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É uma caricatura pensar que todos os pobres são empreendedores - Esther Duflo, Nobel da Economia de 2019

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No quadro das estratégias bem-sucedidas de desenvolvimento económico e social dos diferentes países não desenvolvidos, incluindo Cabo Verde, o microcrédito ocupa um papel de relevo.   Na sua origem, o microcrédito visa potenciar o acesso ao crédito a pessoas, especialmente mulheres, de baixos rendimentos que, em processos tradicionais, normalmente teriam muita dificuldade de acesso aos mercados financeiros, com o objetivo de iniciar ou desenvolver pequenos negócios, promover o emprego e reduzir a pobreza.    O microcrédito tem, assim, uma componente social – cujo conceito foi desenvolvido por Muhammad Yunus, considerado o “pai do microcrédito”, – que é precisamente o que o distingue dos mecanismos de financiamento tradicionais.   As Nações Unidas designaram o ano de 2005 como o “Ano Internacional do Microcrédito”. Quando o Prémio Nobel da Paz foi atribuído a Muhammad Yunus e ao “Grameen Bank”, em 2006, o Comité do Nobel classificou o microcrédito como “um...

Reformar (a sério) para encurtar a mão estendida para a ajuda externa

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  Cabo Verde é uma pequena economia aberta, particularmente dependente da ajuda externa (empréstimos concessionais e donativos) e do turismo, o que torna o país especialmente vulnerável a crises globais. E essa vulnerabilidade poderá agravar-se nos próximos tempos. Com efeito, hoje, é cada vez mais visível que o mundo e a economia estão claramente polarizados, com o ressurgimento de discursos nacionais autocentrados, mas sobretudo da guerra, impactando negativamente a conjuntura internacional. A economia nacional enfrenta, há vários anos, os desafios do insuficiente crescimento económico nacional, da falta de competitividade internacional ou da necessidade de disciplina orçamental. A esses desafios acresce, ainda, a pesada dívida pública, que condiciona os investimentos em infraestruturas essenciais à dinamização da economia. Em tempos escrevi que uma das razões para a evolução menos positiva da economia cabo-verdiana foi a ausência de reformas estruturais que fizessem aumentar o c...

Nobel da Economia de 2025 premia estudos sobre o impacto da inovação no crescimento sustentado

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Nobel da Economia de 2025 premia estudos sobre o impacto da inovação no crescimento sustentado   O Prémio Nobel da Economia de 2025 foi atribuído a Joel Mokyr, Philippe Aghion e Peter Howitt por terem explicado o fenómeno mais extraordinário e improvável da história económica moderna: a transição da estagnação secular, que caraterizou quase toda a existência humana, para um crescimento sustentado, contínuo e autogerado, impulsionado pela inovação tecnológica. Ao anunciar a distinção, o secretário-geral da Real Academia Sueca das Ciências, Hans Ellegren, sintetizou a essência do prémio com uma frase lapidar: “o prémio deste ano é sobre criação e destruição”, uma evocação direta do conceito de “destruição criativa”, introduzido por Joseph Schumpeter há quase um século, mas aqui reinterpretado e aprofundado pelos três laureados.   A Real Academia sublinhou que, ao longo dos últimos dois séculos, e pela primeira vez na história, o mundo assistiu a um crescimento económico sustenta...

Cabo Verde atolado no pântano da Lei de Murphy

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    A Lei de Murphy é um adágio popular que afirma: “Tudo o que puder dar errado, dará errado”. Terá sido criada em 1949 pelo engenheiro aeroespacial Edward A. Murphy Jr. e expressa, de forma irónica, a tendência de os problemas ocorrerem no pior momento possível, tornando-se um lembrete – também irónico, mas útil – de que falhas são inevitáveis sempre que existe a possibilidade de erro. Em essência, recorda-nos que, quando existe essa possibilidade, é prudente preparar-se para as falhas e as suas consequências. A história recente de Cabo Verde parece saída de um manual de má governação, onde a famosa Lei de Murphy encontra terreno fértil para se materializar: tudo o que podia correr mal, correu invariavelmente mal. Não se trata de azar nem de circunstâncias inevitáveis, mas sim do resultado direto de uma forma de governar que assenta em prioridades distorcidas, na excessiva partidarização da administração pública e no compadrio e nepotismo, em detrimento da seriedade inst...

OE2026: O milagre que promete resolver todos os males de Cabo Verde

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Ainda não se conhece o Orçamento do Estado para 2026 (OE2026). No entanto, da leitura do que vem sendo noticiado na imprensa, o OE2026 tem sido apresentado pelo ministro das Finanças, Olavo Correia, como um verdadeiro milagre que, por si só, seria capaz de resolver todos os problemas do país: desde a crónica morosidade da justiça à erradicação da pobreza extrema, passando pela garantia de segurança e estabilidade da população e pela redução do índice de saturação turística nas ilhas do Sal e da Boavista, etc. A forma como Olavo Correia descreve este orçamento confirma o seu estilo já conhecido: grandiloquente, repleto de frases pomposas e sempre prometendo milagres que nunca se concretizam. Aliás, a cada novo orçamento anual, desde que assumiu a pasta, repete-se o mesmo ritual – proclamações sobre transformações estruturais, avanços históricos e mudanças radicais que, no entanto, se esfumam no confronto com a realidade. O OE2026 não é exceção.  Desta vez, porém, há um elemento adi...

A compulsão privatizadora do Governo e a captura do Estado pelos interesses privados

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  O Governo em funções desde 2016 tem prosseguido um processo de privatizações que, em vez de responder a uma estratégia de desenvolvimento coerente, se apresenta como uma compulsão ideológica, sem visão de longo prazo, sem transparência e com consequências económicas, sociais e institucionais de grande gravidade. Em vários artigos de opinião, inclusive publicados neste semanário, tenho alertado para a intenção do Governo de vender praticamente todas as empresas públicas ainda existentes, sem que tenha havido qualquer debate nacional sério capaz de definir o que deve permanecer sob controlo do Estado e o que poderia, eventualmente, ser entregue a privados. Essa ligeireza, motivada mais por dogmas e intenções ocultas do que por análise racional, tem-se traduzido em negócios malconduzidos, contratos lesivos e numa crescente perda de confiança na governação. A experiência cabo-verdiana recente demonstra que privatizar a qualquer custo, nomeadamente por obstinação ideológica, é um er...

É preciso um amplo debate sobre a privatização de empresas públicas

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  (Nota: O presente artigo é uma edição de um ensaio meu mais extenso, intitulado “Um Breve Olhar Crítico sobre as Privatizações em Cabo Verde”, publicado no jornal A Nação, edição de 14 de julho de 2022) Nem sempre é verdade, em especial para os países em desenvolvimento (PD), de que privatizar empresas públicas pode levar a ganho de produtividade, melhoria dos resultados e maior qualidade nos serviços prestados à população. É o que indica uma série de estudos feitos pelo economista Saul Estrin, pesquisador e professor da “The London School of Economics and Political Science” – uma das principais escolas de economia do mundo – e citados pelo jornal brasileiro online “UOL”, edição de 09 de fevereiro de 2019. “Nesses países, a governança das empresas privadas, geralmente, não é tão boa, porque os mercados de capitais são menos eficientes e competitivos do que nos países ricos. A isso acresce, ainda, a existência de sistemas regulatórios débeis. Por outro lado, também pode have...