Cabo Verde preso na armadilha fiscal*
Mais do que um instrumento de arrecadação, a fiscalidade define prioridades, molda incentivos e condiciona o modelo de desenvolvimento. Num pequeno Estado insular, com mercado limitado, elevada dependência externa e escassez de recursos, a forma como se cobra e se gasta cada escudo é determinante. E é precisamente aqui que o modelo atual revela sinais claros de esgotamento.
Após uma década de governação ventoinha, o sistema
fiscal apresenta resultados ambivalentes: alguma estabilidade conjuntural, mas
ausência de transformação estrutural. A base tributária permanece estreita, a
despesa corrente cresce de forma acentuada e persistente, a dívida pública
atingiu níveis praticamente insustentáveis e a economia continua excessivamente
dependente de setores vulneráveis ao exterior. Em vez de impulsionar o desenvolvimento,
a fiscalidade passou, em larga medida, a gerir limitações.
A estrutura fiscal assenta, como é sabido, no IVA, no
IRPC e no IRPS. Contudo, o seu funcionamento concreto levanta questões
relevantes. O IVA, apesar de uma taxa nominal aparentemente moderada (15%), tem
um impacto significativo numa economia fortemente importadora, refletindo-se
diretamente no custo de vida. Sendo um imposto indireto, penaliza
proporcionalmente mais os rendimentos baixos e médios, comprimindo o consumo e
enfraquecendo a procura interna – um fator crítico num contexto de conjuntura
externa de elevada incerteza e desfavorável.
Do lado das empresas, a redução do IRPC ao longo dos
últimos anos constituiu um sinal positivo para a competitividade. Porém, a
competitividade fiscal não se resume à taxa nominal. A complexidade
administrativa, os pagamentos por conta e a carga burocrática continuam a
pesar, sobretudo sobre micro, pequenas e médias empresas. Num tecido
empresarial dominado por unidades de pequena dimensão, estes custos ocultos
funcionam como um entrave à expansão, à inovação e à criação de emprego
qualificado.
No caso do IRPS, a progressividade responde a
objetivos legítimos de equidade. Ainda assim, num contexto de salários médios
relativamente baixos e de elevada mobilidade internacional de quadros
qualificados, níveis elevados de tributação marginal podem produzir efeitos
contraproducentes: desincentivo à progressão profissional e agravamento da
emigração de talento. Para uma economia pequena e aberta, este é um risco que
não pode ser subestimado.
Mas é no lado da despesa que a fragilidade do modelo
se torna mais evidente. Em 2024, as receitas fiscais atingiram 55,9 milhões de
contos, enquanto as despesas correntes ascenderam a 66 milhões de contos,
absorvendo mais de 90% da despesa total. Só a despesa com pessoal representou
cerca de 35,5% das despesas de funcionamento. O diagnóstico é claro: o Estado
consome mais recursos no seu funcionamento do que aqueles que arrecada em
impostos.
Este desequilíbrio tem consequências diretas. Reduz
drasticamente a capacidade de investimento público em áreas estratégicas e
perpetua um modelo orçamental centrado na gestão do presente, em detrimento da
construção do futuro. Infraestruturas produtivas, inovação, qualificação e
diversificação económica acabam subordinadas à pressão de despesas rígidas e
dificilmente ajustáveis.
A este quadro junta-se a questão da dívida pública. O
stock da dívida oficial passou de cerca de 200 milhões de contos, em 2015, para
mais de 305 milhões de contos, em 2024, o que representa um aumento de, pelo
menos, 105 milhões de contos, ou seja, 53%. Em 2024, o serviço da dívida, no
valor de 25,5 milhões de contos, absorveu 46,5% das receitas fiscais
arrecadadas – um nível particularmente preocupante. Na prática, cerca de metade
do esforço fiscal nacional é hoje utilizada para financiar encargos do passado,
limitando a margem para políticas de desenvolvimento.
Outro elemento que exige análise crítica são os
benefícios fiscais. Cabo Verde tem recorrido de forma intensiva a incentivos
para atrair investimento, sobretudo nos setores do turismo e imobiliário. Em
determinados momentos, essa estratégia foi compreensível. Contudo, a sua
eficácia atual deve ser avaliada com rigor.
Em 2024, o Estado abdicou de 11,4 milhões de contos em
benefícios fiscais, o que corresponde a cerca de 20,4% das receitas fiscais
totais. Num contexto de elevada dívida pública e forte pressão sobre setores
essenciais como saúde e educação, esta renúncia de receita levanta uma questão
central: que retorno efetivo está a ser gerado? Sem avaliação sistemática,
existe o risco de se perpetuar renúncia fiscal com impacto económico limitado.
A fragilidade da base tributária é ainda agravada pela
dimensão da economia informal. Uma parte significativa da atividade económica
permanece fora do sistema fiscal, reduzindo a arrecadação, fragilizando a
proteção social e criando distorções concorrenciais. A economia informal
continua a ser tolerada como inevitabilidade, quando deveria ser tratada como
prioridade política. A sua dimensão revela não apenas fragilidade económica,
mas também falhas do próprio Estado: excesso de burocracia, falta de confiança
institucional e ausência de incentivos claros à formalização.
Em síntese, o impacto da política fiscal em Cabo Verde
continua condicionado por receitas limitadas, despesas rígidas e dívida elevada.
Perante um quadro de insuficiência fiscal crónica, é
tentador recorrer à solução mais imediata: aumentar impostos. Seria, porém, um
erro. O problema de Cabo Verde não está nas taxas – está na estrutura, na
ineficiência e nas prioridades erradas. Impõe-se, por isso, uma reforma fiscal
profunda.
Ora, reformar a política fiscal exige mais do que
ajustamentos marginais. Exige simplificação administrativa, digitalização
efetiva, alargamento da base tributária e, sobretudo, uma reorientação clara da
despesa pública. Continuar a financiar uma máquina estatal pesada e rígida é
adiar, indefinidamente, o investimento no que realmente importa.
E o que hoje importa é investir em educação, saúde,
qualificação e inovação – não como uma opção, mas como uma obrigação estratégica.
Cada escudo mal alocado é uma oportunidade perdida num país que não pode dar-se
ao luxo de desperdiçar recursos.
Cabo Verde encontra-se, por isso, perante uma escolha.
Pode continuar a gerir a escassez, ajustando margens e adiando decisões, ou pode
assumir uma mudança de rumo. Essa mudança implica rever benefícios fiscais,
controlar a dívida e exigir mais eficiência ao Estado. Mas implica, acima de
tudo, vontade política.
Sem essa vontade, o país permanecerá preso a uma
armadilha conhecida: impostos que pesam, mas não transformam; despesa que
cresce, mas não desenvolve; dívida que condiciona, em vez de libertar.
Praia, 26 de abril de 2026
*Artigo de opinião publicado no jornal A Nação, edição n.º 974, de 30 de abril de 2026
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