Quando os aeroportos explicam a redução da taxa de desemprego

 

Há uma arte antiga, cultivada com mestria por governos de todas as latitudes, que consiste em apresentar os dados estatísticos no momento certo, com o enquadramento certo e para o público certo. Cabo Verde não é exceção. A publicação, pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), dos dados mais recentes do mercado de trabalho, relativos ao segundo semestre de 2025, convida a uma leitura que vai muito além dos números em si. Antes de mais, nota-se que os dados foram publicados em período eleitoral, de onde se pode depreender que o INE quis dar um “empurrãozinho” ao Governo.

A taxa de desemprego desceu para 4,9%. O emprego cresceu 7,1% face ao período homólogo. São cifras que, lidas isoladamente, têm toda a aparência de uma conquista. O Governo não perdeu tempo em apropriá-las: Cabo Verde estaria, segundo a narrativa oficial, a vencer a batalha do emprego. Mas a análise estatística séria não se faz com instantâneos. Faz-se com trajetórias, com contexto, com a honestidade intelectual de perguntar por que razão um indicador melhorou – e se essa melhoria reflete uma transformação real ou apenas uma alteração na composição do denominador.

A resposta, no caso cabo-verdiano, é desconfortável. E merece ser dita com clareza.

Entre 2016 e 2023 – anos em que o executivo de Ulisses Correia e Silva prometeu, no Programa do Governo para a IX Legislatura, criar 45 mil postos de trabalho –, Cabo Verde não criou emprego líquido. Destruiu-o. Os dados disponíveis apontam para uma perda superior a quatro mil empregos nesse período, num contexto em que o país registou, paradoxalmente, crescimento económico em vários dos anos em causa. Crescimento sem emprego: eis uma das contradições estruturais mais persistentes da economia cabo-verdiana, e uma que raramente aparece nas conferências de imprensa governamentais.

Quando se alarga o horizonte temporal até 2025, a imagem não melhora substancialmente. Ao longo de uma década, o país criou pouco mais de 20 mil empregos líquidos – uma média de cerca de dois mil por ano. Para uma economia jovem, com uma população ativa que, embora lentamente, continua a crescer, e com o peso demográfico dos jovens que chegam ao mercado de trabalho em cada ciclo anual, esse ritmo de criação de emprego é manifestamente insuficiente. Fica muitíssimo aquém das promessas políticas feitas e, o que é mais grave, aquém das necessidades estruturais do país.

Mas então como se explica a descida tão acentuada da taxa de desemprego – de 12,4% em 2015 para 4,9% em 2025, uma redução de 7,5 pontos percentuais?

Segundo um especialista abalizado e profundo conhecedor da situação do INE, “a redução para 4,9% ocorre num contexto marcado por incoerências na evolução dos dados populacionais, alterações na estrutura da população ativa e ausência de explicações metodológicas suficientemente claras para essas mudanças. Esta combinação de fatores levanta dúvidas sobre a consistência e a comparabilidade temporal dos indicadores, sugerindo que a taxa de desemprego, isoladamente, pode não refletir de forma fidedigna a dinâmica real do mercado de trabalho”.

Todavia, o que salta à vista é que a resposta parece estar, em larga medida, fora do mercado de trabalho: está nos aeroportos. Ao longo dessa década, a população ativa cresceu apenas cerca de 4.275 indivíduos – um aumento manifestamente reduzido para um período de dez anos. Em sentido inverso, a população em idade ativa diminuiu em aproximadamente 6.124 pessoas. Este aparente paradoxo explica-se, em grande medida, pela emigração de jovens em idade produtiva. Quando uma parcela significativa da força de trabalho potencial abandona o país em busca de melhores oportunidades, reduz-se artificialmente a pressão sobre o mercado laboral interno. Menos pessoas à procura de emprego traduzem-se, quase mecanicamente, em taxas de desemprego mais baixas. Mas isso não corresponde ao sucesso de uma política de emprego; corresponde, antes, ao efeito estatístico da incapacidade do país em criar oportunidades suficientes para reter os seus próprios jovens.

A este argumento demográfico junta-se um dado que transforma a leitura triunfalista da taxa de desemprego num verdadeiro exercício de ilusionismo estatístico: em 2025, a taxa de subutilização do trabalho atingia 23,3%, abrangendo cerca de 60 mil indivíduos. Trata-se de um indicador muito mais abrangente – e intelectualmente mais honesto – do que a taxa de desemprego convencional, porque inclui não apenas os desempregados oficialmente registados, mas também os subempregados e todos aqueles que, apesar de disponíveis para trabalhar mais horas ou em melhores condições, não encontram essa possibilidade no mercado laboral.

O subemprego, por si só, afetava mais de 17 mil pessoas, correspondendo a uma taxa de 7,8%. São milhares de cabo-verdianos que, embora contabilizados como “empregados”, vivem numa situação de precariedade laboral: trabalham menos do que necessitam, auferem rendimentos insuficientes, enfrentam vínculos frágeis e, muitas vezes, permanecem sem proteção social adequada. Ignorar esta realidade e concentrar toda a atenção apenas na taxa oficial de desemprego equivale a confundir estatística administrativa com bem-estar económico efetivo.

A informalidade laboral é outro dos elementos que a narrativa da descida do desemprego sistematicamente subestima. Quase metade do emprego em Cabo Verde – 44,8%, correspondendo a mais de 96 mil pessoas – continua a ser informal. Trabalho sem contrato, sem contribuições para a segurança social, sem direitos laborais garantidos, sem proteção em caso de doença ou desemprego. É um dado que, por si só, deveria relegar a celebração da taxa de desemprego para um plano muito secundário. Porque o que está em causa não é apenas se as pessoas trabalham ou não – é se trabalham em condições dignas, com estabilidade e com futuro.

