ainda mais a capacidade de consumo interno e a resiliência das famílias. Assim, um choque geopolítico aparentemente distante materializa-se, em Cabo Verde, numa tripla pressão: inflação importada, queda potencial das receitas turísticas e redução das divisas.

 

Neste quadro, os riscos do cenário macroeconómico do Governo inclinam-se em baixa para o crescimento da atividade económica e em alta para a inflação em 2026. As previsões oficiais apontam para um crescimento do PIB de 6% e uma inflação de 1,6%. No que respeita à inflação, o Governo baseou-se na hipótese de uma redução do preço do petróleo para 65,4 dólares por barril, face aos 68,9 dólares estimados para 2025. Contudo, desde março de 2026, os preços internacionais do petróleo têm registado forte volatilidade, situando-se em cerca de 95 a 118 dólares por barril, pressionados por tensões geopolíticas no Médio Oriente.

 

Por outro lado, a margem de manobra da política económica é limitada. O Banco de Cabo Verde, num regime de paridade cambial com o euro, vê-se condicionado na sua capacidade de resposta monetária, enquanto o espaço orçamental é restringido por níveis de dívida pública muito elevados. Tal como sucede na zona euro, também em Cabo Verde se coloca um dilema: apoiar a economia num contexto adverso sem comprometer a sustentabilidade financeira. A diferença é que, num pequeno Estado insular, os choques externos têm uma intensidade proporcionalmente maior e os instrumentos de resposta são mais escassos.

 

Para além das implicações económicas, a instabilidade induzida por uma liderança global imprevisível tem efeitos geopolíticos indiretos que também atingem Cabo Verde. A fragmentação da ordem internacional e o enfraquecimento do multilateralismo podem comprometer o funcionamento de instituições e mecanismos de cooperação dos quais o país depende, seja em matéria de financiamento ao desenvolvimento, seja na gestão de desafios globais como as alterações climáticas. Num mundo mais polarizado, os pequenos Estados correm o risco de ver reduzido o seu espaço de autonomia estratégica, sendo pressionados a alinhar com blocos ou interesses externos.

 

A teoria do louco, frequentemente associada à estratégia de Richard Nixon, assenta na ideia de que a imprevisibilidade pode ser utilizada como instrumento de dissuasão. No entanto, quando aplicada num sistema internacional altamente interdependente, esta abordagem tende a gerar efeitos colaterais desproporcionais, sobretudo para os países mais vulneráveis. O problema não reside apenas na possibilidade de escalada militar, mas na normalização da incerteza como condição permanente do sistema internacional.

 

Para Cabo Verde, cuja estabilidade depende em larga medida da previsibilidade externa, esta realidade impõe uma reflexão estratégica. A diversificação das fontes de energia, com aposta nas renováveis, deixa de ser apenas uma opção ambiental para se afirmar como uma necessidade geopolítica. Do mesmo modo, a diversificação dos mercados turísticos e o reforço da resiliência económica interna tornam-se imperativos num contexto em que os choques externos tendem a ser mais frequentes e intensos.

 

Em última análise, as consequências globais da ação de um “xerife louco” não se limitam às grandes potências ou às regiões em conflito direto. Elas propagam-se através dos mercados, das cadeias de valor e das interdependências económicas, atingindo com particular intensidade os países pequenos e abertos.

 

Num mundo em que a ordem internacional se torna mais volátil e menos previsível, a estabilidade deixa de ser um dado adquirido e passa a ser um bem escasso. Para países como Cabo Verde, a resposta não pode passar pelo isolamento – que seria inviável – mas sim por uma estratégia inteligente de adaptação, reforçando a resiliência interna e diversificando as suas dependências externas. Porque, quando o “xerife” perde a previsibilidade, são muitas vezes os mais pequenos que pagam o preço mais elevado.


Praia, 18 de abril de 2026


*Artigo de opinião publicado no jornal A Nação, edição n.º 973, de 23 de abril de 2026


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