O paradoxo de Trump: como a confrontação global pode fortalecer a China*

 

Existe uma ironia profunda no centro da política externa do presidente dos Estados Unidos da América (EUA), Donald Trump: a estratégia concebida para conter e enfraquecer a China poderá estar, em vários planos estruturais, a produzir o efeito contrário. Ao adotar uma postura sistematicamente confrontacional, a administração Trump está, paradoxalmente, a criar condições políticas, diplomáticas e económicas favoráveis à consolidação da China como potência global alternativa. Note-se que essa atitude do presidente norte-americano não se limita a Pequim, estendendo-se também a aliados históricos, instituições multilaterais e a teatros de conflito tão distintos como o Médio Oriente.

A demonstração mais eloquente dessa dinâmica surgiu no final de 2025, através de um indicador de enorme significado estratégico: pela primeira vez em quase duas décadas, a China ultrapassou os EUA em aprovação internacional, segundo o inquérito anual da Gallup realizado em mais de 130 países. Trinta e seis por cento dos inquiridos aprovam a liderança chinesa, contra apenas 31% que avaliam positivamente a atuação norte-americana – uma diferença de cinco pontos percentuais que representa a maior vantagem alguma vez registada a favor de Pequim desde o início da série histórica. A avaliação global dos EUA caiu de 39% em 2024 para 31% em 2025, regressando a níveis historicamente baixos, enquanto a China subiu de 32% para 36% no mesmo período. Perceber como se chegou a este ponto exige uma análise rigorosa das dinâmicas geopolíticas, das estruturas comerciais internacionais e da disputa pela influência global num momento particularmente decisivo da ordem mundial.

A política tarifária de Trump constitui o ponto de partida mais evidente desta dinâmica. Desde o regresso à presidência, em janeiro de 2025, a administração norte-americana elevou as tarifas sobre produtos chineses para níveis sem precedentes, ultrapassando os 145% em determinadas categorias. À primeira vista, esta guerra comercial poderá parecer uma forma legítima de pressão económica. Contudo, os dados revelam uma realidade mais complexa. Em 2017, as exportações para os EUA representavam cerca de 19% do total das exportações chinesas; em 2023, esse peso já tinha descido para menos de 15%, refletindo uma estratégia deliberada de diversificação que Pequim vem executando desde a primeira guerra comercial de 2018-2019.

Cada novo ciclo de tarifas imposto por Washington acaba, assim, por acelerar essa reconfiguração, funcionando involuntariamente como catalisador da adaptação estrutural que o Partido Comunista Chinês procura consolidar – materializada no conceito de “dupla circulação”, introduzido pelo presidente chinês, Xi Jinping, em 2020. Em paralelo, a China aprofundou significativamente a sua presença económica noutras regiões do globo. A Associação de Nações do Sudeste Asiático tornou-se o principal parceiro comercial de Pequim, enquanto o comércio bilateral com a América Latina registou uma expansão expressiva ao longo da última década.

Ao mesmo tempo, Trump tem vindo a transmitir sinais de crescente desinteresse estratégico em relação a amplas regiões do Sul Global, seja através dos cortes no financiamento externo norte-americano, seja pela imposição de tarifas indiscriminadas também a países parceiros. Neste contexto, Pequim apresenta-se cada vez mais como um interlocutor previsível, financeiramente disponível e politicamente menos intrusivo – uma combinação particularmente apelativa para muitos governos do mundo em desenvolvimento.

É no Médio Oriente, porém, que a política externa de Trump revela de forma mais evidente as contradições que alimentam este paradoxo. O apoio praticamente incondicional de Washington a Israel no conflito em Gaza fortaleceu uma narrativa que Pequim tem explorado com particular eficácia nos fóruns internacionais: a de que os EUA aplicam um duplo critério na defesa do direito internacional, invocando-o quando serve os seus interesses e relativizando-o quando colide com os dos seus aliados. Importa referir que esse apoio se traduziu em sucessivos vetos e bloqueios diplomáticos a resoluções do Conselho de Segurança das Nações Unidas que apelavam a um cessar-fogo, assim como na manutenção do fornecimento de armamento durante as operações militares.

A China, consciente desta oportunidade, procurou afirmar-se como agente de moderação e mediação diplomática. Em 2023, Pequim patrocinou a reaproximação entre a Arábia Saudita e o Irão – um feito diplomático de enorme simbolismo geopolítico, numa região onde Washington tem vindo a perder capacidade de influência moderadora. Paralelamente, no contexto do conflito israelo-palestiniano, a China defendeu de forma consistente o cessar-fogo e a solução de dois Estados, alinhando-se com a posição maioritária da comunidade internacional e contrastando claramente com a postura norte-americana.

Esta estratégia está longe de ser desinteressada. Ainda assim, no plano da disputa pela legitimidade internacional, o seu efeito tem sido significativo: a China procura afirmar-se como defensora do multilateralismo e da estabilidade diplomática, enquanto os EUA surgem cada vez mais associados ao apoio incondicional a políticas israelitas amplamente contestadas em largos sectores da comunidade internacional.