Neste contexto, merece atenção particular a situação dos jovens. No segundo semestre de 2025, 34.077 jovens entre os 15 e os 35 anos encontravam-se sem emprego e simultaneamente fora do sistema de ensino ou de qualquer processo de formação profissional. Este contingente representa 19,9% do total de indivíduos nessa faixa etária, ou seja, um em cada cinco jovens cabo-verdianos em idade de trabalhar e aprender não faz nenhuma das duas coisas. É o que a literatura técnica designa como população NEET – “Not in Employment, Education or Training” –, e a sua dimensão em Cabo Verde é, para usar a linguagem técnica adequada, alarmante. Esta realidade não é apenas um problema económico: é um problema social de primeira ordem, com implicações profundas para a coesão geracional, para o capital humano do país e para a sustentabilidade do desenvolvimento a longo prazo.

A dimensão setorial e geográfica das desigualdades agrava ainda mais este quadro. O dinamismo económico cabo-verdiano, fortemente ancorado no turismo e nos serviços associados, tem gerado valor – e nisso não há dúvida – mas não tem conseguido transformar esse valor em emprego suficientemente diversificado, qualificado e estável. Trata-se de um modelo de crescimento estreito, concentrado num número reduzido de setores e de ilhas, que não se traduz numa inclusão laboral real e equitativa. As ilhas periféricas continuam a enfrentar limitações económicas estruturais e uma escassez de oportunidades que contrasta vividamente com os dados agregados a nível nacional. Quando se apresenta uma taxa de desemprego nacional de 4,9%, está a esconder-se, num único número, realidades muito díspares que variam consoante a ilha, o setor, o género e a faixa etária.

As mulheres, em particular, continuam mais expostas à informalidade e ao subemprego do que os homens. A ideia de um progresso laboral uniforme e partilhado não corresponde ao território. Corresponde, isso sim, à média aritmética de realidades profundamente desiguais – e a média, como qualquer estatístico sabe, pode ser enganosamente tranquilizante.

A este quadro estrutural soma-se um fenómeno silencioso, mas com efeitos profundos e duradouros: a emigração de jovens qualificados. Se, no curto prazo, a saída de população em idade ativa alivia a pressão sobre o mercado interno e ajuda a fazer descer a taxa de desemprego, no médio e no longo prazo corrói o potencial de transformação económica do país. O capital humano que emigra não se recompõe facilmente. As competências que partem retiram ao país capacidade de inovação, de diversificação económica e de criação de setores de maior valor acrescentado. Menor pressão sobre o mercado de trabalho não significa mais oportunidades; significa, muitas vezes, apenas que o problema foi empurrado para a frente. E um problema adiado, quando finalmente enfrentado, tende a revelar-se ainda mais difícil de resolver.

As políticas públicas de emprego não têm, até à data, conseguido inverter estas tendências. Programas de estágios com taxas de integração no mercado de trabalho reconhecidamente baixas, iniciativas de apoio dispersas e sem coordenação estratégica clara, e um Estado que continua a funcionar como o grande empregador de recurso não têm produzido as mudanças estruturais que seriam necessárias. Pelo contrário, tendem a perpetuar um modelo em que o acesso ao emprego de qualidade depende mais de circunstâncias – de quem se conhece, de onde se vive, de que setor se escolheu – do que de mérito e de competência. Isso não é apenas economicamente ineficiente; é socialmente injusto e politicamente corrosivo.

O problema não reside, portanto, nos dados do mercado de trabalho em si, mas na forma como esses dados são apresentados, enquadrados e instrumentalizados politicamente. Reside, sobretudo, naquilo que é convenientemente omitido quando se escolhe um único indicador como prova do alegado sucesso de uma política pública. Reduzir o debate sobre o emprego à taxa oficial de desemprego constitui uma simplificação que pode favorecer a narrativa governamental, mas que dificilmente serve os interesses do país. Trata-se menos de uma análise rigorosa da realidade económica e social do que de uma construção política destinada a produzir perceções favoráveis. E a diferença entre uma narrativa e uma análise séria não é meramente académica: dela dependem as prioridades políticas, a afetação de recursos públicos e, muitas vezes, o adiamento das reformas estruturais de que o país efetivamente necessita.

Cabo Verde não precisa de melhores números no sentido cosmético do termo. Precisa de melhores empregos. Precisa de um modelo económico capaz de transformar crescimento em oportunidades reais, de criar trabalho qualificado e estável em quantidade suficiente para reter o talento que hoje emigra por falta de alternativa, de reduzir a informalidade e o subemprego a patamares compatíveis com uma economia que se quer moderna e inclusiva, e de garantir que o progresso não seja apenas um agregado nacional que esconde desigualdades profundas entre ilhas, géneros e gerações.

Enquanto a política pública continuar a medir o sucesso pelo indicador mais favorável e não pelo mais revelador, Cabo Verde continuará a confundir alívio estatístico com transformação económica. E essa confusão tem um custo – pago, como sempre, pelos 60 mil trabalhadores subutilizados, pelos 34 mil jovens que não trabalham nem estudam, e pelos 96 mil que trabalham sem rede de proteção. Para eles, a taxa de desemprego de 4,9% é uma abstração distante. A sua realidade tem outro nome – e merece, pelo menos, outro debate.

 Praia, 07 de maio de 2026

 

 

 



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