Tio Sam como xerife global: entre a ordem e o caos

 

A figura do “xerife global” sempre ocupou um lugar ambíguo na imaginação geopolítica: simultaneamente associada à manutenção da ordem internacional e à imposição unilateral de poder. Durante décadas, essa ambiguidade foi parcialmente mitigada por um quadro institucional relativamente robusto, ancorado em regras, alianças e mecanismos multilaterais que conferiam previsibilidade à atuação das grandes potências. Contudo, quando esse “xerife” passa a agir de forma errática – ou deliberadamente imprevisível – deixa de ser apenas um garante da ordem para se transformar num fator ativo de instabilidade. A lógica da dissuasão pela imprevisibilidade, frequentemente associada à chamada “teoria do louco”, deixa então de ser um instrumento tático e passa a assumir contornos sistémicos, com implicações profundas para a economia global, para a segurança internacional e para a própria arquitetura das relações entre Estados.

A conjuntura recente ilustra com particular clareza esta transformação. A intensificação da política intervencionista da atual administração norte-americana, designadamente no conflito envolvendo o Irão e em coordenação com Israel, representa uma inflexão relevante face a padrões anteriores de contenção estratégica. As operações militares dirigidas contra alvos iranianos e as subsequentes retaliações ampliaram o teatro de operações para além do espaço estritamente regional, projetando os seus efeitos sobre uma das zonas mais sensíveis da economia mundial: o Golfo Pérsico. A perturbação do tráfego no Estreito de Ormuz – por onde circula uma parte significativa do comércio global de petróleo (cerca de 20%) – não constitui apenas um episódio geopolítico; é, sobretudo, um choque económico de primeira ordem, com efeitos imediatos sobre os preços da energia e, por arrastamento, sobre a inflação global.

 

O aumento das cotações do petróleo, frequentemente impulsionado mais por expectativas de risco do que por escassez física imediata, tem um efeito multiplicador que atravessa toda a economia. O encarecimento dos combustíveis traduz-se em custos mais elevados de transporte, produção industrial e distribuição alimentar, pressionando os índices de preços ao consumidor e reduzindo o rendimento real das famílias. Este mecanismo é particularmente gravoso para economias dependentes de importações energéticas, que enfrentam uma deterioração dos termos de troca e uma compressão do crescimento. Ao mesmo tempo, os bancos centrais veem-se confrontados com um dilema clássico, mas agravado: conter a inflação sem sufocar uma atividade económica já fragilizada por sucessivos choques externos. A margem de manobra da política monetária torna-se, assim, mais estreita, enquanto o risco de erros de calibragem aumenta.

 

A dimensão financeira deste processo não é menos relevante. A incerteza geopolítica tende a elevar o prémio de risco exigido pelos investidores, pressionando as yields da dívida soberana e corporativa e encarecendo o financiamento para Estados e empresas. Em contextos de elevada volatilidade, assiste-se frequentemente a movimentos de fuga para ativos considerados seguros, embora, paradoxalmente, a própria noção de “porto seguro” se torne mais relativa quando a instabilidade tem origem no centro do sistema. O investimento direto estrangeiro tende a retrair-se, os mercados tornam-se mais sensíveis a choques exógenos e a confiança – variável essencial, mas intangível – sofre erosões difíceis de reverter no curto prazo.

 

Para além dos efeitos económicos imediatos, a atuação de um “xerife” imprevisível tem implicações profundas no plano geopolítico. A perceção de que os compromissos internacionais podem ser subordinados a decisões unilaterais fragiliza alianças tradicionais e incentiva comportamentos estratégicos mais cautelosos por parte de parceiros históricos. Simultaneamente, abre espaço para que outras potências, como a China e a Rússia, explorem essas fissuras, reforçando a sua presença em regiões críticas e apresentando-se como alternativas ao modelo de liderança dominante. O resultado é uma progressiva fragmentação da ordem internacional, em que o multilateralismo cede terreno a uma lógica de blocos, esferas de influência e equilíbrios instáveis.

