O efeito Dunning-Kruger na governação cabo-verdiana

 

“Os ignorantes são ignorantes da sua ignorância.” A frase, atribuída a Peter Allan Baskerville, poderia servir de epígrafe a um fenómeno recorrente na vida pública: a proclamação confiante de certezas onde deveria existir prudência.

Em 1999, os psicólogos David Dunning e Justin Kruger descreveram o chamado efeito Dunning-Kruger – um viés cognitivo segundo o qual indivíduos com baixo nível de conhecimento ou competência numa determinada área tendem a sobrestimar as suas capacidades. Trata-se de uma forma de incompetência inconsciente: não apenas não sabem, como não sabem que não sabem. A ilusão de conhecimento protege-os da perceção da sua própria limitação.

O episódio de McArthur Wheeler, que acreditou tornar-se invisível às câmaras de vigilância ao cobrir o rosto com sumo de limão, não é apenas uma anedota curiosa; é uma metáfora poderosa sobre os riscos da autoconfiança desinformada. E, embora este fenómeno seja transversal à condição humana, torna-se particularmente problemático quando se manifesta no exercício de funções públicas, sobretudo em áreas onde a complexidade exige rigor, contenção e responsabilidade.

É neste enquadramento que importa analisar o padrão discursivo do ministro das Finanças de Cabo Verde, Olavo Correia. Mais do que declarações isoladas, o que se observa é uma linha consistente de comunicação assente em hipérboles, simplificações e promessas de efeito imediato – um otimismo político que frequentemente prescinde de base empírica sólida.

A afirmação de que “Cabo Verde tem dinheiro que nunca mais acaba” tornou-se emblemática desse estilo. Não apenas pelo exagero, mas pelo que revela: uma tendência para substituir a escassez – condição estrutural de qualquer economia – por uma narrativa de abundância permanente. Essa retórica não é neutra. Ao sugerir que os recursos são virtualmente ilimitados, dilui a perceção de custo, desvaloriza a necessidade de escolha e enfraquece a disciplina na gestão pública.

Esse registo de grandiloquência estende-se ao modo como o futuro do país é apresentado. Cabo Verde surge, no discurso oficial, como estando numa trajetória quase linear de ascensão, onde os constrangimentos estruturais se dissipam e onde o país se aproxima, num horizonte sempre iminente, de um estatuto de desenvolvimento pleno. A narrativa sugere não apenas progresso – que existe e deve ser reconhecido –, mas uma aceleração quase inevitável rumo a um patamar de prosperidade generalizada.

No limite, constrói-se uma visão quase idílica: uma economia em expansão contínua, um mercado de trabalho dinâmico e um Estado com capacidade para sustentar esse percurso sem tensões relevantes. Uma espécie de “atalho” para o desenvolvimento, onde a complexidade é substituída por linearidade e os riscos por confiança.

O mesmo padrão repete-se no discurso desse governante sobre o emprego. Reiteradamente,são anunciadas perspetivas de criação de postos de trabalho “em grande escala” e “com salários elevados”, como se bastasse proclamá-los para que existam. A promessa de empregos bem remunerados, sobretudo para jovens, surge assim como um resultado quase automático da estratégia governativa – uma narrativa conveniente, mas desprovida de fundamento. Os determinantes do emprego são tudo menos opcionais: produtividade, investimento, qualificação, estrutura empresarial e inserção externa. Ignorá-los e substituí-los por proclamações é não apenas simplificar a realidade – é deturpar a própria lógica económica.

Também no domínio social se observa uma tendência semelhante. A narrativa de que Cabo Verde está na linha da frente da erradicação da pobreza extrema – ou mesmo próximo de a eliminar – surge recorrentemente como um sinal de sucesso inequívoco. Ora, sendo inegável que o país registou progressos importantes ao longo das últimas décadas, a realidade permanece mais complexa. Persistem bolsas de vulnerabilidade, desigualdades territoriais e segmentos da população expostos a choques económicos e climáticos.

Mais grave ainda, os dados oficiais sobre a pobreza inspiram pouca confiança, por continuarem ancorados em bases antigas, de 2015, e em estimativas indiretas, além de recorrerem a limiares internacionais desajustados à realidade de um país de rendimento médio. Assim, o que se apresenta como sucesso pode resultar mais de escolhas estatísticas discutíveis do que de uma verdadeira transformação social. A pobreza não se elimina por proclamação política nem se mede por conveniência: exige rigor, atualização e seriedade na leitura da realidade.

O mesmo se diga das comparações com a sub-região oeste-africana. É frequente ouvir-se que Cabo Verde está “melhor em tudo” face aos seus pares regionais. Embora o país apresente, de facto, indicadores positivos em várias áreas – estabilidade institucional, alguns indicadores sociais, rendimento médio –, a comparação exige cautela. As economias da sub-região são heterogéneas, com estruturas produtivas distintas, recursos naturais diversos e trajetórias históricas diferenciadas. Generalizações absolutas tendem mais a reforçar narrativas internas do que a esclarecer a realidade.

