Mensagens

Desmontando a retórica em torno do rácio dívida pública/PIB*

Imagem
  Há países que atingem momentos em que a contabilidade pública deixa de ser mera técnica administrativa e se converte num teste de maturidade histórica. Cabo Verde encontra-se hoje precisamente nesse ponto. A trajetória da despesa corrente, da dívida pública e do serviço da dívida, entre 2015 e 2025, desenha um quadro que não pode continuar a ser interpretado com a fanfarronice política do Ministro das Finanças, segundo o qual “Cabo Verde é um dos países com melhor desempenho em relação à evolução da Dívida Pública em percentagem do PIB…” Pelo contrário, exige lucidez, responsabilidade e reforma. A despesa corrente, ao longo desta década, deixou de ser apenas elevada para se tornar estruturalmente rígida. Em 2015, no valor de 41,1 milhões de contos, representava cerca de 22% do PIB. Em 2019 já se situava acima dos 23% e em 2021 disparou devido à pandemia, atingindo um pico dramático de 31,3% do PIB. Mesmo após a recuperação económica e ajustamento no valor absoluto do PIB, em 2025...

História do dinheiro e da função do dólar no sistema monetário internacional (ensaio)

Imagem
Num momento em que a economia global enfrenta tensões geopolíticas, endividamento crescente, inflação persistente e debates sobre desdolarização, compreender as raízes históricas do dinheiro e das moedas hegemónicas tornou-se mais do que um exercício académico: é uma necessidade cívica. O presente ensaio parte de uma pergunta fundamental: o que é, afinal, o dinheiro? Para responder, revisitamos a sua evolução histórica, desde as primeiras formas de crédito e moeda nas civilizações antigas até aos grandes centros financeiros que moldaram a economia mundial. Em seguida, analisamos como o dólar norte-americano se tornou a principal moeda do mundo, quais os pilares que sustentam essa hegemonia e por que razão ela persiste apesar das previsões recorrentes do seu declínio. Por fim, examinamos os limites e os riscos do atual império monetário, interrogando a sua sustentabilidade num mundo cada vez mais fragmentado e multipolar. Este ciclo não pretende anunciar o fim de uma era nem oferecer re...

O “dinheiro de helicóptero” como instrumento de manipulação eleitoral em Cabo Verde

Imagem
  A teoria económica, frequentemente árida e distante da realidade quotidiana das populações, encontra por vezes na metáfora a sua forma mais eficaz de comunicação. Milton Friedman, o célebre economista norte-americano, cunhou a expressão “dinheiro de helicóptero” para ilustrar uma política monetária expansionista extrema, na qual, figurativamente, o banco central lançaria notas de dinheiro do céu para estimular a economia e combater a deflação. Em Cabo Verde, contudo, esta metáfora académica transmutou-se numa perigosa realidade política, despida do seu propósito técnico original e revestida de um pragmatismo eleitoralista preocupante. À medida que o país se aproxima de um novo ciclo de eleições legislativas, assiste-se a uma manobra governativa que, sob a capa da proteção social e do estímulo económico, mimetiza os perigos do “dinheiro de helicóptero”, não como ferramenta de gestão macroeconómica, mas como instrumento de captura da vontade popular e de condicionamento do voto atr...

Perspetivas da economia global e de Cabo Verde em 2026*

Imagem
O ano de 2026 apresenta-se envolto numa teia de incertezas económicas e políticas que condicionam tanto a evolução da economia mundial como as perspetivas de países estruturalmente vulneráveis, como Cabo Verde. A recuperação pós-pandémica aparenta ter estabilizado, mas a trajetória de crescimento permanece frágil. O Fundo Monetário Internacional (FMI) projeta um crescimento global de 3,1%, sinalizando uma moderação face a 2024 e 2025 e evidenciando limitações estruturais persistentes nas principais economias. A inflação mundial deverá prosseguir em queda, estabilizando em torno de 3,6%, após anos de forte pressão inflacionista resultante de disrupções nas cadeias logísticas, da guerra na Ucrânia e da escalada dos preços da energia e dos alimentos. Contudo, o ambiente externo mantém-se tenso e instável, com múltiplos focos de risco, desde as opções de política económica do presidente norte-americano Donald Trump às tensões geopolíticas no Médio Oriente e na Ásia-Pacífico. A retoma da pr...

Futuro da economia cabo-verdiana no fio da navalha

Imagem
Há momentos na história económica de um país em que os números deixam de ser apenas colunas de um quadro estatístico e passam a ser avisos. Cabo Verde está precisamente nesse momento. A despesa corrente elevada e rígida, a dívida pública que persiste acima dos limiares prudenciais e o peso desproporcional do serviço da dívida nas receitas do Estado constituem hoje não apenas um desafio técnico, mas uma questão de soberania económica, de responsabilidade intergeracional e de credibilidade nacional. Não se trata de dramatização. Trata-se de reconhecer que a trajetória atual não é sustentável e que continuar a percorrê-la, sem correções estruturais, significa aceitar o risco de um constrangimento fiscal crónico que limitará, de forma duradoura, a capacidade do país de decidir o seu próprio futuro. Ao longo da última década, os salários e encargos sociais, as transferências e os juros da dívida cresceram a um ritmo que não encontra respaldo proporcional nem no crescimento económico, nem na...

O insólito processo de criação da Ordem dos Economistas de Cabo Verde*

Imagem
Um amigo, economista sénior, enviou-me uma mensagem a perguntar se eu conhecia os dois projetos de lei que deram entrada no Parlamento com vista à criação da Ordem dos Economistas de Cabo Verde. Respondi-lhe que não e que, tal como para ele, também para mim tudo isto surgia como uma grande surpresa. Afinal, não se cria uma ordem profissional à socapa, sem transparência e, sobretudo, sem o envolvimento efetivo daqueles que ela se propõe representar. A criação de uma Ordem de Economistas em Cabo Verde é, em princípio, uma iniciativa legítima e desejável. O país precisa de uma entidade que regule a profissão, fixe padrões éticos e de qualificação e proteja o interesse público nas intervenções técnicas dos economistas. Contudo, a pertinência do objetivo não pode ocultar as insuficiências do processo em curso: apressado, opaco e desprovido de uma auscultação efetiva da própria classe. Há no país memória de uma tentativa anterior de organização coletiva da classe: a Associação de Economistas...

Como a desigualdade alimenta o populismo, segundo o Nobel de Economia 2025

Imagem
Vivemos num momento de clarificação histórica brutal, onde as velhas certezas macroeconómicas colidem violentamente com a realidade social das democracias liberais. A atribuição do Prémio Nobel da Economia de 2025 ao francês Philippe Aghion não é apenas o reconhecimento de uma carreira académica brilhante dedicada ao estudo do crescimento e da inovação; é, acima de tudo, um aviso à navegação para os decisores políticos globais e, muito particularmente, para nações em encruzilhadas de desenvolvimento como Cabo Verde. A tese central que Aghion colocou na mesa mediática no início do corrente mês de dezembro – “quando o crescimento económico não é inclusivo, abre-se a porta aos populismos” – encerra em si a chave para compreendermos a instabilidade que varre o Ocidente e que ameaça contagiar as democracias insulares que, até agora, se julgavam imunes. A análise dos dados empíricos das últimas quatro décadas, cruzando a estagnação da mobilidade social na Europa com os riscos de um capitalis...