A deterioração da imagem norte-americana junto de aliados históricos é, neste contexto, especialmente significativa. Segundo a Gallup, a aprovação da liderança dos EUA na Alemanha caiu 39 pontos percentuais num único ano – uma descida sem paralelo na série histórica, que traduz não meros desacordos pontuais, mas uma erosão mais profunda da confiança transatlântica. A NATO enfrenta hoje um dos momentos de maior questionamento interno desde a sua fundação, em 1949. As pressões de Trump para que os aliados europeus aumentem os gastos com a defesa, combinadas com declarações que sugerem um compromisso condicional com o Artigo 5.º, introduziram um fator de incerteza estratégica nas capitais europeias. Berlim, Paris e Estocolmo debatem abertamente a necessidade de uma defesa mais autónoma – uma discussão legítima do ponto de vista europeu, mas que tende igualmente a fragilizar a coesão da principal aliança militar ocidental. E um bloco ocidental menos coeso será inevitavelmente menos capaz de coordenar uma resposta eficaz à ascensão chinesa.

No plano financeiro, a política de Trump está também a acelerar tendências que Pequim promove há anos. O recurso ao dólar como instrumento de política externa tem alimentado um processo crescente de desdolarização. Em 2023, o renminbi representava cerca de 4,3% dos pagamentos globais processados pelo sistema SWIFT, e já em 2024 esse valor rondava 4,5%; paralelamente, o renminbi passou a responder por cerca de 26% do comércio externo da China no final de 2023. As tarifas de Trump, ao aumentarem a instabilidade do sistema comercial assente no dólar, fornecem argumentos adicionais aos defensores de uma arquitetura financeira multipolar – precisamente o objetivo estratégico de longo prazo de Pequim

Importa reconhecer que este paradoxo tem limites. A dependência chinesa de semicondutores avançados continua a constituir uma vulnerabilidade estratégica significativa, e as restrições norte-americanas à exportação de chips de alta performance impõem constrangimentos reais às ambições tecnológicas de Pequim – limitações que nem os volumosos subsídios estatais atribuídos ao setor conseguiram ainda ultrapassar. A crise do imobiliário, o risco deflacionista e o desemprego juvenil – que atingiu oficialmente mais de 21% em julho de 2023, antes de o governo suspender a divulgação dos dados – representam igualmente fragilidades internas de grande magnitude.

Contudo, a questão central não reside na força absoluta da China, mas em saber se a política de Trump está a melhorar ou a deteriorar a posição relativa de Pequim no sistema internacional. Os indicadores de perceção global sugerem uma tendência clara: a aprovação internacional da China sobe, enquanto a dos EUA recua para níveis historicamente baixos. E essa legitimidade internacional constitui um recurso estratégico de poder, influenciando a capacidade de formar coligações, mobilizar apoio institucional e projetar modelos de governação. Países aliados dos EUA poderão rever os seus cálculos de alinhamento; muitas nações em desenvolvimento tendem a diversificar parcerias com Pequim; e até aliados históricos de Washington se veem obrigados a recalibrar as suas políticas externas num contexto em que a fiabilidade norte-americana deixou de ser encarada como um dado adquirido.

A estratégia ideal de contenção da China exigiria, acima de tudo, coerência: na preservação das alianças, no compromisso com as instituições internacionais e na construção de uma narrativa alternativa àquela que Pequim procura promover. A abordagem de Trump falha sistematicamente em todos estes planos. Ao tratar aliados como adversários comerciais, ao afastar os EUA de acordos multilaterais e ao conferir cobertura diplomática a ações que suscitam condenação internacional, Washington está a entregar terreno moral e institucional precisamente no espaço em que a rivalidade com a China mais importa. A história mostra que as potências dominantes também podem acelerar o seu próprio declínio através de erros estratégicos – da Espanha do século XVII à Grã-Bretanha do século XX.

O paradoxo de Trump não é acidental: resulta de uma visão de mundo que privilegia o confronto bilateral em detrimento da gestão multilateral e o ganho interno imediato em vez do posicionamento estratégico de longo prazo. Para Pequim, cada aliado alienado, cada instituição enfraquecida e cada conflito em que Washington surge do lado errado da perceção global representa não um obstáculo, mas uma oportunidade. A China ganhou cinco pontos na aprovação internacional num único ano – precisamente o ano em que Trump regressou ao poder. Mais do que uma coincidência estatística, trata-se de um sinal visível e mensurável de um paradoxo que poderá tornar-se um dos legados mais duradouros desta administração.

Segundo Mao Tsé-tung, “há grande desordem sob o céu; a situação é excelente”. À luz da atual conjuntura internacional, Pequim parece determinada a transformar essa máxima em estratégia.

Praia, 06 de maio de 2026

*Ensaio baseado na pesquisa da Gallup, divulgada pela revista brasileira Veja a 07 de abril de 2026, bem como em dados do Banco Popular da China, do FMI e da SWIFT.






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