Este padrão de simplificação torna-se particularmente evidente na leitura dos choques externos. A propósito do conflito entre os Estados Unidos e o Irão, o ministro Olavo Correia, numa entrevista ao Jornal da Noite da TCV, no final de março ou início de abril de 2026, procurou reduzir a dimensão do problema, sugerindo, em síntese, que um eventual entendimento entre as duas partes acabaria por tornar nulo, ou quase nulo, o efeito da crise sobre os combustíveis.

Ora, a evidência disponível aponta em sentido contrário. O Médio Oriente concentra uma parte substancial das reservas globais de petróleo e gás, sendo uma região crítica para o equilíbrio energético mundial. Qualquer instabilidade nesta zona introduz incerteza nos mercados, eleva prémios de risco e pressiona os preços, independentemente de desfechos diplomáticos formais.

O Estreito de Ormuz, em particular, constitui um ponto nevrálgico do comércio energético global. A sua interrupção – ou mesmo a simples ameaça credível dessa interrupção – tem capacidade para gerar choques de oferta com efeitos sistémicos. A história económica demonstra que episódios desta natureza podem desencadear ciclos inflacionistas e abrandamentos económicos significativos.

Mesmo num cenário de resolução rápida do conflito, os efeitos sobre os preços não desaparecem automaticamente. Os mercados incorporam expetativas, ajustam-se gradualmente e mantêm, durante algum tempo, níveis de incerteza elevados. A ideia de um impacto “nulo” traduz, portanto, uma leitura excessivamente simplificada de um sistema intrinsecamente complexo.

Para uma economia como a cabo-verdiana, esta simplificação é particularmente problemática. Cabo Verde é um “price taker”, altamente dependente de importações energéticas e exposto a variações de preços internacionais. Não dispõe de instrumentos para influenciar o mercado global; limita-se a absorver os seus efeitos. Neste contexto, minimizar o impacto de choques externos é não apenas analiticamente discutível, mas potencialmente desorientador em termos de política pública.

É precisamente aqui que o efeito Dunning-Kruger oferece uma chave interpretativa útil. Quando a confiança discursiva não é acompanhada por profundidade analítica, o decisor tende a subestimar a complexidade dos fenómenos e a sobrestimar a sua capacidade de controlo. O resultado é uma comunicação política que privilegia a certeza aparente em detrimento da precisão.

Este padrão tem consequências. Ao reiterar mensagens de abundância (“dinheiro que nunca mais acaba”), de prosperidade iminente (empregos em massa e bem remunerados) e de neutralização de choques externos (impactos “nulos”), o decisor público contribui para a formação de expetativas desalinhadas com a realidade económica. Quando essas expetativas não se concretizam, a confiança deteriora-se.

É por isso que a política económica não pode ser conduzida ao sabor de perceções ou intuições infundadas. Exige análise rigorosa, capacidade de antecipação e, acima de tudo, responsabilidade na comunicação pública. Sem isso, a confiança dos agentes económicos – investidores, empresas e famílias – deteriora-se, comprometendo a credibilidade das autoridades.

Num plano mais amplo, a qualidade do discurso económico em funções governativas não é um detalhe retórico; é um instrumento de política. A forma como se comunica influencia comportamentos, decisões de investimento e expetativas de inflação. Uma comunicação baseada em simplificações excessivas pode ser eficaz no curto prazo, mas compromete a credibilidade no médio e longo prazo.

Em Cabo Verde, onde as vulnerabilidades estruturais são bem conhecidas – dependência externa, base produtiva limitada, exposição a choques climáticos e energéticos –, a exigência de rigor é ainda maior. Governar não é apenas decidir; é explicar com precisão, reconhecer incertezas e evitar promessas que não podem ser sustentadas.

O efeito Dunning-Kruger não implica necessariamente má-fé. Implica, isso sim, uma limitação na capacidade de autoavaliação. Mas, em funções públicas, essa limitação tem custos coletivos. Quando a confiança excede o conhecimento, o risco deixa de ser individual e passa a ser sistémico.

Em última análise, a questão é simples: num contexto de crescente complexidade económica e geopolítica, Cabo Verde precisa de menos grandiloquência e mais competência. Menos proclamação e mais análise. Menos certezas absolutas e mais prudência fundamentada.

Talvez, por isso, o velho provérbio continue atual: “Quem te manda a ti, sapateiro, tocar rabecão?”. Em economia, como na governação, a confiança sem conhecimento não produz desenvolvimento – produz ilusão.

Praia, 04 de maio de 2026

 


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