Meio século de cooperação China-Cabo Verde: da ajuda à estratégia*

 

Cinquenta anos depois do estabelecimento das relações diplomáticas entre Cabo Verde e a China, o mínimo que se exige a quem analisa esta relação é honestidade intelectual. E essa honestidade começa por reconhecer o óbvio: a China teve e continua a ter um papel relevante no desenvolvimento do país. Ao longo de décadas, a cooperação chinesa ajudou a construir infraestruturas, a reforçar o sistema de saúde, a formar quadros e a apoiar o sistema educativo. Barragens, estádios, edifícios públicos, habitação social e equipamentos coletivos não são abstrações; são marcas físicas de uma parceria que, em muitos momentos, respondeu a necessidades reais de Cabo Verde. Este legado é real, é tangível e merece ser valorizado.

Os números mais recentes mostram a continuidade da ajuda chinesa: acordos de cooperação de 200 milhões de yuans (cerca de 30 milhões de dólares) em 2025 e 100 milhões de yuans (cerca de 15 milhões de dólares) em 2026, acompanhados de apoios setoriais, como a reabilitação de escolas. É ajuda concreta, visível e politicamente relevante.

 

Mas é precisamente aqui que começa o problema.

 

Porque, meio século após a Independência Nacional, continuar a medir o sucesso das relações externas pelo número de obras inauguradas ou pelo volume de ajuda recebida é mais do que anacrónico é sintoma de pobreza estratégica. A ajuda pode aliviar, mas não desenvolve. E Cabo Verde insiste em agir como se ainda não tivesse percebido essa evidência básica.

 

A escala dos números diz tudo. A ajuda chinesa a Cabo Verde mede-se em dezenas de milhões de dólares anuais. As necessidades de transformação económica medem-se em centenas de milhões de dólares por ano. O próprio Banco Africano de Desenvolvimento estima que o país precisa de cerca de 163 milhões de dólares anuais até 2030 apenas para infraestruturas e energia. A diferença entre os valores provenientes da ajuda pública ao desenvolvimento (APD) e as necessidades de financiamento do desenvolvimento de Cabo Verde não é apenas quantitativa; é estrutural. Não se resolve com mais acordos de cooperação. Resolve-se com estratégia.

 

O discurso oficial continua ancorado na lógica da parceria, da amizade e da cooperação. Tudo isso é importante, mas nada disso substitui uma política económica interna coerente. Cabo Verde continua a depender excessivamente de fluxos externos APD, remessas de emigrantes e turismo enquanto a base produtiva permanece estreita, vulnerável e pouco diversificada.

 

Mais grave ainda: mais de 80% dos recursos arrecadados internamente são absorvidos por um Estado pesado, caro e pouco eficiente. Os dados são claros. O FMI projeta que a despesa corrente primária continue a representar mais de 22% do PIB nos próximos anos, com a massa salarial da função pública a aproximar-se dos 10% do PIB. Ao mesmo tempo, a execução da despesa de capital aquela que poderia gerar transformação económica continua aquém do necessário.

 

Isto significa, na prática, que o Estado consome demasiado e investe de menos, perpetuando a necessidade de APD.

A pressão da dívida agrava ainda mais este quadro. O Banco Mundial indica que o serviço da dívida absorve uma parte significativa das receitas públicas, limitando a capacidade do país para investir no futuro. Mesmo com alguma redução recente do rácio da dívida pública oficial de 117% do PIB em 2023 para cerca de 112% em 2024 , a margem de manobra continua estreita. Um país que canaliza uma fatia tão relevante dos seus recursos para pagar o passado não pode dar-se ao luxo de adiar decisões estruturais.

 

E, no entanto, é isso que tem acontecido. Em vez de uma agenda clara de diversificação económica, de aumento da produtividade e de valorização do setor privado, o que se observa é a continuidade de práticas que drenam recursos e comprometem a eficiência do Estado. O crescimento da máquina pública, muitas vezes associado a lógicas de clientela político-partidária, a tolerância a práticas de nepotismo e a ausência de uma cultura robusta de avaliação de desempenho não são apenas problemas éticos; são entraves diretos ao desenvolvimento.

 

No contexto do continente africano, a China já ultrapassou há muito a lógica da ajuda. O comércio China-África atingiu cerca de 295 mil milhões de dólares em 2024, revelando uma relação económica densa, estruturada e orientada para cadeias de valor, investimento e integração produtiva. África, neste contexto, deixou de ser apenas destinatária de ajuda para se tornar parceira económica relevante. Ou seja, estamos perante o fim da ajuda da China como eixo central e o início ainda incipiente da estratégia. E estratégia, neste contexto, significa uma mudança de paradigma.

 

O contraste com Cabo Verde é evidente: a relação bilateral continua marcada por uma forte assimetria comercial, com o país a importar significativamente mais do que exporta para a China. Por exemplo, em 2024, as exportações da China para Cabo Verde atingiram cerca de 113,9 milhões de dólares, enquanto as exportações cabo-verdianas para a China permanecem praticamente inexistentes. Não há, até agora, uma integração significativa em cadeias de valor, nem uma estratégia clara para usar a parceria com a China como alavanca de industrialização ou de diversificação produtiva.

 

Cabo Verde sabe, em larga medida, o que quer: mais energias renováveis, maior segurança hídrica, uma economia azul mais estruturada, melhor conectividade digital e maior integração logística. Mas continua a falhar no essencial: transformar essas prioridades em projetos bancáveis, com modelos de negócio sólidos e capacidade de atrair investimento.

 

É precisamente neste ponto que a parceria com a China pode e deve evoluir, orientando o seu futuro para uma lógica de vantagens recíprocas e de construção conjunta. Pela sua estabilidade, pela sua posição geoestratégica no Atlântico Médio e pela pertença a espaços regionais como a CEDEAO e a CPLP, Cabo Verde apresenta-se como uma plataforma relevante para a projeção chinesa no continente africano, num contexto de crescente afirmação da cooperação Sul-Sul.

 

Mas essa evolução não será automática, nem garantida. Depende, em grande medida, da capacidade de Cabo Verde de redefinir os termos da relação com a China, saindo da lógica de recetor e assumindo a postura de um “arquiteto” orientado por uma visão ousada de financiamento do desenvolvimento.

Para além de uma visão estratégica de longo prazo, essa capacidade passa também por disciplina interna. Sem controlo da despesa, sem racionalização do Estado, sem combate efetivo às práticas de favorecimento e sem uma aposta séria na produtividade, nenhum modelo de financiamento seja chinês, europeu ou multilateral produzirá resultados transformadores.

 

Se os primeiros 50 anos foram o tempo da ajuda, os próximos terão de ser o tempo da estratégia.


E essa estratégia terá de ser exigente, seletiva e orientada para resultados. Porque, no fim, o verdadeiro legado de uma parceria não se mede pelas infraestruturas que constrói, mas pela economia que transforma.

Praia, 11 de abril de 2026

*Artigo publicado no jornal A Nação, edição n,º 972, de 16 de abril de 2026




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