Meio século de cooperação China-Cabo Verde: da ajuda à estratégia*
Os números mais recentes mostram a continuidade da ajuda chinesa: acordos de cooperação de 200 milhões de yuans (cerca de 30 milhões de dólares) em 2025 e 100 milhões de yuans (cerca de 15 milhões de dólares) em 2026, acompanhados de apoios setoriais, como a reabilitação de escolas. É ajuda concreta, visível e politicamente relevante.
Mas é precisamente aqui que começa o problema.
Porque, meio século após a Independência Nacional,
continuar a medir o sucesso das relações externas pelo número de obras
inauguradas ou pelo volume de ajuda recebida é mais do que anacrónico – é sintoma de pobreza estratégica. A ajuda pode
aliviar, mas não desenvolve. E Cabo Verde insiste em agir como se ainda não
tivesse percebido essa evidência básica.
A escala dos números diz tudo. A ajuda chinesa a Cabo
Verde mede-se em dezenas de milhões de dólares anuais. As necessidades de
transformação económica medem-se em centenas de milhões de dólares por ano. O
próprio Banco Africano de Desenvolvimento estima que o país precisa de cerca de
163 milhões de dólares anuais até 2030 apenas para infraestruturas e energia. A
diferença entre os valores provenientes da ajuda pública ao desenvolvimento
(APD) e as necessidades de financiamento do desenvolvimento de Cabo Verde não é
apenas quantitativa; é estrutural. Não se resolve com mais acordos de
cooperação. Resolve-se com estratégia.
O discurso oficial continua ancorado na lógica da
parceria, da amizade e da cooperação. Tudo isso é importante, mas nada disso
substitui uma política económica interna coerente. Cabo Verde continua a depender
excessivamente de fluxos externos – APD, remessas de emigrantes e turismo – enquanto a base produtiva permanece estreita,
vulnerável e pouco diversificada.
Mais grave ainda: mais de 80% dos recursos arrecadados
internamente são absorvidos por um Estado pesado, caro e pouco eficiente. Os
dados são claros. O FMI projeta que a despesa corrente primária continue a
representar mais de 22% do PIB nos próximos anos, com a massa salarial da
função pública a aproximar-se dos 10% do PIB. Ao mesmo tempo, a execução da
despesa de capital – aquela
que poderia gerar transformação económica – continua aquém do necessário.
Isto significa, na prática, que o Estado consome
demasiado e investe de menos, perpetuando a necessidade de APD.
A pressão da dívida agrava ainda mais este quadro. O
Banco Mundial indica que o serviço da dívida absorve uma parte significativa
das receitas públicas, limitando a capacidade do país para investir no futuro.
Mesmo com alguma redução recente do rácio da dívida pública oficial – de 117% do PIB em 2023 para cerca de 112% em 2024 –, a margem de manobra continua estreita. Um país que
canaliza uma fatia tão relevante dos seus recursos para pagar o passado não
pode dar-se ao luxo de adiar decisões estruturais.
E, no entanto, é isso que tem acontecido. Em vez de
uma agenda clara de diversificação económica, de aumento da produtividade e de
valorização do setor privado, o que se observa é a continuidade de práticas que
drenam recursos e comprometem a eficiência do Estado. O crescimento da máquina
pública, muitas vezes associado a lógicas de clientela político-partidária, a
tolerância a práticas de nepotismo e a ausência de uma cultura robusta de
avaliação de desempenho não são apenas problemas éticos; são entraves diretos
ao desenvolvimento.
No contexto do continente africano, a China já
ultrapassou há muito a lógica da ajuda. O comércio China-África atingiu cerca
de 295 mil milhões de dólares em 2024, revelando uma relação económica densa,
estruturada e orientada para cadeias de valor, investimento e integração
produtiva. África, neste contexto, deixou de ser apenas destinatária de ajuda
para se tornar parceira económica relevante. Ou seja, estamos perante o fim da
ajuda da China como eixo central e o início – ainda incipiente – da estratégia. E estratégia, neste contexto,
significa uma mudança de paradigma.
O contraste com Cabo Verde é evidente: a relação
bilateral continua marcada por uma forte assimetria comercial, com o país a
importar significativamente mais do que exporta para a China. Por exemplo, em
2024, as exportações da China para Cabo Verde atingiram cerca de 113,9 milhões
de dólares, enquanto as exportações cabo-verdianas para a China permanecem
praticamente inexistentes. Não há, até agora, uma integração significativa em
cadeias de valor, nem uma estratégia clara para usar a parceria com a China
como alavanca de industrialização ou de diversificação produtiva.
Cabo Verde sabe, em larga medida, o que quer: mais
energias renováveis, maior segurança hídrica, uma economia azul mais estruturada,
melhor conectividade digital e maior integração logística. Mas continua a
falhar no essencial: transformar essas prioridades em projetos bancáveis, com
modelos de negócio sólidos e capacidade de atrair investimento.
É precisamente neste ponto que a parceria com a China
pode – e deve
–
evoluir, orientando o seu futuro para uma lógica de vantagens recíprocas e de
construção conjunta. Pela sua estabilidade, pela sua posição geoestratégica no
Atlântico Médio e pela pertença a espaços regionais como a CEDEAO e a CPLP,
Cabo Verde apresenta-se como uma plataforma relevante para a projeção chinesa
no continente africano, num contexto de crescente afirmação da cooperação
Sul-Sul.
Mas essa evolução não será automática, nem garantida.
Depende, em grande medida, da capacidade de Cabo Verde de redefinir os termos
da relação com a China, saindo da lógica de recetor e assumindo a postura de um
“arquiteto” orientado por uma visão ousada de financiamento do desenvolvimento.
Para além de uma visão estratégica de longo prazo,
essa capacidade passa também por disciplina interna. Sem controlo da despesa,
sem racionalização do Estado, sem combate efetivo às práticas de favorecimento
e sem uma aposta séria na produtividade, nenhum modelo de financiamento – seja chinês, europeu ou multilateral – produzirá resultados transformadores.
Se os primeiros 50 anos foram o tempo da ajuda, os
próximos terão de ser o tempo da estratégia.
E essa estratégia terá de ser exigente, seletiva e
orientada para resultados. Porque, no fim, o verdadeiro legado de uma parceria
não se mede pelas infraestruturas que constrói, mas pela economia que
transforma.
Praia, 11 de abril de 2026
*Artigo publicado no jornal A Nação, edição n,º 972, de 16 de abril de 2026
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