 

Neste contexto, a natureza dos conflitos também se transforma. O confronto direto entre grandes potências tende a ser substituído por guerras por procuração, ataques híbridos e pressões económicas, onde atores regionais desempenham papéis centrais em dinâmicas de competição mais amplas. O caso do Irão é ilustrativo: impossibilitado de enfrentar diretamente os Estados Unidos em termos convencionais, recorre a estratégias assimétricas que visam atingir pontos nevrálgicos da economia global, como os fluxos energéticos e as rotas marítimas. Quando estas dinâmicas se cruzam com uma liderança imprevisível do lado oposto, o risco de escalada descontrolada aumenta de forma significativa. A história demonstra que conflitos inicialmente limitados podem rapidamente adquirir dimensão sistémica quando falham os mecanismos de contenção e comunicação.

 

Paralelamente, assiste-se a uma erosão gradual das normas internacionais que sustentaram a ordem liberal do pós-guerra. A previsibilidade, a primazia do direito e a institucionalização das relações entre Estados são progressivamente substituídas por práticas mais oportunistas, em que o recurso à força, a instrumentalização de sanções e a reinterpretação de acordos passam a integrar o repertório corrente da ação internacional. Esta “normalização do excecional” não resulta apenas da ação de um ator, mas é frequentemente desencadeada por ele, criando incentivos para que outros sigam o mesmo caminho. O efeito cumulativo é a fragilização de um sistema que depende, em larga medida, da confiança nas regras que o estruturam.

 

As consequências desta transformação não se distribuem de forma uniforme. Países pequenos e abertos, como Cabo Verde, encontram-se particularmente expostos a choques externos desta natureza. A dependência de importações energéticas faz com que qualquer aumento significativo do preço do petróleo se traduza rapidamente em inflação interna, com impacto direto sobre o custo de vida, os transportes e a competitividade do setor turístico. Acresce que a volatilidade global pode afetar fluxos de investimento e remessas, comprimindo ainda mais a procura interna. Nestes contextos, a margem de resposta das políticas públicas é frequentemente limitada por constrangimentos orçamentais, o que torna a gestão destes choques particularmente exigente.

 

Perante este cenário, a resposta não pode ser unidimensional. No curto prazo, impõe-se a adoção de medidas que mitiguem os efeitos mais imediatos, como mecanismos de estabilização dos preços dos combustíveis, apoios direcionados às famílias mais vulneráveis e reforço da segurança das infraestruturas críticas. No médio e longo prazo, a prioridade deve centrar-se na redução das vulnerabilidades estruturais, através da diversificação das fontes de energia, do investimento em renováveis, da melhoria da eficiência energética e do reforço da integração regional. No plano externo, a aposta em soluções multilaterais, na diplomacia preventiva e na cooperação internacional permanece essencial para reduzir a probabilidade de escaladas involuntárias.

 

Em última análise, a questão central ultrapassa a conjuntura específica e remete para a natureza do próprio sistema internacional. Um modelo assente na previsibilidade, na cooperação e em regras partilhadas dificilmente subsiste quando os principais atores adotam estratégias de imprevisibilidade calculada. A figura do “xerife global”, quando transformada em instrumento de afirmação unilateral e errática, deixa de garantir a ordem para se tornar um dos seus principais fatores de erosão. O risco não reside apenas nos conflitos em curso, mas na criação de um ambiente em que esses conflitos se tornam mais prováveis, mais frequentes e mais difíceis de resolver.

 

Se a ordem internacional do pós-Guerra Fria foi construída sobre a promessa de estabilidade através da interdependência, o seu enfraquecimento aproxima o mundo de lógicas mais próximas das que antecederam grandes ruturas históricas. Um mundo em que o poder volta a prevalecer sobre o direito e em que a estabilidade deixa de ser um produto da cooperação para depender de equilíbrios frágeis e contingentes. É precisamente neste ponto que a metáfora do “xerife” revela toda a sua inversão: aquele que deveria assegurar a ordem transforma-se, afinal, no principal agente da sua incerteza.

 

Praia, 31 de março de 2026

 


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